Luciano Ribeiro
Luciano Ribeiro

Setor de viagens incentiva reagendar, e não cancelar pacotes

Franquia com 400 unidades pelo País registra 90% de queda nas vendas; para entidades, devolução de viagens fragiliza setor de turismo

Nathalia Molina, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 06h00

Especial para o Estado

Se tem mancha de óleo nas praias do Nordeste, a viagem pode ser para o Caribe. Se o dólar dispara, tem sempre a América do Sul para salvar as férias do turista e o faturamento do empresário. Quem trabalha no setor de viagens no Brasil aprende a lidar com altos e baixos. Mas e com a pandemia do novo coronavírus, quando ninguém pode ir a lugar algum?

“No início da crise, meu tempo era para fazer remarcações e cancelamentos de viagem. Hoje, como os voos foram reduzidos drasticamente, estou ajudando quem estava viajando a voltar para casa”, conta Nildi Soares de Oliveira, que em fevereiro deste ano migrou da modalidade home office para uma loja física da franquia Encontre Sua Viagem. “O baque tem sido muito grande para todos e também para mim, que estou iniciando já com esse chacoalhão.”

Desde 2015, Nildi ganhava uma média de R$ 5 mil por mês e viu na mudança para um ponto em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a possibilidade de expandir seu negócio. A projeção de lucro líquido em home office fica entre R$ 3 mil e R$ 7 mil, já na loja sobe para R$ 15 mil.

Para colaborar com os franqueados diante desta crise, a Encontre Sua Viagem oferece a possibilidade de parcelar, sem juros, o valor de royalties e fundo de propaganda referentes aos meses de abril, maio e junho: o total pode ser dividido em até seis vezes no boleto bancário com o primeiro vencimento em julho ou em 12 vezes no cartão de crédito.

“Com a pandemia, a Encontre Sua Viagem sentiu uma redução de 90% nas vendas de passagens. As pessoas estão pedindo reembolso, cancelando ou remarcando. Porém, a maioria quer o dinheiro de volta e isso vai gerando prejuízos para as agências”, afirma Henrique Mol, diretor executivo da empresa.

“Orientamos os franqueados a buscarem renegociar custos operacionais, pois entendemos que há a probabilidade de a crise ser mais intensa em abril e maio”, prevê Mol. Fundada em 2011, a rede conta com 400 franqueados, sendo 350 em home office. Lojas físicas são indicadas pela empresa apenas para cidades com mais de 50 mil habitantes.

A Associação Brasileira de Franchising (ABF) informou que está se articulando com associados e entidades correlatas para uma negociação com shopping centers, locatários de forma geral, bancos, emissores de cartão e o próprio governo para obter melhores condições para franqueados e franqueadores. De acordo com a ABF, a mudança de cenário com a covid-19, que atingiu ainda mais o dólar, foi muito rápida e o maior reflexo imediato foi a queda da demanda por parte do consumidor.

Fundada em 2012 já como franquia de viagem, a Flyworld também busca uma forma de apoiar seus franqueados. “Estamos negociando com alguns fornecedores a redução dos valores dos serviços e já reunimos virtualmente a rede para reduzirmos os custos fixos pelos próximos dois meses”, explica Márcia Ximenes, diretora de expansão da companhia, com 50 unidades em 15 Estados.

Esses custos fixos incluem a taxa de serviços (referente a site, e-mail e sistema administrativo, por exemplo), cujo valor a Flyworld estuda diminuir temporariamente. A quantia paga todo mês, não divulgada pela empresa, muda conforme o que o franqueado contrata.

De quem pretende abrir uma franquia, a empresa cobra entre R$ 18.250 (em cidades com até 100 mil habitantes) e R$ 24,5 mil (acima de 600 mil habitantes). O valor é o mesmo para modelos home office e loja física; em ambos, o tempo de retorno é estimado de seis meses a um ano. “Quem opta pelo modelo físico precisa acrescentar o valor de instalação da loja, que fica a cargo do franqueado e varia conforme ponto e tamanho da loja”, explica Márcia.

Crédito para o empreendedor

Turismo, hospitalidade e aviação foram os principais setores afetados pela pandemia, de acordo com estudo da Kantar, líder global em dados, insights e consultoria. As ações de empresas de turismo e hospitalidade caíram cerca de 70% e as de aviação em média 78%.

Os pequenos e médios empreendedores sofrem mais nesse momento de crise. Entre as cerca de 2,3 mil associadas da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), em torno de 90% se classificam como micro, pequena ou média empresa. E os membros da Abav respondem por 80% das vendas de turismo do Brasil.

Para ajudar os empreendedores a sobreviverem à crise, aqueles inscritos no Cadastur, o cadastro geral do Ministério do Turismo, podem solicitar crédito de acordo com a portaria nº 141, assinada pelo ministro em 19 de março após os reflexos da pandemia.

