Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Startup quer ajudar o Afeganistão a crescer com o açafrão

O negócio é parte de um grupo de esforços para ajudar a desenvolver os recursos econômicos do país

Aili McConnon, The News York Times

25 de agosto de 2016 | 05h00

Estradas bombardeadas, apagões frequentes, escassez de equipamento básico e um mercado consumidor não testado dificilmente são as condições naturais para oportunidades empresariais.

Mas três veteranos do exército e uma civil que serviram no Afeganistão assumiram todos esses desafios em seu novo empreendimento. Sua empresa, a Rumi Spice, compra açafrão de agricultores afegãos e o vende para clientes internacionais.

O negócio é parte de um grupo de esforços para ajudar a desenvolver os recursos econômicos do Afeganistão.

"Queríamos criar algo para capacitar os afegãos depois que saímos de lá", disse Kimberly Jung, uma das fundadoras da Rumi Spice, que contou que o nome da empresa foi inspirado pelo poeta persa do século 13.

Inaugurada há dois anos, a Rumi Spice agora vende açafrão que é usado por chefs de restaurantes de renome como o French Laundry, na Califórnia, e o Daniel, em Nova York e que apareceu nas prateleiras e no site da loja de comida de luxo Dean & DeLuca em agosto.

O açafrão é uma das especiarias mais caras do mundo, custando entre US$2.500 e US$30 mil o quilo. É um dos ingredientes básicos da culinária indiana, marroquina e persa e também um ingrediente importante em pratos europeus, como a paella espanhola e a bouillabaisse francesa.

Agora que os americanos estão em busca das mais recentes tendências artesanais, o açafrão afegão está começando a aparecer.

"Como o dinheiro da ajuda global ao Afeganistão diminuiu, uma nova mentalidade de empreendedorismo cresceu", disse Ahmad Fahim Didar, o diretor do novo ramo afegão da Startup Grind, comunidade global de startups que trabalha com o Google for Entrepreneurs.

Os fundadores da Rumi Spice decidiram se concentrar nos agricultores porque 80% da população afegã trabalham na agricultura, de acordo com a Embaixada americana em Cabul.

No entanto, quem quer começar um negócio no Afeganistão, mesmo que pequeno, enfrenta vários desafios. Muitas negociações são feitas com base na confiança ou em relacionamentos em vez de contratos ou acordos. No caso deles, os fundadores descobriram que alguns dos contatos que fizeram na época em que estavam lá, como militares, foram receptivos a trabalhar juntos.

Além disso, a falta de eletricidade é algo comum, o que pode inutilizar os secadores necessários para o processamento. A principal estrada nacional está danificada pela guerra e ainda é um grande alvo de dispositivos explosivos improvisados, fazendo com que as viagens sejam arriscadas.

O açafrão é caro porque seu cultivo é difícil e a colheita é muito trabalhosa. Cada planta de açafrão cor de ametista produz apenas três estigmas, que são colhidos à mão e depois desidratados, transformando-se em fios cor de ferrugem.

Cerca de 150 flores são necessárias para produzir um único grama do produto. O açafrão afegão tem uma reputação de ser particularmente saboroso – em parte por causa do terreno e do clima da região de Herat, onde é cultivado.

Em 2014, Keith Alaniz, oficial de engenharia do exército que trabalhou com os governos regionais no Afeganistão, veio falar com sua amiga Kimberly, que conheceu enquanto trabalhava para o Corpo de Engenheiros do Exército após o furacão Sandy em Nova York, sobre a ideia de comercializar o açafrão afegão.

Ela era a oficial que procurava bombas nas estradas do Afeganistão. Na época, frequentava a Escola de Administração de Harvard com Emily Miller, também ex-engenheira do exército, que havia ajudado o grupo de operações especiais em incursões noturnas.

A quarta fundadora da empresa, Carol Wang, havia trabalhado no Afeganistão em um programa de desenvolvimento rural apoiado pelo Banco Mundial.

Um dos argumentos para trazer o açafrão para o mercado internacional é que ele poderia dar os agricultores afegãos uma alternativa ao cultivo de ópio, fonte de heroína.

"No início, os agricultores estavam céticos porque já tinham visto as pessoas virem com muitas promessas e depois irem embora", disse Kimberly.

E Emily completou: "Porém, depois que começaram a ver que realmente poderíamos vender o produto, começaram a bater à nossa porta".

