Bruno Geraldi
Bruno Geraldi

Sócios no amor e na empresa: casais contam como sustentar negócio e casamento

Conheça a história dos casais de Botanikafé, Vermú Queijaria, cachaça Alzira e Papel Semente e como fazem para manter negócio e relacionamento em dia; especialista dá dicas para que a união funcione

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

12 de outubro de 2021 | 05h02

Ter ou não um sócio é uma das primeiras dúvidas de quem pensa em empreender. Além de sinergia, afinal, é preciso que os sócios estejam alinhados em valores e propósito e se comprometam com o sucesso do negócio. Mas e quando o sócio é também o parceiro no amor? Não são poucos os exemplos de casais que decidem empreender juntos, mas como fazer para que o relacionamento não sabote a empresa e vice-versa?

Para a especialista em psicologia organizacional Fernanda Tochetto, autora do livro Destrave Sua Vida e Saia do Rascunho (ed. Gente), uma parceria nos negócios pode tanto alavancar quanto afundar o relacionamento. Para que a ideia não tenha vocação de Titanic, ela fala que é fundamental primeiro entender que ambos têm uma carreira.

“A pessoa precisa pensar no que de fato quer para a carreira dela, como enxerga o próprio futuro, antes de somar com o outro”, afirma. Se os propósitos e valores estiverem alinhados, o segundo passo é entender quais as competências de cada um, lembrando que as diferenças agregam. “Também precisa conhecer sobre o negócio e realmente entender o mercado antes de começar”, orienta a psicóloga.

E aí é hora de definir quem faz o quê. “Muitos casais têm sucesso porque as regras são claras”, diz a especialista. “Os papéis são bem definidos, assim como o pró-labore e a separação entre as finanças da empresa e as pessoais”, ela exemplifica, lembrando que a questão financeira pega bastante. “Metade das separações (em casamentos) acontece por motivos financeiros. Se a ideia é empreender junto, o casal vai depender da mesma fonte de renda e precisa saber muito bem administrar os riscos.”

Unidos pelo brunch

O empreendedor Felipe Scarpa e a arquiteta Manuela Albuquerque tinham acabado de começar a namorar quando ela se mudou para Barcelona para fazer uma pós-graduação. Quando ele a visitava, costumavam visitar os cafés da cidade espanhola. “Ficamos viciados em brunch”, ele conta, referindo-se à refeição que une café da manhã e almoço. 

De volta ao Brasil, os dois sentiram falta da modalidade e pensaram até em servir brunch em casa, de forma bem despretensiosa. Até que uma amiga abriu uma loja que tinha espaço para um café e eles decidiram mergulhar de cabeça na ideia. Assim nasceu o Botanikafé. “No começo era muito nós dois fazendo tudo: o Felipe na cozinha e na operação, eu na parte administrativa. Nosso dia a dia era totalmente em função do café", relata Manuela. 

O esforço rendeu frutos. A dupla conta que a história deu tão certo - e tão rápido - que chegou a ser chocante. “Decidimos expandir, mas direito. A gente precisava contratar pessoas para estar do nosso lado e também para poder fazer aquilo que a gente mais gosta”, diz o empreendedor. Hoje, indo para a quarta loja e com uma operação de delivery, eles se uniram a um grupo que cuida da parte administrativa, do jurídico e do RH, enquanto Manuela toca o tudo que envolve a marca, entre os projetos de design e a parte de mídia, e Felipe segue na operação e em novos negócios.

Eles falam que o primeiro ano foi bastante desafiador, mas conseguiram afinar a orquestra. Agora o Botanikafé contribui muito para o relacionamento, por ser algo que construíram juntos. “A parte mais difícil é você discordar no trabalho e aí, no âmbito íntimo, isso virar uma discussão”, Manuela alerta.

Para que a relação não azedasse, os dois aprenderam na prática a definir quais eram os momentos de falar de trabalho e quais eram os horários para viver só como casal. “Vários paus levaram a gente a fazer essa separação. Hoje temos times praticamente independentes e sempre colocamos as questões nas reuniões com o grupo todo, para que terceiros opinem e participem e não fique só aquela coisa de ‘opinião de um e do outro,”, sublinha Felipe.