Para facilitar o acesso à verba, a medida suspende o limite para a aplicação dos recursos do Fundo Geral de Turismo (Fungetur), reduz os juros de 7% para 5% ao ano e estende o prazo para pagamento dos empréstimos de seis meses para um ano. O ministério anunciou a liberação de R$ 381 milhões por meio do Fungetur para 17 instituições financeiras credenciadas para conceder crédito.

Do outro lado, para evitar perdas com os clientes, entidades como a Abav e a Associação Brasileira de Operadoras de Turismo (Braztoa) lançaram campanhas incentivando o adiamento, em vez do cancelamento de viagens.

“Temos clientes com viagem marcada, mas cujas férias foram canceladas. Outros perderam o emprego. Mas em 90% dos casos temos conseguido deixar o valor pago como crédito para futuras viagens”, afirma Nildi, da Encontre Sua Viagem, que agora trabalha roteiros para médio e longo prazos. “Hoje cedo eu estava planejando uma viagem para dezembro. A gente imagina que, para lá, já dá para pensar em viajar.”

No caso de Roberta Santiago, franqueada da Ahoba Viagens desde 2015, os clientes também preferiram fazer remarcações para o fim do ano. “Essa é a primeira grande crise que passo. Atinge inclusive minha primeira renda, o transporte escolar.”

Totalmente online, a franquia custa a partir de R$ 3.320 em home office, mais royalties desde R$ 90 por mês, na modalidade University, oferecida a estudantes de faculdades de Turismo e outros cursos.

Para quem quer virar franqueado

Ainda predominam no setor de viagens os pontos físicos para venda de pacotes e passagens, mas, de acordo com ​André Friedheim, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o modelo home office ou virtual de franquia vem ajudando a expansão do segmento nos últimos três anos.

Há investimentos iniciais desde menos de R$ 5 mil, diz ele, basicamente na modalidade home office. Lojas físicas são o modelo de franquia vendido por grandes operadoras, como CVC e Flytour.

Welter Leal já tinha uma agência de viagens especializada em turismo corporativo quando decidiu ser um franqueado em 2014. “Resolvi converter para uma franquia da Flytour e, com isso, ganhei mais força de negociação de preços, pensando principalmente em hotéis, companhias aéreas, aluguel de carro.” Entre suas vendas, 70% são feitas para empresas.

Para o empresário, dono de duas lojas em São Paulo e uma em Santos, é indicado conhecer o segmento para se ter sucesso nesse tipo de franquia, por conta da particularidade do setor de viagens. “Não existe uma receita de bolo. É o tanto que você vai trabalhar no negócio. Dedicação é fundamental.”

Segundo a Flytour, fundada há 45 anos, a procura é grande pelo modelo de franquia de viagens, disponível na empresa desde 1992. “Mas somos criteriosos na escolha de candidatos, para resguardar nossa marca. Por essa razão, nossa expansão é de em média dez unidades por ano”, diz Alessandra Antunes, diretora operacional da Flytour Franchising. 

No caso da CVC, maior operadora de turismo das Américas, presente em cerca de 470 cidades brasileiras, a empresa diz que está negociando a redução de custos fixos e a obtenção de linhas de crédito para sua rede de aproximadamente 1,4 mil lojas franqueadas em 2019 no País - 135 lojas a mais do que em 2018.

“A operadora vem auxiliando seus franqueados na negociação de linhas de crédito com os principais bancos, bem como compartilhando medidas já implementadas na matriz, como redução da jornada de trabalho por três meses, congelamento de novas vagas e de horas extras”, afirma Emerson Belan, diretor-geral da empresa.

Para o alívio financeiro dos pequenos empreendedores, a CVC já não cobrava royalties, tampouco taxa de instalação de franquia, já que o ganho da operadora vem das vendas das lojas. Por ser empresa de capital aberto, ela não divulga o porcentual que o franqueado ganha de comissão.

Segundo o diretor, a CVC também está em contato com as administradoras dos shoppings centers, hipermercados e centros comerciais para a renegociação dos custos de ocupação, como aluguel, condomínio e fundo de promoção de suas lojas.

Com 48 anos de atuação e um portfólio com cerca de mil destinos nacionais e internacionais, a empresa criada em Santo André, no ABC Paulista, é pioneira em franquias em shoppings e hipermercados. A primeira loja em shopping foi aberta na década de 1990.

“A CVC começou a investir em vitrines, a oferecer a viagem como um produto, levando a decisão da escolha para um momento de entretenimento e lazer da família”, conta Belan.

O investimento inicial numa franquia da rede parte de R$ 60 mil, com retorno de investimento de 24 a 28 meses, diz o diretor. Já o faturamento médio mensal de uma loja fica em torno de R$ 380 mil.

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