A Rumi Spice trabalhou com 34 agricultores em 2015 e planeja trabalhar com mais de 80 para a colheita deste ano, em outubro e novembro.

O próximo passo foi abrir uma fábrica de processamento. Em abril de 2015, a Rumi Spice começou uma campanha no Kickstarter e levantou cerca de US$33 mil em menos de dois meses.

A fábrica de processamento, localizada em Herat, empregou 75 mulheres afegãs em 2015. A empresa pagou os salários diretamente a elas em vez de seguir a prática afegã de pagar ao homem da casa. Cerca de 300 a 400 mulheres vão ser contratadas para a colheita de 2016.

A Rumi Spice foi inicialmente criada como uma empresa limitada. Um ano depois, os proprietários optaram por uma corporação de utilidade pública. "Gostamos da ideia de a empresa ter, por lei, que relatar seu lucro e impacto a cada dois anos aos acionistas", disse Emily.

Em 2016, a Rumi Spice está a caminho de alcançar sua receita projetada de US$500 mil por ano. Os fundadores dizem que se tornou rentável há três meses.

Trazer os investidores a bordo não foi fácil, por causa de preocupações sobre a violência do Talibã. A maior parte do orçamento do governo depende de ajuda externa e o grupo insurgente ainda controla grandes áreas do país.

"Parecia perigoso e insano produzir açafrão no Afeganistão", disse Douglas Doan, fundador da Hivers and Strivers, grupo de investidores-anjos que financia startups criadas por militares veteranos. O grupo esperou seis meses para investir.

A Hivers and Strivers e a Golden Seeds, grupo de investimento que apoia startups criadas por mulheres, investiram juntas US$272 mil.

A Rumi Spice contratou os habitantes locais para garantir a segurança das operações no Afeganistão.

Abdul Shakoor Ehrarri, especialista em agricultura, gerencia a fábrica de processamento de açafrão. Ele também se reúne com novos agricultores e ajuda a recrutar trabalhadoras, tomando chá com seus maridos, pais ou irmãos para lhes garantir que estarão seguras no local de trabalho.

Ajuda também o fato de que a região de Herat, onde a fabrica está localizada, é uma das mais estáveis do Afeganistão.

Além da segurança, a equipe da Rumi Spice diz que outro desafio é educar os consumidores americanos sobre o açafrão. "O consumidor médio é muito cético com as coisas afegãs", disse Emily.

Os chefs, no entanto, têm sido receptivos. Muitos já usaram o açafrão de alta qualidade e estavam curiosos para experimentar a variedade afegã.

Outra grande oportunidade veio do Bunker Labs, grupo nacional sem fins lucrativos que apoia startups comandadas por veteranos.

O Bunker Labs apresentou a Rumi Spice para a FamilyFarmed, que comanda aceleradoras e incubadoras de startups alimentícias. O grupo sem fins lucrativos conecta novas empresas com varejistas como Whole Foods e United Natural Foods, grande distribuidora de alimentos orgânicos e especiais.

A FamilyFarmed ajudou a Rumi Spice a refinar sua marca. "Inicialmente estavam ajudando os agricultores afegãos, pagando um preço alto pelo açafrão e acabando com a produção de ópio. Nós os ajudamos a simplificar a história. Agora são uma marca de luxo ética", disse Jim Slama, presidente da FamilyFarmed.

A Rumi Spice também explora novos canais para atingir os clientes, tais como serviços de entrega de refeições. "Estamos estudando também o desenvolvimento de produtos de ponta, como manteiga de açafrão, que poderia ser usada em uma lagosta fresca do Maine", disse Emily.

Mas mais do que o aspecto de negócios, Kimberly disse que a conexão com o povo afegão foi o destaque do empreendimento.

Ela se lembra de um momento especial durante a colheita de outubro passado: a certa altura, as mulheres mais jovens trabalhando na nova fábrica de processamento, algumas delas adolescentes, timidamente pediram que Kimberly tocasse uma música da Beyoncé, "Irreplaceable", em seu telefone.

Elas fecharam a porta, e improvisaram uma dança – e então voltaram para a demorada tarefa de separar os estigmas avermelhados das flores de açafrão roxas.

Citando um ditado afegão, Kimberly disse: "Um rio é feito gota a gota".

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