Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Saúde mental em alta dá impulso a empresas de meditação

Empreendedores que oferecem serviços de mindfulness, focados no mercado corporativo, veem faturamento triplicar na pandemia; aplicativos ajudam a disseminar a prática;

Marcos Leandro, Especial para o Estadão

18 de agosto de 2021 | 09h49

Não é novidade para as empresas que cuidar do bem-estar de seus funcionários resulta em maior produtividade e engajamento. No entanto, com a chegada da pandemia, manter a sanidade emocional e a saúde mental em meio a tantas mudanças se tornou um grande desafio dentro e fora do mundo corporativo. Por isso, muitas companhias começaram a rever seus programas de qualidade de vida e investir em ações que ajudem a aliviar a tensão em um momento tão conturbado. 

Essa maior preocupação das empresas em cuidar da mente e das emoções dos seus funcionários se tornou uma oportunidade para negócios que oferecem serviços de meditação e mindfulness, como é o caso da Mindself. A empresa conseguiu se consolidar no mercado em 2019 e, de lá para cá, vem crescendo de forma rápida e constante. Contudo, em meio à pandemia, os sócios Alexandre Ayres e Wagner Lima viram a procura pelos serviços aumentar ainda mais. 

“Triplicamos o nosso faturamento em 2020 em função da demanda crescente pelos serviços ligados à prevenção da saúde emocional e, para este ano, pretendemos novamente ficar perto de um crescimento acima de 200%”, conta Alexandre. Atualmente, a empresa já atende desde pequenos negócios até grandes empresas, como Bayer, Avon e Vivo. “Nossos clientes buscam oferecer aos colaboradores ferramentas que possam ajudá-los a lidar melhor com os desafios de uma vida profissional e pessoal cada vez mais cheia.”  

“Cada vez mais temos colaboradores de todos os setores adoecendo emocionalmente e faz necessário que as empresas ajudem essas pessoas a lidar melhor com o emocional”, afirma o executivo. No ano passado, frente a 2019, o Brasil registrou uma alta de 26% nos pedidos de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez por causa de transtornos mentais e comportamentais, segundo dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.

“Imagine o quanto um colaborador em cargo de liderança ou supervisão, sofrendo com adoecimento emocional, pode causar de prejuízo para a empresa e para sua equipe de trabalho.” Segundo Alexandre, é comum que empresas procurem pelo serviço como forma de complementar programas de benefícios e de qualidade de vida já existentes. Os valores podem variar de R$ 1.800 a R$ 20 mil por mês, de acordo com o tamanho do programa e o número de funcionários. Além disso, a Mindself atende projetos pontuais, como semana da saúde, SIPATs e outros eventos.

Mesmo com a virada para o modelo de trabalho remoto, a Mindself conseguiu se destacar. “Já estávamos preparados para operar on-line antes da pandemia e isso foi um grande diferencial para atingir rapidamente o mercado. Antes, as empresas ainda tinham receio de contratar esse tipo de atividade de forma on-line e com a pandemia pudemos perceber uma mudança de comportamento.” E as expectativas são de que os clientes continuem com as ações a distância, mesmo quando tudo voltar ao normal.

Na parte tecnológica, a empresa lançou um aplicativo no mês passado e também está investindo em estações e cabines de meditação, que já estão em funcionamento piloto com alguns clientes. Para se manter crescendo, o desafio é conseguir conscientizar as pessoas dos benefícios que o mindfulness pode trazer. Contudo, Alexandre vê muito potencial nesse segmento e acredita que o mercado pode vir a movimentar mais de R$ 250 milhões por ano, apenas com os programas corporativos ligados à meditação (ouça abaixo podcast em que Alexandre, da Mindself, fala sobre o equilíbrio do corpo e da mente). 

