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Seu próximo par de sapatos será feito por uma impressora 3D

Cada impressora da norte-americana Feetz pode ser programada para fazer diferentes tamanhos e leva 12 horas pra fabricar um par

Constance Gustke, The New York Times

22 de setembro de 2016 | 13h20

Na linha de montagem da Feetz, o ruído de 100 impressoras 3D ecoa. Seu único propósito é a fabricação de sapatos. Cada impressora recebeu o nome de um personagem de desenho animado: Mulher Maravilha, Scooby-Doo. Brincadeiras à parte, cada uma delas custa US$ 5 mil e planeja virar o mercado de cabeça para baixo fazendo sapatos baratos e sob medida.

“Trazemos a tecnologia para ajudar. Vi as impressoras 3D em uma revista e pensei na customização em massa”, afirmou Lucy Beard, executiva-chefe da Feetz, criada há dois anos em San Diego.

Cada impressora pode ser programada para fazer diferentes tamanhos e leva 12 horas pra fabricar um par. A empresa, que começou recentemente a vender os sapatos, conta com apenas 15 funcionários.

Mas Lucy, ex-atuária de 38 anos, imagina o dia em que os sapatos poderão ser produzidos em menos de uma hora. Com volume limitado de trabalho, custos de envio baixos e sem a necessidade de manter um estoque, a Feetz tem uma margem de lucro de 50 por cento em cada par, acrescentou.

Os pedidos são feitos pela internet. Os clientes baixam um aplicativo e usam o smartphone para tirar fotos dos pés e criar um modelo 3D. Os sapatos, que custam US$ 199, são feitos de materiais reciclados. O conforto é garantido por um grosso forro interno.

Com a ascensão de novas tecnologias como smartphones e impressoras 3D, startups de moda como a Feetz estão mudando a forma como produtos são encomendados, fabricados e vendidos.

Assim como Lucy, muitos fundadores dessas empresas não têm formação em moda. Na verdade, eles acreditam que a tecnologia é a solução para os produtos produzidos em massa e vendidos em grandes redes de lojas, cada vez mais rejeitadas pela geração Y. Os consumidores com tamanhos fora do padrão — pequenos, grandes ou altos — terão menos dificuldades na hora de fazer compras.

Tradicionalmente, a fabricação é a etapa mais cara da cadeia de abastecimento varejista. Criar produtos em lotes pequenos é difícil e caro. Boa parte da fabricação ocorre em outros países e o envio para os EUA acrescenta tempo e custos ao processo. Por isso, até mesmo as redes de “fast fashion” levam seis semanas até que seus produtos cheguem às prateleiras.

A beleza da moda instantânea e feita sob medida, de acordo com os especialistas, é que os produtos podem ser fabricados por um valor mais baixo e mais rapidamente – sem deixar de lado o estilo personalizado.

Ainda que as transformações sejam sempre bem vindas no mundo da tecnologia, nem todo mundo está convencido de que esse tipo de inovação seja capaz de revolucionar a moda. James Dion, consultor de varejo em Chicago, afirmou que vê a moda customizada como uma “tendência passageira”, com apelo limitado.

E algumas empresas do setor já fecharam as portas: a Tinker Tailor, que fazia acessórios femininos de luxo, fechou no ano passado depois que o dinheiro acabou.

Ainda estamos nos primórdios da impressão 3D, afirmou Uli Becker, ex-executivo-chefe da Reebok e investidor da Feetz. A oferta de produtos ainda é limitada e as empresas só oferecem produtos básicos. Além disso, ainda não é possível imprimir tecido.

Entretanto, ele vê um grande potencial na impressão 3D.

“Podemos começar a produzir nos EUA, para os EUA. A fabricação pode ocorrer no mesmo local da venda dos produtos, o que ajuda a gerar empregos.”

Além disso, as tecnologias melhoram a cada mês, afirmou Becker.

“Esse é o equivalente ao telefone celular dos anos 80 que precisa ser levado em pastas enormes e tinha o tamanho de um tijolo. No futuro, vamos poder ir até uma loja, escolher o que queremos, fazer o pedido on-line ou imprimir o produto na hora”, afirmou.

Fabricantes de sapatos sob medida como a Feetz também farão com que experimentar sapatos seja um hábito do passado, afirmam especialistas.

“Em 10 anos, ninguém mais vai experimentar sapatos antes de comprar”, afirmou Lucy.

A promessa está chamando a atenção do Vale do Silício.

“Estamos a procura de empresas capazes de utilizar tecnologias avançadas. E são os nerds que estão desenvolvendo isso. A Feetz, por exemplo, pode transformar a maneira como adquirimos um produto”, afirmou Vijit Sabnis, capitalista de risco na Khosla Ventures e um dos investidores da Feetz.

Um dia, o varejo passará a vender produtos feitos por robôs e impressoras 3D, afirmou. E a fabricação irá ocorrer em pequenos centros, ao invés de fábricas enormes.

“Vamos nos livrar dos custos de envio e repensar a cadeia de abastecimento. Isso é muito legal.”

A Khosla Ventures também investiu em startups de moda que utilizam outras tecnologias além da impressão 3D. Uma delas é a Shoes of Prey, um site que permite que os clientes escolham a cor e o estilo dos sapatos femininos por menos de US$ 200, na maioria dos casos. Outra empresa, a MTailor, fabrica camisas e ternos masculinos sob medida a partir de medidas tiradas com a ajuda de um smartphone. As camisas custam a partir de US$ 69.

Até mesmo a humilde camiseta está sendo reinventada. A Teespring, fundada em 2011, enviou mais de 20 milhões de camisetas feitas sob medida só no ano passado. A empresa permite que os usuários façam o design que quiserem nas peças que depois são vendidas aos clientes, muitas vezes com mensagens sobre café, ioga, ou futebol.

“Somos uma empresa de tecnologia que fabrica camisetas. O futuro da moda está nas marcas menores que criam um relacionamento com os clientes”, afirmou Walker Williams, de 27 anos, executivo-chefe da Teespring, que criou a empresa ao lado de Evan Stites-Clayton, colega da Universidade Brown.

Com o tempo, eles planejam oferecer outras peças de roupa feitas sob medida. Empresas de investimento de risco como a Andreessen Horowitz, a Khosla Ventures e a Y Combinator também injetaram um total de US$ 56 milhões na empresa.

A Teespring criou um sistema de fabricação próprio em uma fábrica no norte do Kentucky onde antes eram fabricados helicópteros. Dos 400 funcionários da empresa, 40 fazem parte da equipe de engenharia, criando tecnologias patenteadas para a impressão rápida de pequenos lotes de camisetas. A margem de lucro é apertada, reconhece Williams, mas está aumentando com o tempo.

“Todo mundo pode trazer ideias criativas para a vida sem precisar ser um especialista em comércio varejista”, afirmou Lars Dalgaard, sócio da Andreessen Horowitz. Por isso, agora, os consumidores podem se expressar de maneiras “que antes seriam impossíveis”.

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