Mesmo na crise, Felipe e Rafael enxergaram oportunidade para crescer
Mesmo na crise, Felipe e Rafael enxergaram oportunidade para crescer

Setor de instrumentos musicais sofre com dólar alto

Setor faturou R$ 935 milhões ano passado, queda de 15% em relação a 2014

Gisele Tamamar, Estadão PME,

12 de janeiro de 2016 | 07h02

A economia brasileira e a alta do dólar têm dificultado a vida dos empresários do setor de instrumentos musicais, afinal, 90% dos itens à venda são importados. Essa dependência do mercado externo, segundo a Abemúsica, fez com que o faturamento dos empreendedores do setor caísse 15% no ano passado - de R$ 1,1 bilhão em 2014 para R$ 935 milhões em 2015.

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"As coisas ficaram difíceis com o dólar no patamar que está. O mercado deu uma parada geral e instrumento musical não está entre os primeiros itens da agenda da família", afirma o presidente da associação, Synésio Batista da Costa. Para este ano, Costa evita fazer qualquer estimativa.

"Ainda é muito cedo. Qualquer número será um espalhador de pessimismo. Ninguém tem condição de dizer como será nada", conclui. Diante de um cenário tão ruim, os empresários se refugiam no guarda-chuvas de abas largas chamado cautela. "Não é hora de gastar um centavo com nada. É hora de dar toda a atenção para o caixa, sem grandes emoções, sem grandes importações", diz Costa.

Essa é a situação vivenciada pela importadora e distribuidora Sonotec. O diretor comercial da empresa, Alexandre Seabra, conta que precisou reduzir as importações, na medida que o consumo caiu, e também reduziu a margem de lucro diante da valorização da moeda norte-americana. No ano passado, os negócios da Sonotec caíram 15% e a expectativa da empresa é atingir em 2016 os mesmos números de 2015. "O cenário econômico atual não nos permite pensar em crescimento", afirma Seabra.

Mas por tratar-se de um segmento bastante amplo, há também oportunidades. Pelo menos para quem lida com criatividade. A Music Kolor, com sede em Santo André, na região do ABC, trabalha com a customização de instrumentos musicais e percebeu, com a crise, a demanda aumentar. São músicos que optam por uma nova pintura na guitarra, por exemplo, como alternativa a aquisição de um instrumento novo em folha.

A empresa atende desde os luthiers (fabricantes de instrumentos de cordas), atua com o mercado corporativo e vende serviços para o cliente final - do músico ao colecionador. A empresa surgiu há cinco anos a partir de uma necessidade pessoal do empresário Rafael Romano, que trabalhou como professor de guitarra e tocou em algumas bandas. Durante um show, o instrumento caiu no palco e ele encontrou dificuldades para achar uma empresa especializada em pintura.

Com a ajuda do pai, experiente em pintura, mas de automóveis, Romano começou a testar tintas e chegou a uma técnica considerada por ele como ideal. O negócio cresceu e hoje Rafael se dedica apenas a parte criativa enquanto seu sócio, Felipe Carvalho, é responsável pelo financeiro e pela administração da empresa

No caso da Music Kolor, a valorização do dólar fez com que os sócios acelerassem a busca pelo mercado externo pois já havia certa demanda oriunda das redes sociais. "Essa procura começou a chamar a atenção e resolvemos traçar uma estratégia mais detalhada para fazer a expansão mundial", conta Carvalho.

Dessa maneira, a empresa vai participar da feira mundial do setor, a Namm, este mês, nos Estados Unidos, e tem planos para desenhar um mercado de representação internacional. Segundo Carvalho, o mercado hoje tem um consumidor mais dinâmico, que gosta de customização. "Enxergamos uma oportunidade de uma demanda que não estava sendo atendida", avalia Carvalho.

Entre os projetos marcantes da companhia, Romano cita o reparo de uma série especial da Gibson, além da pintura da guitarra presenteada por um fã para Eddie Vedder, o íconico vocalista da banda norte-americana Pearl Jam. O artista tocou com o instrumento no show que o grupo realizou em novembro na cidade de São Paulo. Com um mercado em recessão, Carvalho afirma que a busca pela inovação, além de aprimorar o relacionamento com o cliente, são estratégias fundamentais para e empresa manter-se sólida.

Processo. Mas trabalhar com o instrumento de trabalho de alguns clientes, e com o objeto de desejo de outros, fãs de determinadas marcas e tipos de guitarras, exige também atenção total ao processo de trabalho. De acordo com Romano, quando o instrumento chega à empresa, é armazenado em um lugar especial, sem interferência de umidade e temperatura.

"Fazemos fotos de todas as etapas e o cliente acompanha todo os processos até a pintura e polimento para passar essa segurança", explica Romano. A empresa ainda deve lançar este mês um novo site onde potenciais clientes poderão 'testar' a customização de suas guitarras a partir de modelos já definidos pelo empreendedor.

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