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Startups do sono ganham investimentos e crescem na pandemia

Estudo da The Bakery mostra que brasileiros continuam a dormir pior, mesmo após a flexibilização da quarentena, mas estão buscando soluções para o problema; startups nacionais e estrangeiras surfam com alta da demanda

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

23 de janeiro de 2022 | 05h00

Dormir mal está afetando a saúde mental dos brasileiros. É o que aponta a pesquisa “Tendências do setor de bem-estar: o impacto da flexibilização da quarentena”, conduzida pela empresa de inovação corporativa The Bakery, que mapeou 70 startups nacionais e internacionais de bem-estar físico e mental que estão ajudando as pessoas com diferentes soluções tecnológicas - entre elas, as que miram na melhoria da qualidade do sono.

Lançado em dezembro de 2021, o estudo fez a atualização de um primeiro levantamento realizado pela consultoria em 2020, batizado de “O que tem tirado o sono dos brasileiros”. Nas duas pesquisas, quase metade dos respondentes sinalizaram que estão dormindo pior. Entre eles, 61% disseram que a qualidade do sono foi muito afetada pela pandemia. A segunda edição revelou ainda evidências do quanto isso pode afetar a saúde mental. Dos respondentes que estão dormindo pior, 65% alegaram ter a saúde mental afetada. Outro ponto é a relação entre modelo de trabalho e sono: 50% das pessoas que estão em home office hoje têm dormido pior, ante 45% na pesquisa anterior. 

A boa notícia, no entanto, é que  diminuiu de 53% para 32% o número de pessoas que não estão fazendo nada para tentar dormir melhor. “Uma boa qualidade de sono é essencial para a saúde física e mental. Com a extensão da pandemia por mais de um ano e a nova percepção de segurança da população por meio da vacinação, fizemos essa nova pesquisa para compreender se aquele comportamento inicial se mantinha ou não”, explica Felipe Novaes, sócio e cofundador da The Bakery.

“O estudo trouxe uma visão com foco em como as pessoas estão se sentindo nesse período de pós-quarentena, com a abertura de estabelecimentos e volta às aulas em formato híbrido, e quais são as startups brasileiras e internacionais que se destacam nesse cenário", complementa o executivo.

Sono pesado

Entre as soluções mapeadas pelo estudo, nove se debruçam sobre a qualidade do sono e receberam investimentos importantes no último ano. A finlandesa Oura, que desenvolveu um relógio inteligente para medir o desempenho do sono e um app que fornece feedback diário sobre a saúde do usuário, levantou, só em 2021, uma rodada de investimento de US$ 100 milhões.

Já a Bearaby, startup nova-iorquina de “cobertores pesados” sustentáveis que nasceu após arrecadar US$ 250 mil na plataforma de crowdfunding Kickstarter, expandiu seu e-commerce no ano passado não só para todos os Estados Unidos, como internacionalmente. Desde setembro, os brasileiros também podem comprar o cobertor anti-insônia da marca pela plataforma Nordstrom.com.

“Foi minha própria luta para dormir que me inspirou a lançar a Bearaby”, conta a fundadora, Kathrin Hamm. “Eu trabalhava como economista no World Bank, tinha acabado de me mudar para a Índia e ficava constantemente viajando de um país para outro, dormindo em aviões, o que me impossibilitava de pegar no sono. Durante o dia, eu não conseguia me concentrar e estava sempre cansada. Tentei de tudo, de colchões e travesseiros novos a monitoradores do sono e máquinas de ruído branco”, fala.

Foi quando ela se deparou com os weighted blankets (ou cobertores com peso) e a ciência da deep touch pressure (pressão profunda de toque, em tradução literal) que finalmente conseguiu dormir melhor. “Foi um alívio encontrar uma solução natural e sem medicação para meus problemas de sono, mas eu logo fiquei frustrada com o número limitado de opções de cobertores com peso no mercado”, diz a empreendedora. “Como os cobertores com peso são usados pela comunidade médica há décadas, vi a oportunidade de criar um produto que traz benefícios incríveis, como o descanso restaurador, natural e livre de medicamentos, para um público bem mais amplo - e de fazer isso de forma sustentável.”

