Ulises Cabrera da Silva
Ulises Cabrera da Silva

Refugiados vendem experiências culturais no Airbnb

Em parceria com a ONG Migraflix, site vai oferecer 20 experiências em São Paulo, como jantar árabe e oficina de artesanato

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 06h07

Compartilhar histórias e pratos típicos em um legítimo jantar oferecido por uma mulher síria, aprender a fazer bonecas africanas ou descobrir como é preparada uma receita típica do Haiti que tem significado de liberdade. É possível viver essas e outras experiências culturais na cidade de São Paulo por meio do programa Raízes na Cidade, idealizado pela plataforma de hospedagens Airbnb e pela ONG Migraflix, que trabalha com refugiados desde 2015. Com início em março deste ano, o programa selecionou 50 refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade para transformar arte, culinária, artesanato, música e literatura de seus países em imersão cultural. 

Após meses de aulas e workshops, além do acompanhamento de um mentor voluntário, um júri especializado selecionou 20 experiências para serem cadastradas na plataforma. Elas estarão disponíveis para reserva a partir de 20 de junho, data em que se comemora o Dia Mundial do Refugiado

As imersões custarão entre R$ 40 e R$ 130, e 100% do valor será repassado aos criadores das experiências. “Nas aulas, foram trabalhadas competências profissionais, por exemplo como organizar o plano do negócio em um canvas, e também socioemocionais, para que eles ganhassem confiança como empreendedores culturais”, conta o fundador da Migraflix, Jonathan Berezovsky. Outros parceiros, como o Facebook e o Youtube, também participaram do processo de formação, com workshops de vídeo, fotografia e como divulgar conteúdo de forma online. 

O formato do Raízes na Cidade é pioneiro dentro da área de impacto social do Airbnb, explica a gerente de marketing para a América Latina da plataforma, Sarah Galvão. “Foi uma iniciativa do escritório local. Vimos na Migraflix o parceiro perfeito para executá-la. São Paulo é uma metrópole que abraça a diversidade. Por isso, achamos que essas experiências serão bem aceitas, não só pelos viajantes, mas também pelos próprios paulistanos, ávidos por novidades.” 

Experiências. Após o terremoto que arrasou o Haiti em 2012, Manier Sael, formado em comunicação social e relações humanas, chegou ao Brasil em 2013 e, logo no início de sua estada no País, deparou-se com a dura realidade de não poder atuar em sua profissão. “Consegui então uma vaga em uma empresa em que carrego e descarrego caminhões de alumínio.” 

Mas a inconformidade em mudar completamente seu destino profissional fez com que ele criasse um canal no Youtube em que dá aulas de francês. Foi por meio desse canal que ele cruzou o caminho de Berezovsky, fundador da Migraflix, e entrou para o programa. 

Com o nome “Alimente seus sonhos com a sopa de abóbora tradicional do Haiti”, sua experiência foi uma das 20 selecionadas. “As pessoas virão até a minha casa aprender a preparar uma sopa de abóbora tradicional que tomamos todo dia 1º de janeiro, como forma de celebrar a independência do Haiti.” A refeição será permeada com histórias sobre o país e a cultura local. “As pessoas só lembram de pobreza quando pensam no Haiti. Mas somos a primeira república negra do mundo.” 

Participar dos workshops fez com que Sael se descobrisse como empreendedor. “Criei e quero crescer com a marca Alimente seu Sonho. Fiz um logo e estou vendendo bonés. Em breve quero vender roupas”, diz. 

Também baseada nos aromas e sabores da culinária de seu país, a Síria, Ghazal Barambo é criadora de outra experiência que estará na plataforma. Dona de casa em Damasco, Ghazal chegou ao Brasil em 2013 com a família e já conhece o caminho árduo de empreender.

Em cinco anos no País, abriu e fechou um restaurante, o Talal Culinária Síria. “A estrutura era muito cara, e lidar com os funcionários também foi muito difícil.” Hoje, Ghazal faz marmitas árabes em casa, que são vendidas por meio de aplicativos de delivery. 

Sua experiência, acompanhada com exclusividade pelo Estadão PME, é um jantar árabe típico em sua casa – mas sem esfirras. No lugar, receitas como a carne de bandeja, charuto com folha de couve, shawarma de frango, kafta, arroz com lentilha, falafel, entre outros. Histórias sobre as receitas e o país também fazem parte da imersão (R$ 60, sem bebidas alcoólicas).

O artesanato africano foi o meio escolhido por Renee Ross-Londja, da Guiana Inglesa, para promover uma experiência com representatividade e diversidade. Ela elaborou uma oficina para ensinar pais e filhos a confeccionarem bonecas africanas (R$ 90, com direito à boneca). 

“Sabemos que não existem muitas bonecas negras à venda e é muito importante mostrar essa diversidade para as crianças, negras ou não”, diz. Ela pretende fazer a experiência em alguns locais icônicos da cidade, como o Museu da Imigração.

Renee veio para o Brasil acompanhando seu marido, natural da República Democrática do Congo, em 2009. Além de ministrar as oficinas em outros locais, também vende as bonecas em bancas na Avenida Paulista, nos finais de semana. “Percebi que quero trabalhar para mim. Já sou MEI e pretendo abrir um ateliê, em que vou vender mais coisas que sei fazer, como colares, bordados e pinturas em tecidos”, diz. 

Confira as 20 experiências 

Gastronomia 

A riqueza dos sabores venezuelanos: Adriana Nathali Camargo Ibarra, Venezuela 

Viva os sabores da Venezuela: Carmen Julia López Torrealba, Venezuela 

Viagem pelos sabores típicos da Síria: Fatima Ismail, Síria 

Um autêntico jantar de comida árabe: Ghazal Barambo, Síria 

Ardor é uma desculpa: coma comida mexicana!: Jesus Pasillas Buenrostro, México

Alimente seus sonhos com a sopa abóbora tradicional do Haiti: Manier Sael, Haiti 

Uma viagem à Damasco: histórias e sabores da Síria: Yamam Saad, Síria 

Brunch venezuelano - receitas de comida caseira da Venezuela: Yilmary de Perdomo, Venezuela

Arte/Artesanato 

Aprendam a fazer comigo a arte e o design de tecido africano: Duchelier Mahonza Kinkani, República Democrática do Congo 

Flauta Boliviana - conheça as origens e a arte da sua fabricação: Javier Quino Pereira, Bolívia

Oficina de bordado boliviano: Marcia Elizabeth Limachi Ayala, Bolívia 

Oficina de turbante africano e dança congolesa: Prudence Kalambay Libonza, República Democrática do Congo 

Vem bonecar comigo - conheça e aprenda a fazer bonecas africanas: Renee Ross-Londja, Guiana Inglesa 

Música/Dança 

Colômbia é música, é paixão!: Aleksey Benavides Rodríguez, Colômbia

O Haiti está aqui: Viagem pelos sons do Haiti: Charles Arche Borromée Obas, Haiti 

Uma jornada pela música do Congo: Ezechiel Kabeya Tshibungu, República Democrática do Congo 

Cantigas de trabalho das venezuelanas - Performance Artística: Francellys Dianora Castellar, Venezuela 

Dança Zulu - uma experiência como você nunca viu antes: Nduduzo Siba, África do Sul 

Dança Árabe-Andaluza e Nur Al Samah (dança do ventre): Yara Tanji, Síria

História 

História e influência da cultura negra na Venezuela: Raul & Elvira Escalona, Venezuela

As experiências estarão disponíveis no site do Airbnb

 

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