Gabriel Llobet
Gabriel Llobet

Startups do agro inovam com rastreamento digital de ‘produtos’

Scanner para focinho do boi, sensores que monitoram árvores e identidade digital do guaraná são soluções de agtechs, que cresceram 40% em 2020 no País

Italo Bertão Filho, Especial para o Estadão

07 de novembro de 2021 | 05h02

O que o guaraná da Amazônia, o focinho de um boi e a mensuração da pegada de carbono de uma floresta têm em comum? Todos fazem parte de soluções desenvolvidas por agtechs, como são conhecidas as startups que vêm qualificando o agronegócio, da pecuária à produção florestal.

Aquecido, esse mercado cresceu 40% no ano passado (em relação a 2019), conforme o Radar Agtech Brasil 2020/2021, pesquisa realizada por Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Homo Ludens Research and Consulting e SP Ventures, com o apoio do Ministério da Agricultura. Desde o ano passado, diversas startups têm passado por processos de aceleração de gigantes digitais como Google e Facebook, de olho no potencial de inovação do  agronegócio brasileiro.

Na última semana, o governo federal reforçou, durante a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-26), que o Brasil pretende chegar à neutralidade de carbono em 2050. Percebendo a relevância que o mercado de carbono ganhou no mercado internacional, a startup Treevia, de São José dos Campos (SP), redefiniu seus planos em 2021, focando em qualificar a mensuração da pegada de carbono.

A startup está concluindo um processo de aceleração em Singapura, onde foi a única brasileira entre cinco startups selecionadas para trabalhar na qualificação do mercado de carbono. “Um crédito de carbono vem acompanhado da expectativa de que a área vai reter carbono por, no mínimo, 30 anos. Mas quem compra o crédito quer confiabilidade à informação, para aferir se o crédito está sendo realmente revertido. Nossa solução permite esse controle”, afirma o CEO da empresa, Esthevan Gasparini. Hoje, o sistema da Treevia possui mais de 2 mil sensores, que abrangem mais de 80 mil hectares de florestas. Entre seus clientes, estão gigantes do setor como Suzano e CMPC.

Criada em 2016 por engenheiros florestais da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), a startup ganhou impulso ao lançar um sistema, o SmartForest, que possibilita a mensuração on-line dos ciclos de produção florestal utilizando sensores, sem a necessidade do método tradicional, que exige uma cadeia de várias pessoas e diferentes agentes em cada fase. “Desenvolvemos esse sistema percebendo as dificuldades práticas do método tradicional e a falta de confiabilidade dos resultados”, recorda Gasparini.

Neste mês, a Treevia foi uma das 10 agtechs brasileiras selecionadas em um programa de aceleração do Google, para aprimorar a utilização de ferramentas de nuvem e machine learning. Para os próximos cinco anos, a startup pretende chegar a mais de 1 milhão de sensores em todo o mundo - hoje, a empresa possui negócios no Brasil e no Uruguai. 

Gasparini acredita que o sistema da Treevia possui a vantagem de ter um produto global e de fácil aplicação. A aceleração do Google vem para agregar a capacidade tecnológica dos sensores. “Chegamos a ter alguns casos de instalação totalmente remota. Queremos conectar as florestas ao redor do mundo”, pontua o CEO da startup.

Focinho do boi: identidade digital

O Brasil hoje possui 1.547 agtechs, conforme o Radar Agtech Brasil 2020/2021. O Estado de São Paulo concentra 48% delas. Apesar disso, em um ano, o Nordeste deu um salto porcentual de 84%, passando de 39 para 72 startups, boa parte delas concentrada na Bahia, onde teve origem a Databoi, hoje com sede no Rio de Janeiro.

Criador de gado no sul da Bahia, o pecuarista Floriano Varejão identificou um problema recorrente nas fazendas: a dificuldade de controle individual do rebanho. Usualmente, a identificação dos bois é realizada por brinco na orelha de cada animal. Também são utilizados chips e marcação a ferro. Caso o animal perca o chip ou o brinco, ou ainda fuja do rebanho, o controle fica mais difícil. Para resolver a questão, Varejão se juntou à aceleradora carioca Templo Ventures e criou em agosto do ano passado, no Rio, a startup Databoi.

Em parceria com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), de Campinas (SP), a Databoi desenvolveu um sistema de inteligência artificial que elimina a necessidade de brincos ou marcações. “Pensamos numa maneira que resolvesse o problema de forma digital, sem a necessidade de uma logística complexa e sem que algo pudesse se perder ou quebrar”, explica Varejão.

Com apenas uma fotografia do focinho do boi, o produtor pode cadastrar todas as informações sobre o animal - peso, nascimento, raça, entre outros dados. Apresentando ranhuras que permitem a diferenciação de cada animal e perduram toda a vida, o focinho do boi se assemelha à impressão digital dos seres humanos. A Databoi promete uma assertividade de 93% na identificação dos animais.

Em fase de testes, o app da Databoi deve ser lançado oficialmente no primeiro semestre de 2022. A startup almeja criar um ecossistema que permita ao pecuarista identificar quantas cabeças possui, qualificar o seu produto de olho no mercado internacional e ainda obter crédito junto às instituições financeiras. 

Pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades para obter financiamentos. Conforme uma pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgada neste ano, 38% dos produtores rurais nunca contratou crédito rural. “No caso da pecuária, isso se agrava porque o produtor não consegue utilizar a criação como garantia pela falta de informações exatas sobre as cabeças de gado. O app vai trazer a possibilidade de obter crédito de forma mais rápida e mais fácil”, afirma Varejão.

Guaraná com DNA de origem

No Amazonas, mais de 300 famílias produtoras de guaraná passaram a utilizar um sistema on-line desenvolvido no Sul para garantir a rastreabilidade do guaraná fornecido à Coca-Cola para refrigerantes como Kuat e Fanta Guaraná. Com isso, a multinacional pode assegurar aos clientes que seu guaraná vem da floresta amazônica. A solução foi criada pela Elysios, agtech de Porto Alegre, e mira pequenos produtores de frutas, legumes e verduras.

A startup surgiu a partir de uma inquietação de cinco amigos que queriam plantar tomate para revendê-los a restaurantes da Serra Gaúcha: como produzir com qualidade e sem perdas? No Rio Grande do Sul, 42% das agtechs se dedicam a desenvolver sistemas de gestão para propriedades rurais. 

O diferencial da Elysios foi a criação de um sistema, o Caderno de Campo Digital, que permite ao produtor rural tanto a mensuração dos resultados na lavoura in loco como a emissão de etiquetas com a comprovação da origem da produção. Desde o começo deste ano, a Elysios viu sua carteira de clientes aumentar mais de 300%, saltando de 600 produtores para 2,2 mil. 

“O salto pode se explicar por termos focado em um nicho, a agricultura familiar, onde está a produção de frutas, verduras e legumes. A resposta ao Caderno de Campo Digital vem sendo muito boa”, diz Frederico Apollo Brito, CEO e um dos fundadores da startup. A Elysios hoje possui clientes em 18 Estados.

A escalada da Elysios conta com o apoio de diferentes projetos de aceleração. No fim do ano passado, a startup foi selecionada para um programa de aceleração do Facebook em parceria com a empresa Baita. Em paralelo, a Elysios também recebeu aporte e apoio de um programa de startups do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), em que concorreu com mais de 100 empresas gaúchas. “Com isso, iniciamos nossa área de marketing digital, para também nos posicionarmos como a maior plataforma dentro da horticultura”, afirma Apollo Brito.

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