Reprodução/Arbache Innovations
Reprodução/Arbache Innovations

Startup e Sodexo se unem para combater violência contra a mulher

Em projeto de inovação aberta, empresas criam game gratuito baseado na Lei Maria da Penha; solução ilustra agilidade que pequeno negócio pode aportar em ações com grandes empresas

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2021 | 05h00

Para tratar o tema da violência contra a mulher na sociedade civil e também no ambiente corporativo, a startup de gamificação e soluções customizadas em people analytics Arbache Innovations e a multinacional francesa Sodexo se uniram em um projeto de inovação aberta. Voltado para a responsabilidade social, as empresas criaram um game baseado na Lei Maria da Penha, que retrata os cinco tipos de violência doméstica - moral, psicológica, patrimonial, sexual e física. Os temas são explicados e expostos ao jogador por meio de situações reais e da resolução de problemas de uma personagem central, que vive um relacionamento abusivo. 

Este é mais um caso em que uma grande empresa se une a uma pequena para gerar inovação e resolver problemas de forma ágil. Entre Arbache Innovations e Sodexo, o foco ainda vai além de uma solução interna, já que a ideia é fazer com que o game ganhe escala e ajude a resolver e explicar um problema social. 

Por mais que o game esteja aberto para que qualquer pessoa o jogue de forma gratuita, Ana Paula Arbache, pós-doutora em educação e sócia da startup, ressalta que a violência contra mulher impacta profundamente no desenvolvimento delas como profissionais, acarretando não apenas em traumas e risco de morte, mas também em perdas financeiras para ela e para as empresas que as contratam. 

“A priori, esse era um tema da sociedade civil. Mas a partir do momento em que essas mulheres sofrem violência dentro de casa e isso interfere na rotina do trabalho, ele passou a ser um problema da organização também. É uma discussão de direitos humanos dentro do ambiente organizacional”, diz Ana Paula. A especialista ainda conta que com a necessidade de se pensar em políticas mais efetivas sobre diversidade e inclusão, grandes empresas querem embarcar o game internamente como uma das ações para fortalecer a área. Três grandes empresas utilizam o jogo atualmente, conta Ana Paula. 

É possível embarcar o game da forma como ele está ou adicionar um analytics, para que a organização saiba ler os resultados adequadamente. “Dependendo do que elas procuram ou do número de colaboradores, será preciso criar outros links e interfaces”, diz Ana Paula. Jogado em cinco rodadas, em que cada uma trata de um tipo de violência, o game funciona como um simulador de realidade, que é o core business da startup. 

Cocriação para promover inovação aberta 

Lançado em setembro de 2020, o jogo surgiu de uma conversa com a ONU Mulheres, outra parceira do projeto. “Juntei um time multidisciplinar para desenvolver o game, que conta com uma juíza, uma advogada, uma psicóloga, entre outras profissionais voluntárias”, diz. Ana Paula afirma que a startup custeou o desenvolvimento de toda a ferramenta, com cerca de R$ 35 mil. 

Entre as voluntárias do projeto estava Lilian Rauld, head de diversidade e inclusão da Sodexo On-site Brasil. Foi assim que a multinacional entrou e passou a atuar para apoiar o projeto. Todas as situações vividas pela personagem central do game são situações reais também vividas pelas colaboradoras da empresa. Além disso, a Sodexo faz a divulgação do jogo para as empresas de todos os portes que contratam seus serviços. 

A multinacional também implantou o game para mapear entre os colaboradores o nível de entendimento sobre os tipos de violência que uma mulher pode sofrer e, assim, trabalhar internamente o tema com mais assertividade. “Temos mais de 42 mil colaboradores no Brasil, dos quais 65% são mulheres. Isso implica em uma preocupação constante da empresa pelo tema”, diz Lilian. “Muitas mulheres que sofrem violência faltam ao trabalho porque têm vergonha de ir trabalhar desse jeito ou mesmo sentem medo de serem mandadas embora”, completa.

Lilian ainda explica como a tecnologia pode ser uma grande aliada para um trabalho efetivo com os colaboradores. “Com o game, você consegue monitorar as pessoas que jogaram. Quando se distribui manuais e guias em papel, você não consegue fazer isso. Não sabe se elas leram ou não ou se os companheiros tomaram a informação delas, por exemplo”, diz. A gestora ainda conta que a Sodexo tem um canal próprio de apoio a denúncias de violência. 

Cenário da violência contra a mulher 

De acordo com a ONU Mulheres, a violência contra mulher é uma pandemia invisível. Em abril de 2020, a organização divulgou que menos de 40% das mulheres vítimas de violência em todo o mundo buscavam qualquer tipo de ajuda ou denunciavam o crime e menos de 10% das mulheres que procuravam ajuda iam à polícia. “As circunstâncias atuais tornam os relatórios ainda mais difíceis, incluindo limitações no acesso de mulheres e meninas a telefones e linhas de ajuda e interrompem serviços públicos como polícia, justiça e serviços sociais”, diz o relatório. 

Ainda de acordo com o estudo da ONU Mulheres, se não for tratada, a violência contra a mulher aumentará o impacto econômico da covid-19. “O custo global da violência contra as mulheres já havia sido estimado em aproximadamente US$ 1,5 trilhão. Esse número só pode aumentar à medida que a violência aumenta agora e continua após a pandemia.”

No Brasil, o Disque 100 e Ligue 180 receberam 290 denúncias de violência contra a mulher por dia em 2020. 

* Para denunciar casos de violência contra a mulher, ligue 180.  

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