Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Startup usa tecnologia e pé na estrada para levar saúde a quem está na fila do SUS

SAS Brasil encurta distância entre médicos e pacientes com telemedicina e unidades físicas itinerantes; empresa ganhou prêmio de Inovação em Medicina Social em 2020

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2022 | 05h00

Foi depois de assistir ao documentário Quem se Importa?, que conta histórias de empreendedores sociais, que Adriana Mallet e Sabine Zink decidiram contribuir com a melhora do acesso à saúde no Brasil. “A gente estudou na mesma faculdade, uma universidade pública, somos de famílias privilegiadas e tínhamos o desejo de retribuir esse privilégio. Acho que esse desejo estava adormecido”, conta Sabine, formada em Educação Física com mestrado em Pedagogia.

Elas saíram do cinema, se abraçaram e choraram por uma hora. Aquela sensação se renovou e elas tinham de fazer alguma coisa. Na trajetória de Adriana, que hoje é médica, o acesso à saúde é uma questão antiga. De quatro tias com câncer de mama, três receberam diagnóstico tardio por falta de atendimento especializado. Quando ela tinha 10 anos de idade, viu uma delas morrer por causa da doença. “Fui fazer Medicina muito com essa visão de acesso, porque, se minhas tias tivessem descoberto mais cedo, talvez elas estivessem vivas.”

Com um carro 4x4 recém-comprado e uma vontade de viajar pelo sertão brasileiro, as duas se inspiraram no Projeto Saúde e Alegria, um dos cases apresentados no documentário, que atua na Amazônia, e fundaram a SAS Brasil em 2013. Casadas, uniram no projeto o que havia de melhor em cada uma: a saúde por parte de Adriana e a alegria por parte de Sabine. “Eu cheguei a fazer alguns meses de residência em anestesiologia e brinco que fui saindo do hospital. Saí do centro cirúrgico para o pronto socorro, do pronto socorro para o Samu e do Samu para as expedições”, lembra a médica.

Hoje, a startup social proporciona acesso gratuito a médicos especializados, a maioria voluntários, como oftalmologistas e ginecologistas, a pessoas que estão na fila de espera do Sistema Único de Saúde, desafogando uma rede saturada. Em parceria com secretarias de saúde, a instituição atende de modo virtual ou presencial, oferecendo mais de 20 especialidades médicas em seis áreas. Conta, ainda, com uma plataforma de atendimento online que pode ser usada de qualquer lugar do Brasil.

“A gente entendeu que a falta de acesso muitas vezes é uma questão mais geográfica do que de renda”, diz Adriana. “É nesse gargalo que a gente entendeu que nossa atuação seria mais impactante”, completa Sabine. Com um modelo chamado de Saúde 1.5, a entidade atua entre a atenção primária, que fornece consulta com médicos generalistas, por exemplo, e a atenção secundária, focada no ambulatorial que encaminha pacientes para procedimentos mais complexos no nível terciário.

Modelos de empresa

Muitas pessoas estranham o termo “startup social”, diz Adriana, mas ela descarta a nomenclatura ONG e justifica que a ideia de startup é aprender rápido e se adaptar por um propósito. “A gente sabe que tem que começar pequeno, porque é um problema gigante que a gente não resolve com antigas soluções. E nenhuma nova solução nasce pronta e em grande escala. Então, a mentalidade foi de testar modelos.”

A empresa começou fazendo expedições com tendas que eram montadas e desmontadas todos os dias nas cidades por onde passavam, a princípio no Nordeste. As pessoas eram avisadas sobre o atendimento no dia, cujo foco era identificar e tratar câncer de pele, mas nem todas tinham uma real necessidade. Para otimizar o trabalho, a entidade buscou as secretarias de saúde para saber quem já estava na fila de espera do SUS para uma consulta especializada. A efetividade se estendeu à estrutura e elas adotaram contêineres e depois carretas para abrigar os encontros entre médico e paciente.

Outro passo foi testar a telemedicina, desde 2018, para identificar previamente quais pessoas necessitavam de pequenas cirurgias, que seriam realizadas no período da expedição. Antes desse recurso, de cada cem pacientes previamente selecionados para atendimento, cerca de 12 tinham um problema grave que demandava procedimento cirúrgico. Depois, a triagem ficou mais apurada e, dos cem selecionados, 67 precisavam da cirurgia. Isso otimizou a estrutura necessária para cada expedição.

