Patrícia Cruz/Divulgação
Patrícia Cruz/Divulgação

Sem verba no caixa, empresas apelam para franquias de venda

Na crise, companhias em estágio inicial criam sistema de ‘nanofranquias’ para terceirizar sua operação comercial

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2017 | 05h00

O aperto econômico associado ao aumento do desemprego acelerou um modelo de negócio inimaginável há três ou quatro anos: o de empresas jovens, algumas delas até startups, que, sem caixa para contratar vendedores, optam por franquear seu departamento comercial.

Embrulhada pelo nome de nanofranquia – terminologia que a Associação Brasileira de Franchising (ABF) luta para que não se dissemine – e acessível por um investimento que dificilmente ultrapassa R$ 20 mil, essa oferta apareceu de forma recorrente na Feira do Empreendedor do Sebrae-SP. O evento aconteceu no último fim de semana em São Paulo, no Centro de Convenções do Anhembi. 

As empresas de franquia barata já dividiam espaço de igual para igual com as tradicionais máquinas de produção caseira e figurinhas carimbadas nesse tipo de evento, como a turma de expansão das redes de fast-food e fornecedores de software de gestão e de bancos de dados alocados na internet.

Aplicativos de delivery de comida, correspondentes bancários que trabalham com crédito consignado e até um escritório que compra precatórios disputavam a atenção de investidores com pouco dinheiro no bolso, tempo ocioso e rede de contatos regionais. 

É o caso da engenheira Amanda Charlaeaux, que trabalhou por 11 anos na linha de montagem da fábrica de motores da Ford, em Taubaté (SP), até ser demitida em abril de 2015 com outros 139 colegas. “Eu saí com um bom dinheiro no bolso, mas o tempo está passando. Resolvi fazer uma faculdade de administração e investir em mim, mas agora eu quase não tenho mais dinheiro e não sei qual tipo de negócio poderia montar tão descapitalizada”, preocupava-se, enquanto avaliava durante o evento a viabilidade das franquias de venda de produto. “Não me vejo vendendo nada para outra pessoa. O que eu queria mesmo era trabalhar com alimentação, montar uma franquia nessa área. Mas uma marca boa custa mais de R$ 100 mil.”

Para o dono do aplicativo Delivery Much, Pedro Judacheski, o potencial representado por profissionais desempregados como Amanda é alto. “Queremos alguém justamente assim, que more em uma cidade do interior e resolva ser o dono da nossa marca por lá”, diz ele, que montou a empresa há cinco anos na cidade de Santa Maria (RS) e desde então opera unicamente com recursos próprios. “Somos uma startup sem investidores externos. (Para nossa empresa), faz todo o sentido o modelo de franquias para chegarmos a lugares onde nem o iFood está ainda”, conta.

Na opinião de Daniel Beneton, coordenador da unidade de atendimento presencial do Sebrae-SP, é difícil apontar se essas novas ofertas representam ou não uma armadilha para quem procura montar uma empresa. “Mas o pessoal precisa prestar atenção. Não existe um negócio pior do que outro, existe perfil de empresa que é mais adequado para aquele empreendedor”, aponta. “O problema é que, hoje, com essa crise, oito em cada dez pessoas que nos procuraram nesta feira estão desempregados há mais de seis meses e consumindo os recursos que seriam aplicados em seu empreendimento. Poucos vão conseguir montar alguma coisa”, destaca.

Já o especialista em franchising Luiz Henrique Stockler, da consultoria ba}Stockler, pondera que as franquias de venda de produtos ou serviços podem crescer e não devem ser vistas de forma pejorativa pelo mercado. “A venda é uma excelente atividade e, se o produto ou o serviço for bom, qual o problema?”, questiona. 

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