De olho nesse mercado, a BeeCorp também apostou na meditação como pilar das suas ações de cuidados primários com a saúde mental. Com mais de 10 anos de atuação, a empresa de bem-estar corporativo passou a oferecer mindfulness para os seus clientes nos últimos cinco anos e o resultado tem sido positivo. “As empresas já estavam investindo na saúde mental dos seus funcionários, mas isso acelerou com a pandemia”, diz Felipe Lacerda, CEO da BeeCorp.

A companhia também oferece em seu catálogo outros serviços de saúde, segurança e qualidade de vida, mas Felipe afirma que a meditação vem ganhando destaque. “Inclusive, aplicamos o mindfulness internamente para os nossos colaboradores”, conta.

Em relação às vendas, a BeeCorp vinha mantendo um crescimento médio de 70% ao ano e, com a pandemia, aumentou para 130%. Analisando apenas os serviços de saúde mental, o aumento foi de 180%. “A previsão de vendas para 2021, apenas de novos contratos, passa dos R$ 30 milhões, sendo R$ 8 milhões em soluções de saúde mental, com destaque para mindfulness e meditação.”

Aplicativos ganham destaque

Há seis anos, os empresários Moira Malzoni e Marcelo Maia abriram o Estúdio Moved by Mindfulness. Ambos são instrutores certificados de mindfulness e o espaço físico, localizado em São Paulo, é 100% dedicado à prática de atenção plena. “Começamos com uma empresa pequena, enxuta. Então, todo crescimento é bem relevante. No primeiro ano do estúdio, por exemplo, crescemos 100%”, contam.

O negócio deu certo, mas as atividades no estúdio foram suspensas momentaneamente por causa da pandemia. Em junho deste ano, eles lançaram o App Momento, que é um aplicativo que contém áudios de meditações guiadas, além de exercícios e dicas para levar a atenção plena para atividades diárias.

“As empresas podem personalizar o programa que é composto do aplicativo e de sessões presenciais ou online ao vivo. Inclusive, podem usar o logo da empresa dentro do aplicativo. Além do app, existe atendimento presencial, que pode ser composto de palestra inicial e acompanhamento semanal do grupo.”

O valor do aplicativo é de R$ 16,90 por mês ou R$ 119,90 por ano, com desconto progressivo dependendo do tipo de contratação da empresa. Hoje, o App Momento funciona como uma startup, ainda sem funcionários, mas com parceiros que cuidam de áreas estratégicas, como comunicação, finanças e tecnologia. Mesmo com o lançamento recente, a expectativa de Moira e Marcelo é fechar o ano com um faturamento de R$ 300 mil, apenas com adesões ao aplicativo e outros serviços prestados para empresas, como palestras e consultorias.

Outro empresário que passou a investir nos apps foi Alexandre Lunardelli. Em meados de 2012, ele fundou a Academia de Mindfulness e foi um dos pioneiros a trabalhar com a prática no País.

“Oferecemos cursos abertos para o público em geral, mas também treinamentos, palestras e programas feitos sob medida para os clientes corporativos”. Antes de 2020, a maioria das iniciativas acontecia de forma presencial e, pontualmente, havia algo on-line. Agora, com a pandemia, isso se inverteu, mas ele conta que o negócio se manteve funcionando bem.

“Lá em 2016, nós sentimos uma demanda de parte dos alunos por um aplicativo e vimos que existiam alguns em inglês, mas não em português. Então a minha sócia Jô teve a ideia de fazer”, lembra.

No final de 2018, foi lançado o Ácora App, que oferece um programa dividido em 17 séries de mindfulness, com sete exercícios em cada. O preço do aplicativo é de R$14,90 por mês, com descontos para planos anuais ou de acordo com o número de funcionários da empresa. 

Durante a pandemia, o número de usuários do app aumentou em 15%. Além do aplicativo, as empresas também podem contratar os serviços da Academia de Mindfulness e, inclusive, consultorias individuais. Segundo Alexandre, as ações podem ser montadas de acordo com a necessidade da companhia e o valor vai variar com isso. Agora, o objetivo é continuar expandindo e levando a prática da meditação para cada vez mais pessoas.

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