Jose Patricio/Estadão
Jose Patricio/Estadão

Startup de polinização faz negócio como o ‘Uber’ das abelhas

Agrobee conecta agricultores e criadores de abelhas por meio de geolocalização; polinização assistida aumenta produtividade e qualidade de frutos, diz Embrapa

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 06h00

A existência de um aplicativo que conecta criadores de abelhas e agricultores para fazer polinização em lavouras de diferentes culturas é menos curiosa do que descobrir que a relação entre as duas partes é conflituosa e motivo principal para o atraso do uso da prática no País. Com a proposta de gerar eficiência no campo e ainda com missão pedagógica, a startup Agrobee entra no mercado após a primeira versão do aplicativo ser lançada em agosto.

Na prática, o aplicativo facilita o contato entre agricultores e apicultores por meio de uma plataforma de geolocalização, evitando longos deslocamentos. Além de conectar pela proximidade, um time de técnicos auxilia em todas as etapas, com avaliação de déficit de polinização da lavoura, orientação sobre quais espécies de abelhas são recomendadas e a quantidade de colmeias a serem alugadas. Do lado do criador de abelhas (tanto europeias ou africanas quanto nativas), a equipe da Agrobee auxilia no controle de insumos usados na plantação, para não colocar a vida das abelhas em risco.

Mas, antes da prática, a teoria tem sido fundamental para a empresa convencer os agricultores do benefício da polinização. “O produtor vê o criador de abelhas como alguém que apenas tem benefícios em colocar as abelhas em sua propriedade. Como se o agricultor estivesse fazendo um favor para o criador de abelha. Temos como objetivo mudar isso”, explica Andresa Berretta, sócia-fundadora da Agrobee.

A empresa surgiu da união da farmacêutica com o especialista em TI Guilherme Sousa e o especialista em polinização e ex-presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel) Carlos Rehder. Após se conhecerem em um evento com apoio da Fapesp, eles formataram o projeto e o inscreveram em um edital da instituição. Com o apoio financeiro, começaram a empresa em 2018, com cooperação técnica da Embrapa.

Estudos da Embrapa Meio Ambiente iniciados em 2012 em parceria com a Fapesp foram fundamentais para informar os agricultores. “Sabíamos que em lavouras de café, por exemplo, havia aumento de 28% na produção apenas com a polinização disponível na natureza”, conta o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Cristiano Menezes.

De acordo com Cristiano, ponto de apoio teórico e técnico da Agrobee, no Brasil a polinização desse tipo ainda engatinha. “Nos EUA, existem 2,5 milhões de colmeias para polinização. Alguns apicultores chegam a ter 25 mil colmeias e agricultores pagam até US$ 200 por colmeia.” Enquanto isso, diz, aqui são cerca de 50 mil colmeias de abelhas africanas alugadas por ano para lavouras de maçã e melão, 100% dependentes da prática.

Lavoura de café

Essa realidade começa, aos poucos, a mudar. Em 2018, a Agrobee chegou ao mercado timidamente apenas com um site e um vídeo. O time de técnicos e pesquisadores iam a campo, pessoalmente, para explicar o modelo da empresa.

“Começamos com quatro fazendas de café. Em uma delas, no interior de São Paulo, tivemos um aumento de 50% na produção. Em outra, no sul de Minas Gerais, com café irrigado, o aumento foi de 107% na produção”, conta Andresa.

Atualmente, a plataforma tem cadastrados 5 mil hectares de lavoura e 30 mil colmeias. O foco da Agrobee neste ano são as culturas de café e morango, que somam 18 produtores com colmeias em suas lavouras neste momento. Para se manter, a startup cobra de 15% a 20% do contrato feito entre o apicultor e o agricultor. Já esse valor varia de acordo com a lavoura, a espécie de abelha e a quantidade de colmeias alugadas, entre outros.

Além de registrar aumento de quantidade e qualidade de frutos polinizados, a Agrobee destaca os benefícios em relação à sustentabilidade da plantação. “A polinização abre uma janela para introduzirmos novas tecnologias, como o controle biológico de pragas”, conta Cristiano.

Como atividade econômica, ele destaca que o País pode ser uma potência em polinização. “O grande desafio é como fornecer polinizadores em grande escala. A Embrapa está atuando com o desenvolvimento de tecnologia para a criação de abelhas sem ferrão em escala, as chamadas biofábricas.”

Ainda segundo o pesquisador, para isso os criadores de abelha devem se aprimorar, já que prepará-las para a produção de mel é diferente. “(Para polinização), é preciso dar reforço de alimentação e fazer planejamento para que a colmeia esteja forte. Tem também toda a técnica de transporte da colmeia”, diz.

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