Marcos de Paula/AE
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Sobrevive na crise aquele que a entende como uma maratona, diz investidor

Empresário Pedro Waengertner, presidente da Aceleratech, maior aceleradora de startups do Brasil, não se assusta com a crise econômica que paira sobre o Brasil e afasta o apetite de investidores

Vivian Codogno, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2016 | 09h24

São Paulo - O empresário Pedro Waengertner, presidente da Aceleratech, maior aceleradora de startups do Brasil, não se assusta com a crise econômica que paira sobre o Brasil e afasta o apetite de investidores em negócios de risco. Investidor-anjo e consultor de negócios incipientes, ele acredita que o mau humor em relação ao País tende a passar e, enquanto isso, o empreendedor que deseja iniciar uma startup deve chegar ao mercado cada vez mais preparado para enfrentar a turbulência.

A confiança de Waengertner se mostra nos números da Aceleratech. Neste ano, o programa anual de aceleração da empresa, que seleciona 30 startups e oferece investimento e mentoria ao longo de um ano, bateu o recorde de 700 inscrições, 50% além do ano passado. O investimento nas empresas, que variava a partir de R$ 30 mil, agora foi fixado em R$ 150 mil e 150 mil. Neste ano, pretende captar em investimento o dobro do montante de 2015, que foi de R$ 8 milhões, número que pretende ultrapassar até o fim de abril. Pedro se torna sócio dessas empresas, com uma participação entre 15% e 20% sobre a receita.  “Não vamos parar. Agora é o momento ter as maiores empresas do nosso lado. Não estamos vendo a crise como um destino, mas sim como uma mola propulsora”, comenta. Leia a seguir entrevista completa ao Estadão PME.

Investidores de startups possuem, por tradição, um perfil de risco e de retorno em longo prazo. Para eles, ainda é vantajoso investir em uma empresa embrionária no Brasil?

Com a retração econômica, o investimento como um todo foi impactado. Os Estados Unidos, no vertical de inovação, são os parceiros mais fortes de qualquer país do mundo e, no caso aqui no Brasil, vimos que o apetite que investidores americanos tinham até 2012 ou 2013 se dissipou. Para eles, o risco vai além. Por outro lado, entendem que esse investimento de risco prescinde um retorno em longo prazo. Eles trabalham com a perspectiva de que estamos atravessando uma crise que é mais política do que qualquer outra coisa, mas essa instabilidade tende a passar. A dos investidores é que, daqui a alguns anos, vamos ter passado por essa crise e vamos chegar do outro lado mais fortalecidos. Embora o investimento tenha ficado um pouco mais dificil, negócios de alta performance tendem a manter  uma curva regular. Concordo com a máxima de que é preciso ter medo quando as pessoas estão gananciosas e ser ganancioso quando elas estão com medo. Agora é o momento de apostar e pisar no acelerador. Plantar para colher daqui a alguns anos quando toda essa nuvem negra se dissipar.

O brasileiro ainda deseja empreender como em momentos de economia próspera?

Acredito que sim. A cultura empreendedora, ainda incipiente no País, tem recebido doses extras de maior qualificação dos próprios empreendedores, que estão mais educados com respeito a empreendedorismo e metodologia de um negócio. É possível ver que existe uma qualidade maior na capacitação e naquilo que os empreendedores estão fazendo. Embora o volume geral de novos negócios que buscam aceleração tenha sido impactado, não sentimos muito isso porque tem tanta gente querendo empreender hoje e tanta gente empreendendo com conhecimento, que a qualidade só aumentou.

Qual é o perfil do empreendedor em startups em tempos de crise?

Tem de tudo. Desde o mais aventureiro até aquele que realmente tem mais consistência. Eu gosto de uma combinação dos dois. Percebo que as pessoas estão chegando mais preparadas,  já superamos aquela fase em que o empreendedor acha que basta ter uma boa ideia para atrair investimento. Ele sabe que é percurso exige consistência e a maioria dos empreendedores já está educado nesse sentido. Na fase inicial, apenas o dinheiro não vai fazer diferença para ele. Nesse estágio, colocar R$ 100 mil ou R$ 1 milhão não faz diferença porque o empresário não sabe como gastar esse dinheiro, como faz para crescer e dar os primeiros passos. Essa startup precisa de mais que dinheiro, precisa de mentoria, de conhecimento.

E quem sobrevive à crise?

Aquele cara que corre riscos mais calculados e entende que empreender é uma maratona. Se ele consegue se manter por dois anos, mais ou menos, consciente de que provavelmente esse processo demora mais do que ele imaginava e tem a consciência de que faturar e criar uma empresa exige um planejamento sustentável e não apenas uma cópia daquilo que a gente vê no Vale do Silício.

E o Vale do Silício ainda é uma referência para quem deseja abrir uma startup no Brasil?

Muitos acham que ir para o Vale é a grande solução, quando na verdade as grandes oportunidades não estão mais lá. É possível ver a Ásia e a América Latina despontando como grandes celeiros para o empreendedorismo. Do Vale, o mais precisos hoje é o mindset, a maneira de pensar, olhar com novos olhos. Olhar pelos olhos de quem está questionando o status quo, pois a inovação vem daí.

É possível identificar um nicho próspero de oportunidades para startups atualmente?

Tem oportunidades em todos os segmentos. Na China, por exemplo, o estágio de maturidade dos negócios 02O (online to offline) como lavanderia delivery e Uber, estão crescendo anos-luz à nossa frente. No Brasil, ainda temos poucos negócios válidos nesse sentido.

Na sua opinião, o que resolveria a crise econômica que o Brasil atravessa?

Se eu pudesse resumir em uma palavra, diria que precisamos de gestão. De uma boa gestão pública. Priorizar, contingenciar gastos, desburocratizar cada vez mais essa máquina que suga a energia do empresário. Acredito que veremos emergir, depois de toda essa discussão política acirrrada, uma visão mais pragmática em relação ao que precisa ser feito. Precisamos de gente pensando em como melhorar as coisas, buscar eficiência global, tornar a economia maior. Em tempos como esses, acabamos discutindo questões que talvez fujam um pouco do cerne, que é como tornar o Estado mais eficiente, que ajude quem precisa ser ajudado, impacte quem precisa ser impactado. O mau humor foi geral, e quem olha de fora para o Brasil está muito mais no modo de espera do que pensando que o País deu errado. Vamos esperar o que vai acontecer, com calma.

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