Para dar exemplo, Tallis viajava para a Ásia de classe econômica
Para dar exemplo, Tallis viajava para a Ásia de classe econômica

Ser o primeiro ajuda, mas isso não é definitivo, diz Tallis Gomes

Depois de criar o aplicativo Easy Taxi, Tallis Gomes agora encara o difícil desafio de lançar 15 startups em cinco anos com a eGenius

Gisele Tamamar, Estadão PME,

27 de maio de 2015 | 07h04

Desde moleque, Tallis Gomes brincava que queria montar uma multinacional, mas ninguém o levava a sério em Carangola, cidade do interior de Minas Gerais. Mas quando tinha 25 anos, ele deu início ao seu negócio de maior repercussão, o aplicativo Easy Taxi, presente hoje em 35 países e mais de 420 cidades. A ideia surgiu da própria necessidade. Depois do estalo, Tallis pesquisou sobre o negócio na internet, mas não encontrou nada parecido na época. “Duas pessoas na Alemanha e Israel começaram em 2011 também. Mas como era no mesmo ano ninguém sabia de ninguém”, contou.

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O fato de ser o primeiro app do tipo na América Latina ajudou a startup do empresário a ganhar mercado. Vantagem essa que Tallis achava ser definitiva. Mas a chegada do concorrente 99Taxis fez com que a Easy Taxi perdesse espaço em 2013, o que levou a companhia a repensar sua estratégia. “Ser first mover é muito importante, ajuda, mas não é definitivo.”

Tallis lembra que o concorrente chegou com a proposta de não cobrar taxas do taxista e ganhou a recomendação dos profissionais. “Tínhamos um investidor e eu precisava de um modelo de negócio. Quando a gente resolveu voltar atrás, estávamos perdendo mercado e precisávamos ganhar novamente. Foi aí que fizemos a parceria com o Santander para dar 50% de desconto. Desde então está essa briga”, disse.

Depois de comandar a expansão da empresa pelo mundo, Tallis deixou o cargo de CEO oficialmente em novembro para investir em um novo negócio. Ele continua no conselho da Easy Taxi e manteve a parte societária. Mas agora ele se dedica a eGenius, uma espécie de ‘fábrica de startups’. A experiência com o universo das startups e os desafios com a nova empresa foram discutidos por Tallis durante o Encontro PME com pequenos empresários e interessados no tema. Confira os principais trechos abordados.

Expansão

Desde quando criou a empresa, Tallis já imaginava um negócio com alcance global. “É um modelo que faz sentido em qualquer lugar.” Segundo ele, muitas vezes, o empreendedor acaba se acomodando no Brasil, por se tratar de um País continental e, por isso mesmo, com muita gente para consumir.

No entanto, levar um modelo de negócio de São Paulo para o Recife, por exemplo, é trabalhoso e envolve diferentes impostos, novas licenças e contratações. “Expandir para a Colômbia, do ponto de vista tributário, é mais fácil do que ir para outro estado. Por isso vi que fazia sentido quando estava em três, quatro países, expandir para o mundo inteiro”, afirmou.

Diante da sua experiência, Tallis recomenda aos empreendedores pensarem no mercado internacional. “É bom para o valuation da companhia, bom para seu caixa, paga menos impostos e tem um mercado novo a ser explorado”, afirmou. “Parece pretensioso, mas expandir para outro país é fácil. Levar para outro estado dá o mesmo trabalho de levar para outro país”, destacou.

Desafios

Para tirar as ideias do papel, Tallis vê muitas pessoas dedicando-se ao planejamento, mas esquecendo de fazer o básico: testar. Ele defende a criação de um protótipo (o chamado mínimo produto viável ou MVP) antes de investir mais tempo e dinheiro na ideia. A proposta é avaliar se as pessoas pagariam pelo produto ou serviço e se o valor faz sentido para o modelo de negócio.

“De repente, você está resolvendo um problema real, a solução é legal, mas você não achou um modelo que se pague. Por isso é importante testar.”

No caso da Easy Taxi, o MVP foi um formulário online onde Tallis simplesmente perguntava o nome da pessoa, seu número de telefone e endereço. O botão ‘pedir táxi’ era para mandar um e-mail. “Eu via o ponto de táxi mais próximo, ligava para o táxi e ligava para a pessoa. Consegui fazer quatro vendas e vi que o negócio fazia sentido. Depois fui fazer site, aplicativo”, contou o empreendedor.

Até achar o modelo de negócio, Tallis pensou em operar como um ‘hub de cooperativas’, um sistema para empresas que alugam táxi e até por meio de um sistema que alugava celular para taxistas. Esse foi o caminho até ele decidir que o taxista deveria comprar o aparelho – em uma época que isso não era comum. “Pivotamos algumas vezes até achar um modelo de negócio”, lembrou.