Tecnologia para inovação

Para que a atuação não seja pontual, Sabine explica que cidades são selecionadas de acordo com as necessidades para receber as unidades de telemedicina avançada (UTA), mais um produto testado. Atualmente, são quatro instaladas nas cidades de Cavalcante (GO), Santo Amaro (MA), Cruz e Acaraú (CE). “Ela fica por pelo menos um ano na cidade para a gente ter um processo de continuidade maior dentro do modelo municipal. A expedição serve como uma primeira avaliação de quais cidades vão receber.”

A startup investiu em tecnologia e conta também com uma plataforma própria para atendimento de qualquer pessoa, sendo que o primeiro contato pode ser feito por um número de WhatsApp. Para quem não tem celular ou acesso à internet, a SAS Brasil atua com cabines de teleatendimento, onde um profissional de saúde com um aparelho de telefone faz a mediação da consulta.

Essas estruturas, equipadas com monitores, sistema de desinfecção automática e aparelhos para medição de sinais vitais, foram utilizadas no primeiro ano de pandemia em comunidades do Rio de Janeiro e de São Paulo e venceram o Prêmio Dasa & Abril de Inovação Médica, em 2020, na categoria Inovação em Medicina Social.

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Outro recurso é um software que permite realizar exames de imagem com acompanhamento a distância em tempo real. Por exemplo: uma mulher grávida que mora no interior do Ceará pode ir a uma UTA fazer um ultrassom, que será visto na tela por uma ginecologista no Rio de Janeiro. A ferramenta é utilizada no exame preventivo de colo do útero e em breve deve ser reforçado com outra inovação: um algoritmo que analisa resultados e indica quais têm a maior probabilidade de indicar câncer.

“Só vai viajar uma mulher que, de fato, tem uma alteração. A gente faz mais de 300 mil exames. Deveria fazer três vezes mais para fazer diagnóstico precoce das mulheres, que esperam um ano na fila só para ver o colo e 60% delas não têm nada. A ideia é ganha

Recurso financeiro é maior desafio 

Nos dois primeiros anos, a SAS Brasil se manteve com financiamento coletivo em plataforma online e investindo do próprio bolso (equipe e voluntários) quando necessário. No terceiro ano, a farmacêutica Roche entrou como primeira patrocinadora e se mantém até hoje, com a proposta de que os colaboradores da companhia participem como voluntários nas ações da startup.

“Nós acreditamos que a parceria com a SAS Brasil fortalece a nossa missão de levar mais saúde e qualidade de vida para a sociedade. Sabemos dos enormes desafios que o Brasil enfrenta para atender a população, o que se torna ainda mais complexo tendo em vista as dificuldades geográficas do nosso País”, diz Sarah Chaia, diretora do departamento jurídico, Parcerias Sustentáveis, Responsabilidade Social e Sustentabilidade & Compliance Officer da Roche Farma Brasil.

Em 2017, o Hospital Albert Einstein entrou como apoiador e, desde então, outras empresas integraram o rol de provedores financeiros, o que permitiu à startup contratar médicos para coordenar áreas e outros profissionais para diferentes funções. “Sustentar uma equipe de 50 pessoas com doação não é fácil”, diz Sabine, que percebeu que ter grandes doadores como principal fonte de recurso é pouco sustentável. Além disso, ela afirma que o custo operacional de deslocar equipes pelo Brasil é muito alto e seria eficiente ter apoio de companhias aéreas ou locadoras de carros, por exemplo.

“Hoje, a gente faz um trabalho com pessoas físicas. Ter uma base de 50 mil pessoas doando R$ 100 e chegar nos R$ 5 milhões é muito mais sustentável do que ter cinco grandes apoiadores de R$ 1 milhão. Se de um ano para o outro um apoiador cancela, é um rombo de orçamento.”

Como as fundadoras entenderam que renda nem sempre é o maior problema de quem não tem acesso à saúde, um dos planos da SAS é criar um formato em que algumas pessoas paguem pelo atendimento e, consequentemente, banquem a consulta ou o exame de quem não pode investir nesses cuidados.

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