Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

Sem recolocação, profissionais 50+ mergulham no empreendedorismo

Preconceito do mercado de trabalho e redução de vagas CLT levam profissionais com mais de 50 anos a empreenderem; experiência e networking jogam a favor, dizem especialistas

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h01

Especial para o Estado

Historicamente, o mercado de trabalho tende a substituir profissionais mais velhos por outros mais jovens. Durante a pandemia do coronavírus, no entanto, esse quadro se agravou. De acordo com um estudo de Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 605 mil trabalhadores com 60 anos ou mais perderam o emprego entre o fim de 2019 e o segundo trimestre de 2020.

A retomada das atividades econômicas e a flexibilização da quarentena não alteraram o quadro. Segundo dados do Cadastro Geral de Desempregados (Caged), enquanto foram criadas 263,7 mil vagas com carteira assinada para pessoas com menos de 60 anos só no mês de agosto, o mercado riscou do mapa 14,3 mil vagas dos mais velhos.

Diante desse contexto, muitos optaram por empreender pela primeira vez – por necessidade ou por oportunidade. “Eles encontram dificuldade em se recolocar ou querem dar uma guinada na vida e mudar o direcionamento da carreira que traçaram até então”, diz Maurício Turra, cofundador da consultoria de inovação em negócios Nextt49+.

Apesar de ainda representarem uma parcela menor entre os empreendedores iniciais (12,4%, de acordo com a pesquisa GEM Brasil 2019), os mais velhos têm maior taxa de sucesso, no Brasil e no mundo. “Eles têm características determinantes para empreender, como experiência, conhecimento e networking”, explica Turra. A aversão ao risco seria outro elemento que joga a favor. “É uma característica comportamental. São pessoas que acabam tendo cuidados adicionais no desenvolvimento do negócio.”

Empreender depois dos 60 anos, porém, assusta muita gente. Para o consultor, esse medo vem principalmente da crença em um mito – o de que, para abrir um negócio, precisa ter uma ideia única e mirabolante. “A gente trabalha com a metodologia do baixo risco, mostrando que a pessoa não precisa fazer uma mudança de 180 graus para empreender, mas sim identificar seus interesses e conhecimentos e desenvolver um produto na área que domina.”

A baixa autoestima também dificulta o processo, completa ele. “Quando perdem o emprego e ficam tentando se recolocar, acabam energia, motivação e autoestima. O trabalho tem uma função social, a empresa muitas vezes vira o sobrenome da pessoa.”

Da edícula ao primeiro milhão

Foi o caso do empresário Carlos Maximo, de 45 anos, que abriu a Wendig Tintas e Vernizes no começo da pandemia. Apesar de ainda não ter chegado aos 50 anos, ele já sofreu o baque do preconceito do mercado com as gerações mais velhas.

“Fiz carreira em multinacionais e percebia o movimento natural de substituição de colaboradores mais experientes por outros mais baratos”, observa. Ele foi demitido aos 42 anos e, depois disso, não conseguiu recolocação no mesmo nível hierárquico.

“Na semana do meu aniversário de 45 anos assisti a um webinar sobre como empreender sem capital inicial e decidi me mexer”, diz. “A ideia havia sido maturada nos últimos anos, quando tentei vender para meus chefes, sem sucesso, um modelo de operação mais eficiente para clientes (gráficas) pequenos e médios.” 

Com um investimento inicial de R$ 4 mil, Maximo comprou a primeira carga de tinta, que ficou armazenada em um canto da edícula da casa onde morava com a esposa e os quatro filhos. A ideia era fornecer material a gráficas menores que não podem manter estoque, mas precisam de agilidade na entrega quando entra um pedido. 

Os anos de conhecimento e a expertise na área foram determinantes para o rápido sucesso da empreitada. A empresa faturou R$ 15 mil no primeiro mês (em abril), R$ 245 mil até outubro e deve bater R$ 1 milhão no final do ano. O novo empreendedor afirma que a aversão a riscos ajuda nas decisões. “O ‘Carlos CLT’ era puro risco e ousadia, já o ‘Carlos empreendedor’ é mais conservador”, diz.

De voluntária a empreendedora

Voluntária por mais de 20 anos, a dona de casa Magali Caruso, de 66 anos, foi desligada da instituição que dirigia no início da pandemia. Foi então que a filha mais velha deu uma ideia. “O principal gatilho era me manter viva, produtiva, fazendo o que eu amo”, conta. Assim nasceu o Magah Ateliê, que faz arranjos florais sob encomenda.

Para a microempreendedora, o desafio é grande. “Você precisa de dinheiro para investir nos materiais e todos os custos que um negócio engloba, além de conhecer o mercado, conhecer as redes sociais, conhecer pessoas”, afirma. 

Para superar os obstáculos, ela busca assessoria e pessoas que entendem do assunto. O sentimento de realização faz tudo valer a pena. “Me faz perceber que tenho muita vida pela frente e isso é materializado em cada trabalho entregue”, celebra. 

Especialista na implementação de estratégias de transformação digital, o consultor de negócios Fernando Moulin explica que o desafio dos 50+ está em aprender a fazer a curadoria da informação e falar com o público-alvo.

“Principalmente no Brasil, existe uma barreira socioeducacional e muitas pessoas não se mantiveram atualizadas no contexto de um mundo profissional cada vez mais digitalizado”, analisa. “Antes você precisava ter uma grande empresa para fazer uma campanha na TV, agora qualquer pessoa pode postar ou fazer uma live.”

Para quem ainda não está familiarizado com o meio digital, ele recomenda os tutoriais das plataformas. “São supervisuais e didáticos, as redes estão ajudando muito as pessoas a entenderem o passo a passo”, diz. “É importante buscar ser um usuário digital antes de se tornar um profissional digital.”

Afroempreendedorismo 50+

Criadora dos projetos Simquentona e Empreendendo aos 50, com foco no empreendedorismo com representatividade etária e racial para maiores de 50 anos, a professora de inglês Leila Gravano, de 55 anos, fez um trabalho de formiguinha quando decidiu parar de trabalhar para os outros.

“Além de os programas de empreendedorismo no geral serem para pessoas mais jovens, a linguagem não é acessível.” Segundo ela, o caminho é ainda mais difícil para os negros. “Ter um afroempreendimento no Brasil significa ter inteligência emocional para lidar com os desafios que a estrutura racial implantada nos lembra a todo momento”, sublinha. “Isso inclui desde a falta de representatividade nos espaços até a incredulidade do gerente do banco.”

Além de dar aulas particulares de inglês online – desde 2018, quando não havia pandemia –, Gravano está desenvolvendo um produto de marketing digital inclusivo para quem quer empreender após os 50. “A ideia é que seja uma ponte para adequar e desmistificar essa linguagem.”

Para ela, o sucesso empreendendo veio de um longo caminho percorrido – experiência que deve ser valorizada, não ignorada. “Como mulher negra, penso que antes de tudo tem que honrar sua trajetória”, reflete. “Buscar o autoconhecimento também é fundamental para estabelecer prioridades, realinhar a rota e entender nosso valor numa sociedade que não nos vê ou ouve”. 

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