Transparência e confiança

A história de amor das empreendedoras Victoria Martina e Ana Paula Munari teve uma entressafra antes de vingar. Elas namoraram pela primeira vez em 2012, mas seguiram caminhos diferentes. Sete anos depois, se reencontraram em Curitiba, onde Victoria vivia, e aí viram que era para valer. “Fui para lá e voltei com ela na mala para São Paulo”, diverte-se Ana.

Já a história de empreender juntas começou na pandemia, quando foram desligadas da loja de produtos artesanais onde trabalhavam. No meio da crise, a dupla agiu rápido. “Decidimos fazer o que sabíamos”, conta Victoria, que era consultora de vendas no ex-emprego. E assim nasceu a Vermú Queijaria, que faz uma curadoria online de queijos e produtos artesanais escolhidos a dedo pelo casal. 

Como o negócio é recente, elas estão ainda na fase de fazer tudo sozinhas, de segunda a segunda, para dar conta da demanda. Ana cuida do atendimento ao cliente, venda e pós-venda, e Victoria administra fornecedores e redes sociais. Já o financeiro é uma força-tarefa. “A Vermú é nossa única fonte de renda, então a gente tem muito cuidado com os recursos”, diz Ana. “Até porque, quando a gente era mais nova, uma das coisas que acabaram com o relacionamento foi a questão do dinheiro”, complementa a companheira.

Como parceiras no negócio e na vida - e prestes a abrir um espaço para receber os clientes e oferecer degustações -, elas procuram conversar sobre tudo e achar o meio-termo entre as duas abordagens. Ana fala que o que ajuda é que elas se conhecem bem, até no quesito das prioridades de cada uma. “Assim como no relacionamento, um negócio precisa de diálogo e transparência”, afirma Victoria. “Precisa ter comprometimento, resiliência, paciência e saber que nada é fácil. A gente só não se mata porque lembra que se ama”, brinca.

Uma cachaça, dois romances

Filho de imigrantes italianos e morador do município de Torrinha, no interior de São Paulo, Octaviano Della Colletta teve dois grandes amores na vida. Um era a arte de envelhecer cachaça, sua bebida predileta. O outro era sua companheira de vida, dona Alzira, com quem ficou por 75 anos, até que ele falecesse, aos 92 anos. 

Foi para homenagear a história de amor dos avós que o chef Gustavo Mattos, ao lado da também chef Celia Miranda - sua mulher - montou a destilaria Octaviano Della Colletta, localizada na Fazenda Basalto, em Torrinha, onde o casal passou a produzir os três rótulos da cachaça premium Alzira. O cultivo da cana, feito 100% na própria fazenda, segue práticas orgânicas e biodinâmicas, sem utilização de agrotóxicos.

Essa não é a primeira empreitada gastronômica que os dois tocam juntos. Apesar de terem nascido e crescido a apenas 50 km de distância - ele em Torrinha, ela em Barra Bonita -, foi em São Paulo que o Cupido resolveu entrar em ação, 20 anos atrás. Na época, ela era professora de inglês e ele, publicitário. Celia morava sozinha e desde criança cozinhava muito. Já Gustavo não tinha experiência no assunto, mas adorava comer. Então começaram a ir juntos para o fogão. “Em quatro anos de namoro, a gente só pediu comida de fora uma vez”, ele lembra. 

A brincadeira a dois virou coisa séria quando, em 2003, Celia saiu da escola de inglês e Gustavo, que tinha uma lan house, sugeriu que eles transformassem o gosto pela cozinha em profissão. “Ele perguntou se eu não queria ser a sócia dele nisso, mas de cara a gente entendeu que antes precisava ter uma formação”, fala a chef. 