Ela explica que os produtos da Bearaby são uma alternativa terapêutica para melhorar a qualidade do sono e de vida como um todo, além de aliviar a ansiedade. “Ativando a pressão profunda de toque, o peso sobre seu corpo estimula a produção de serotonina, que é o hormônio da felicidade, reduz o cortisol, que é o hormônio do estresse, e aumenta a melatonina, que conduz a uma mente mais calma e um corpo mais relaxado, permitindo que você durma a noite toda”, descreve. “Nossa missão é desestigmatizar o ato de dormir, tirar o sentimento de culpa dos cochilos e defender o descanso como parte não-negociável de um estilo de vida saudável.”

Ecologicamente responsável da fazenda até o sofá

Comprometida com o conceito de desperdício zero desde a fundação, três anos atrás, a startup usa somente tecidos ecologicamente responsáveis em seus cobertores tricotados a mão, como algodão orgânico, além de bolsas de armazenamento 100% recicladas e embalagens plástico zero. Hamm fala ainda que, enquanto a maioria dos cobertores do mercado usa enchimentos prejudiciais ao meio ambiente, como grânulos de polipropileno, os cobertores da Bearaby não têm nenhum enchimento artificial. 

“Em vez disso, a gente desenvolveu um método de construção de peso com camadas sobre camadas de tecidos orgânicos costurados a mão, que criam a mesma quantidade de peso de um modo mais eficaz e responsável”, destaca. “E todos os nossos cobertores são selados com um QR code rastreável, para que você acompanhe da fazenda até o sofá. Para cada cobertor que produzimos, cada parceiro com que trabalhamos e em toda decisão que tomamos, colocamos o planeta em primeiro lugar.”

Crescimento e internacionalização na pandemia

Primeira assistente pessoal do sono a conquistar aprovação da Anvisa, a plataforma brasileira SleepUp teve crescimento de 400% em 2021 no número de usuários mensais recorrentes, chegando a mais de 10 mil. De acordo com os estudos clínicos realizados até agora pela startup, os usuários tiveram um aumento de 30 minutos em média no tempo total de sono em 1 mês de uso, melhora de 30% nos sintomas de insônia e hábitos de sono e redução dos despertares noturnos. As pessoas conseguem também pegar no sono 55 minutos mais rápido.

O sucesso da empreitada das sócias Renata Bonaldi e Paula Redondo rendeu não só reconhecimento em 2021 - uma das top 10 na categoria Startup Revelação da premiação da Associação Brasileira de Startups, top 6 no Congresso Nacional de Hospitais Privados e primeiro lugar como startup revelação no programa de aceleração Inovativa, entre outros - como investimentos de anjos, somando R$ 2 milhões. Com isso, o time saltou de sete para 20 pessoas e a empresa avançou no processo de internacionalização da marca, aprovada em vários países.

“A SleepUp está atualmente buscando aprovação regulatória nos EUA e Europa e pretende disponibilizar os seus planos pagos nesses países até o meio de 2022”, revela Renata Bonaldi. No momento, a versão gratuita está disponível globalmente em inglês e a startup segue desenvolvendo sua faixa de cabeça (eletroencefalograma vestível) para viabilizar o monitoramento remoto do sono e a personalização da terapia digital. Segundo a empreendedora, o algoritmo de inteligência artificial foi capaz de realizar o estagiamento do sono com precisão de 94%, o que é considerado excelente. A SleepUp agora busca patentear a invenção para lançar no início de 2023.

Um milhão de horas de sono

A paulistana Vigilantes do Sono é outra que cresceu exponencialmente com seu app que monitora a condição do sono e ensina mudanças de comportamento e técnicas para dormir melhor. A startup teve aumento de 900% no número de profissionais da saúde parceiros em relação a 2020 e de 100% no número de pacientes atendidos. Foram 50 mil avaliações de insônia realizadas, com a estimativa de 1 milhão de horas de sono recuperadas. Com isso, o faturamento da empresa cresceu mais de 3.000% em 2021.

Selecionada pela FAPESP e pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo (Sebrae/SP) como um dos projetos aprovados para a segunda fase direta na “PIPE FAPESP-Sebrae: Da pesquisa ao mercado”, a Vigilantes deve receber um financiamento de R$ 1,25 milhões nos próximos 2 anos. Em março, mês em que se celebra o dia mundial do sono, a empresa também vai se apresentar no World Sleep Congress, em Roma, para revelar seus resultados: das pessoas que seguem a terapia digital até o final, aproximadamente sete em cada 10 se dizem livres da insônia.

 

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