Uber

Para Tallis, a situação do Uber no Brasil será a mesma de outros países em que a Easy Taxi está presente: ele não acha que o concorrente vai sair, mas também não espera por um crescimento rápido. O Uber é uma plataforma que conecta passageiros a motoristas particulares que podem ser acionados via aplicativo instalado no smartphone. Apenas a versão executiva do serviço está disponível no Brasil. Em São Paulo, o sindicato dos taxistas e empresa travam uma batalha judicial.

Na opinião de Tallis, uma das opções é cobrar taxas para o Uber operar, assim como o taxista paga. “Permitir a entrada do Uber da forma que está é injusto”, diz. Segundo ele, porém, a indústria de táxi também precisa se adaptar ao momento com melhores carros na frota e atendimento mais eficiente. “O cara que chama um táxi não quer andar em um Azera. Ele quer que seja confortável. Tem como se adaptar.”  

Aprendizado

Durante a gestão do Easy Taxi, Tallis aprendeu a valorizar três pilares: pessoas, propósito e cultura. E a cultura do negócio sempre foi muito pautada na execução e austeridade. Tudo isso porque não se podia gastar muito dinheiro, mas existia a necessidade de expandir para outros países. Mas como convencer o funcionário a trabalhar muito gastando pouco? “Aprendi que cultura não é um papel que você cola na parede. É preciso dar exemplo”, conta Tallis.

E o exemplo de Tallis foi mostrar para a equipe de outras regiões como se executava o trabalho. Nada de estipular metas e ficar mandando ao Brasil. A cada três semanas, Tallis estava em um país diferente. “Ia e mostrava que dava para fazer. Se eu consegui e nem falava a língua deles direito, agora eles tinham que conseguir mais do que eu. Assim você acaba trazendo um novo patamar de meta.”

No caso da cultura de austeridade, Tallis também deu exemplo: viajava para a Ásia na classe econômica. Eram 27 horas de voo. “Eu tirava foto da passagem e mandava no grupo: não quero ver ninguém pedindo passagem de classe executiva para viajar oito horas. Você lidera pelo exemplo”, destacou.

Novo negócio

Com a eGenius, Tallis tem dois focos: a internet das coisas e o setor O2O (Online to Offline) – transações que começam no online e terminam com o recebimento de algo no mundo físico, como os aplicativos de delivery de comida e de contratação de serviços de motoboys.

A eGenius não investe em empresas de fora. A proposta é gastar em negócios próprios com a construção de empresas e o convite de pessoas capacitadas para serem cofundadoras – elas recebem de 10% a 15% das ações.

“Trazemos pessoas para ajudar a tocar o negócio em baixo do guarda-chuva da holding”, explicou. “É um trabalho difícil, gasto 60% do meu tempo achando quem tem potencial de ser ou já são empreendedores.”

Os convidados não precisam investir dinheiro, mas muito trabalho. “Quanto mais empresas você tem, menor é o esforço para criar a próxima. Faz sentido para a holding lançar várias companhias. Queremos lançar 15 empresas nos próximos cinco anos. Obviamente que as 15 não vão dar certo, senão virei Deus. Que duas deem certo, já funciona para o nosso lado, economicamente”, analisa.

A primeira empresa lançada foi a Easy Carros, uma plataforma para contratação de serviços automotivos. O usuário contrata o serviço via aplicativo e o profissional vai até o local definido para executar a demanda.

Cenário

Apesar das dificuldades para empreender no Brasil, Tallis resolveu montar o novo negócio aqui por acreditar no potencial do País. “Acho que ninguém tem desculpa para falar que o Brasil está ruim e consequentemente não posso fazer negócios aqui. Costumo dizer que existem os otimistas e pessimistas. E geralmente os pessimistas trabalham para os otimistas. Eu prefiro ser o otimista. Acredito que tudo isso que estamos passando é uma tempestade e daqui a pouco vai passar”, afirmou o empreendedor no encontro.

:: Trajetória de sucesso::

Ele criou ‘fábrica de startups’

Empreendedor pretende lançar novos negócios e ‘gasta’ 60% do tempo buscando pessoas que tenham perfil para liderar novos negócios no Brasil

Sonho

Desde moleque, Tallis Gomes brincava que queria montar uma empresa multinacional. “Obviamente ninguém me levava a sério”, lembrou.

Começo

Ele montou seu primeiro negócio digital, em 2001, quando tinha 14 anos. Tratava-se de uma plataforma para compra e venda de celulares.

Realização

A concretização da ‘brincadeira’ começou a ganhar força quando Tallis teve a ideia de criar a Easy Taxi, um aplicativo para chamar táxi, em 2011.

Recomeço

Tallis deixou o comando da Easy Taxi para criar uma ‘fábrica de startups’ e pretende lançar 15 empresas em cinco anos.

 


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