Eles fizeram as malas e, já casados, foram cursar a Le Cordon Bleu de Paris. “A gente literalmente passou a lua de mel na escola”, diz Gustavo. De um curso passaram para dois, depois estágios e empregos em restaurantes estrelados. Mas eles sentiam falta da liberdade de viajar e conhecer pessoas - coisa que o trabalho na cozinha de restaurante não permite. Foi então que abriram, na própria casa, em Paris, o Chez Nous Chez Vous, que oferece jantares gastronômicos sob medida e sob reserva para grupos de 10 pessoas. “Na cozinha a gente aprendeu muito bem as características e o perfil de cada um para trabalhar em sinergia”, conta Celia. “Porque é um ambiente estressante, mas as desavenças têm que ser resolvidas e pronto, não dá para carregar para o relacionamento depois que o trabalho acabou.” 

É justamente essa experiência que eles conseguiram trazer para o negócio da cachaça, do qual em breve o casal deve se tornar embaixador, quando voltar para a França para retomar o Chez Vous Chez Nous. Por enquanto, estão na reta final dos ajustes na destilaria, montando o time que vai cuidar da produção no Brasil quando eles saírem. “A gente tem uma química muito boa, o Gus e eu. Quando toma conta de uma coisa juntos, ela acontece”, conclui a chef.

Tudo em família

Um tipo ainda raro de relacionamento uniu os três sócios da Papel Semente, fabricante de um papel artesanal, ecológico e reciclado que contém sementes de flores, hortaliças e temperos e pode ser plantado no jardim em vez de descartado. O especialista em varejo Luis Felipe Salles e a psicóloga Andrea Carvalho namoraram 34 anos atrás. Andrea engravidou, mas eles não quiseram ficar juntos. “Só que o relacionamento de amizade entre nós nunca deixou de existir e o Luis Felipe foi um pai sempre presente”, ela conta.

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Poucos anos depois, Andrea conheceu o engenheiro de produção Paulo Candian, com quem se casou - e como a relação entre ela e o pai de seu filho era muito tranquila o atual marido também fez amizade com o ex. “Ele era mais pai do que eu até”, brinca Luis Felipe. E a família se formou.

Ao longo dos anos, os três sempre empreenderam individualmente. Mas, quando o filho foi para o Canadá fazer intercâmbio e Andrea lhe disse que havia decidido vender o sítio de Atibaia, a trajetória mudou. “Foi ele o grande responsável pelo match de negócio entre nós três”, ela revela, dizendo que o jovem sugeriu que montassem algo juntos. “Ele fez a provocação e a gente aceitou”, lembra o pai. 

Na época, Luis Felipe estava saindo da diretoria da Multiplan e Andrea e Paulo coordenavam projetos socioambientais em uma ONG de reciclagem. Na primeira reunião que fizeram, a ideia era plantar uma sementinha, mas ainda não sabiam que seria literalmente uma semente. “Foi em uma viagem a Londres que eu conheci o tal papel que renasce flor ou manjericão”, Paulo conta. De volta ao Brasil, ele mostrou para Luis Felipe. “Eu enchi o saco dele, disse que papel não dá grana”, diverte-se o amigo.

Mas os três resolveram dar uma chance à novidade e começaram a produzir de maneira artesanal e fazer testes por 6 meses para ver se valia o investimento. “A gente queria mostrar que sustentabilidade não é uma tendência, mas uma realidade. Só que tinha que ver se o mercado acreditava no produto”, conta Luis Felipe, que bateu de porta em porta de lojas bacanas e grandes varejistas para apresentar o papel, sob forma de tags e etiquetas.

Eles falam que foi um planejamento de longo prazo porque tiveram que montar uma fábrica pensando em um circuito todo sustentável. “Teve um grande compromisso e entusiasmo dos três, aí fincamos a bandeira”, diz Andrea, que é responsável pela área institucional, enquanto Paulo cuida da criação e  da produção, e Luis Felipe faz a gestão estratégica.

“Tem uma complementaridade muito importante entre nós, humildade para reconhecer no que o outro é melhor e a noção de que o negócio está acima do ego individual”, acrescenta ela. “Dá certo porque um sabe reconhecer o valor do outro. Deus me livre fazer o que o Paulo faz!” 

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