Alessandro Lucchetti
Alessandro Lucchetti

Raros e teimosos, donos de videolocadoras mantêm lojas abertas para um punhado de fiéis clientes

Cercados por Netflix, TV a cabo e pirataria, empresários que investiram em locadoras nos anos 1980 e 1990 não entregaram os pontos. Ainda

Alessandro Lucchetti, Especial para O Estado

17 de maio de 2017 | 18h59

A entrevista acabou e é hora de fazer as fotos. Já não existe nenhum funcionário na loja e, para que a imagem contenha um pouco mais de alegria, pedimos a Paulo Sérgio Baptista Pereira para que dê um abraço falso numa dupla de papelão, R2-D2 e C-3PO, personagens de Guerra nas Estrelas. "Já ganhei muito dinheiro com esses caras", recorda, saudoso, o dono de uma das raríssimas videolocadoras que sobrevivem na cidade. Trata-se da Video Connection, abrigada no térreo do Copan.

A própria equipe de reportagem do Estadão PME para lá enviada chegou a temer ao enveredar pelo corredor que vai dar na loja e ver um aviso de papel afixado na porta de ferro. Felizmente, não era um aviso que dava conta do fechamento da locadora; informava apenas o horário de funcionamento. Ficava aberta das 10h às 22h, mas agora Paulo atende das 11h às 21h. "Minha filha já não trabalha mais comigo, então decidi cortar duas horas, porque fica muito pesado para eu atender sozinho", diz o comerciante de 61 anos.

Bem longe dali, em Sapopemba, Gilberto Petruche, também com 61 anos de idade, é a equipe de um homem só que mantém vivo o Charada Clube, que foi apenas locadora por muitos anos, mas hoje funciona também como sebo de vinis. Assim como Pereira, Petruche, conhecido no bairro como Charada, copia VHs de casamentos, batizados e outros eventos familiares para outras mídias. Todo o esforço é necessário para fazer frente aos R$ 1.850 do aluguel. A loja tem uns 150 metros quadrados. Para aproveitar bem o espaço, o comerciante transformou a antiga sala pornô numa sala de espetáculos com capacidade para até 70 pessoas "bem apertadinhas". Já recebeu bandas do bairro e até Ciro Pessoa, fundador dos Titãs e compositor de Sonífera Ilha e Homem Primata. Não há cobrança de ingressos para os shows, tampouco pagamento de cachê aos músicos, brindados apenas com uma mesa farta em sanduíches de mortadela, cerveja e guaraná.

Os fãs dos pornôs ficaram sem a sala, mas continuam contemplados na loja por Charada, que vê verdadeiros amigos nos cerca de 150 fiéis clientes. "Tenho uns 11 mil sócios no cadastro, mas apenas uns 200 são clientes ativos. Alguns dizem que vêm para me dar uma força. Considero ativos aqueles que apareceram por aqui ao menos uma vez nos últimos 90 dias". Gilberto calcula que 20% de suas locações sejam de pornôs.

Charada ainda emite carteirinhas novas. Muitas delas pertencem a clientes que querem dar vida a velhos aparelhos de VHS. "Tenho um acervo com uns 17 mil filmes, sendo uns 2 mil em VHS. Tenho um cliente de Santo Amaro que atravessa a cidade e aluga uns 30 VHS de uma tacada só para assistir ao longo de um mês".

O recorde de locações na locadora da Vila Tolstói, em Sapopemba, foi estabelecido no dia 2 de janeiro de 99. "Foram 880 num único dia", relata nostalgicamente o fã de Glauber Rocha. "Hoje, o número mensal de locações está em torno de 200", compara. Os VHS saem por R$ 8; os DVDs são locados por R$ 6.   

O empresário de Sapopemba continua investindo na ampliação de acervo - compra filmes de locadoras que estão fechando e garimpa títulos na Livraria Cultura. Os filmes de arte, aqueles raramente presentes na programação dos canais mais assistidos da TV a cabo e na Netflix, são especialmente procurados pelo comerciante da zona leste. "Eles dão um retorno legal. Você não os encontra na pirataria. Quem gosta de clássicos precisa procurar um lugar como o meu."

Charada se considera um soldado da resistência cultural, mas não é o apreço pela defesa de uma das últimas trincheiras que o mantém nela. "É uma paixão. Tenho consciência de que é uma paixão doentia, estou num momento de reflexão a respeito disso", diz o empresário, que só fecha as portas no dia 25 de dezembro.

Já Pereira não abre a Video Connection em domingo algum. "Por minha mulher, já teria encerrado o negócio, mas eu o amo. Na verdade, estou pagando para trabalhar", diz o empresário, que ao menos não tem despesa com aluguel. Nos idos de 97, comprou a loja por R$ 60 mil. Uma unidade do mesmo centro comercial, com metragem semelhante, foi vendida recentemente por R$ 1 milhão, segundo ele.

As distribuidoras de filmes não colaboram com Pereira e Charada. Os DVDs deveriam ser comercializados por quatro meses antes da chegada do título à Netflix, mas essa janela nem sempre é respeitada. "Tem filme que entra no Netflix antes de eu conseguir comprar", chia o dono da loja do Copan.

A entrevista é interrompida à chegada de uma cliente. "Achei o Rapa Nui que a sua irmã queria", diz Paulo para ela, visivelmente orgulhoso por possuir, em seu acervo de VHS, um título lançado em 1994. "Eu tô meio cansado disto aqui, mas este contato com os clientes é muito gostoso", diz o sexagenário, que admite estar balançando. Na proteção de tela de seu computador consta a foto de sua bela moto vermelha. "Eu faço parte de uma turma de motos. A gente já foi à Argentina, a Brasília. Perdi muitos passeios por causa da loja", admite o motoqueiro cinéfilo, que vê se aproximar o dia em que passará a sentir com mais frequência o vento das autoestradas no rosto. "Li na internet que as locadoras ainda têm uns dez anos de vida. Elas vão ficar cada vez mais raras e continuará a haver um mercado para quem resistir. Concordo em parte, mas acho que não vai durar dez anos."

 

Tudo o que sabemos sobre:
NegóciosEmpreendedorismoCultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.