José Patrício/AE
José Patrício/AE

Só produzir já não é mais suficiente

Fase 2 do Programa de Microbacias vai começar. Objetivo é auxiliar agricultor a processar e agregar valor à produção

Leandro Costa, O Estado de S.Paulo,

10 de agosto de 2011 | 14h05

 Há dez anos, quando ajudou a fundar a Cooperativa dos Produtores de Chuchu de Amparo, na região de Campinas (SP), o agricultor Bento Franco de Lima, hoje vice-presidente da entidade, buscava, por meio da atuação conjunta, aumentar suas possibilidades de competição no mercado, além de outros benefícios que esse tipo de organização permite, como negociar insumos a custos mais baixos e melhores condições de pagamento.

Hoje, a cooperativa reúne 65 agricultores e comercializa por ano cerca de 3 mil toneladas de chuchu e outros 36 itens, entre hortaliças, frutas e legumes. A maior parte da produção é adquirida pelas prefeituras de Amparo (SP) e Monte Alegre do Sul (SP), e destinada para a merenda escolar.

Mas, apesar dos bons resultados, o produtor afirma que a sua vontade, e a dos demais associados, é ir além.

Ele conta que há pouco mais de um ano o grupo planeja a construção de uma pequena unidade para processar e embalar os produtos, agregando valor à mercadoria, que atualmente é entregue in natura. Nas contas da gerente da cooperativa, Valéria Gerbi, isso permitirá um incremento entre 25% e 30% na renda dos associados.

Programa. O momento que vive a cooperativa de Amparo faz dela uma das postulantes a beneficiada do Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável - Microbacias 2: Acesso ao Mercado, um programa do Governo do Estado de São Paulo, com recursos do Banco Mundial, que visa a fomentar grupos de pequenos produtores em projetos que permitam melhorar sua inserção no mercado e agregar valor à produção.

O programa, comandado pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), está com as inscrições abertas até o próximo dia 19. Ao todo, serão selecionados, este ano, 25 projetos, que terão até 80% dos custos (até o teto de R$ 800 mil) custeados pelo Microbacias 2, segundo explica gerente técnico, João Brunelli.

De acordo com ele, até 2015 serão 300 projetos contemplados, sendo 50 no ano que vem e 75 por ano entre 2012 e 2015. Para tanto, o Banco Mundial disponibilizou US$ 45 milhões - o equivalente a cerca de R$ 72 milhões.

No caso da cooperativa de Amparo, do R$ 1 milhão necessário para a construção de um galpão e compra de equipamentos, 80% virão do Microbacias 2, caso sejam contemplados. "Será uma ótima notícia, pois não sabíamos quando poderíamos efetivamente colocar esse projeto em pé. Agora vamos manifestar o interesse. Estamos otimistas", diz Valéria.

Com a criação da pequena agroindústria, a cooperativa espera também ampliar a sua área de abrangência. "Hoje nós basicamente entregamos a produção para as prefeituras, que a destinam para a merenda escolar, e pequenos mercados locais. Ao vender os alimentos minimamente processados podemos atingir, por exemplo, as redes varejistas da região de Campinas", prevê a gerente da cooperativa.

Frutas processadas. A Cooperativa dos Produtores Rurais entre Serras e Águas, com sede em Bragança Paulista (SP) e que reúne 83 produtores de frutas e hortaliças em diversos municípios, é outra organização de pequenos produtores que preparou um plano de negócios semelhante e vai pleitear verba por meio do programa.

"Estamos definindo os valores e ainda esta semana devemos responder à chamada pública", informa a gerente da cooperativa, Andrea Ono. Segundo ela, o projeto prevê a compra de equipamentos móveis para o processamento das 405 toneladas de frutas e hortaliças produzidas e comercializadas anualmente.

"A ideia é colocar a miniagroindústria em funcionamento na sede da cooperativa até concluirmos a construção de um galpão próprio", explica.

Atitude empreendedora. Brunelli, da Cati, destaca como um dos principais aspectos do projeto o incentivo à atitude empreendedora por parte dos produtores, sobretudo nos produtores familiares. "O produtor precisa aprender a vender. Muitas vezes ele sabe produzir bem, mas acaba deixando que outros agreguem valor ao seu produto", afirma Brunelli. "O objetivo do programa, então, é incentivar os produtores a assumirem a tarefa de agregar valor e assim ficar com uma fatia maior com a venda de tudo o que produzem", conclui.

O agricultor orgânico Sidney Barrel, que produz morango e alguns legumes no município de Socorro (SP), partilha da mesma visão. "O produtor precisa aprender a enxergar seu negócio como empresário e perceber as oportunidades do mercado", afirma.

Barrelo vê com otimismo a iniciativa da cooperativa de Bragança, da qual é sócio. "Agregar valor à produção ajuda a tornar viável financeiramente a fixação do homem no campo."

Ele crê que a partir do momento que passar a comercializar sua produção processada e embalada, seu ganho subirá substancialmente, na casa dos 50%. O produtor, que pertence à Associação de Produtores Orgânicos de Socorro, informa ainda que o grupo, que reúne 15 produtores e entrega 10 toneladas de alimentos orgânicos por mês, já está elaborando um plano para a construção da sua própria unidade de processamento. "Vamos tentar obter incentivos do Microbacias 2, mas só na próxima chamada pública, no ano que vem", diz Barrel. A manifestação de interesse deverá ser protocolada na Casa da Agricultura do município onde está sediada a Associação ou a Cooperativa, até o próximo dia 19.

Caminho do investimento

Como participar da fase 2 do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas

1 - Plano de negócio - O grupo de produtores manifesta seu interesse e apresenta um plano de negócio

2 - Seleção - Após avaliação os 25 projetos mais relevantes e viáveis serão contemplados

3 - Apoio financeiro - Os grupos aprovados podem receber até R$ 800 mil para realizar o projeto

Para entender

Um programa de preservação

A primeira fase do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas encerrou-se em 2008, após oito anos de vigência. Executado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), com recursos do governo estadual e do Banco Mundial, o programa cobriu área de 3,3 milhões de hectares, 514 municípios e atendeu a 70 mil famílias, sobretudo de pequenos produtores. Pecuária de leite, cultivo de grãos, fruticultura e olericultura estão entre as principais atividades. Na primeira fase o foco foi a preservação dos recursos naturais, sobretudo o solo e água. Produtores foram incentivados a recuperar mata de áreas de preservação permanente, como nascentes e cursos d"água, além da recuperação de estradas rurais e adoção de práticas de produção sustentáveis. O programa reembolsava até 80% desses gastos.

Foco é o pequeno produtor

Desenvolvido em parceria com o Banco Mundial e com recursos totais US$ 45 milhões, o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável - Microbacias 2 - Acesso ao Mercado, é, como o nome indica, voltado para promover o acesso de pequenos produtores ao mercado. De acordo com o gerente técnico do projeto, João Brunelli, podem se inscrever grupos compostos por no mínimo 15 produtores, sendo que 50% deles têm de ser agricultores familiares. Ele explica que, quanto mais agricultores familiares tiver um grupo, maior será o valor do apoio, que varia entre 50% e 80% do valor do projeto.

Chamada pública. A primeira chamada pública para participação no projeto começou na semana passada e vai se encerrar no próximo dia 19. Até lá Brunelli espera receber cerca de 120 inscrições, para 25 vagas disponíveis para este ano.

"É pouco se considerarmos que em todo o Estado temos cerca de 1.200 cooperativas e associações. Mas, se levarmos em conta também a dificuldade que é para um pequeno produtor, acostumado apenas a produzir, apresentar um projeto para um novo negócio, é um bom início". 

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