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Quem precisa de um aplicativo para fazer café em qualquer lugar?

Diariamente, empresas inovadoras prometem tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Se estão conseguindo, essa é uma outra questão

Allison Arieff, New York Times

13 de julho de 2016 | 08h00

Diariamente, empresas inovadoras prometem tornar o mundo um lugar melhor para se viver. Se estão conseguindo, essa é uma outra questão

Aqui há apenas uma amostra dos produtos, aplicativos e serviços que entraram no meu radar nas últimas semanas:

- Um serviço que manda alguém encher o tanque do seu carro.

- Outro que manda um valet de motoneta até você, onde quer que você esteja, para estacionar o seu automóvel.

- Outro ainda que filma tudo o que você quer com um drone.

- E muitos outros que, por exemplo, arrumam a sua mala - virtualmente;

- enviam uma escova de dente nova para o seu aparelho elétrico na sua caixa postal a cada três meses;

- ou mesmo cerveja à sua porta;

- um aplicativo que analisa a qualidade do seu beijo na boca;

- um botão e um zíper inteligente que o alertam se sua braguilha está aberta;

- outro com alto-falante que toca música no interior das paredes vaginais da mãe para o filho que ainda não nasceu;

- um aplicativo que permite que você faça seu café onde quer que esteja;

- um sensor instalado na falda do seu filho que envia um alerta quando a fralda precisa ser trocada;

- aplicativos vários que localizam vagas de estacionamento de aluguel para seu carro;

- outro que localiza iates para alugar;

- ou o que ajuda a entender "causa e efeito em sua vida";

- o aplicativo que orienta a meditação consciente;

- aquele que ensina sabedoria;

- e uma nova proposta para a criação de um aplicativo que impede a polícia de matar gente.

Estamos diariamente assoberbados por novas descobertas, patentes e inventos que prometem uma vida melhor, embora essa vida melhor não tenha sido concedida à maioria. Na realidade, a maior parte dos itens acima visa uma fatia muito específica (e minúscula) da população. Como um colega da área de tecnologia me explicou recentemente, para a maioria das pessoas que trabalham nestes projetos, o objetivo consiste fundamentalmente em proporcionar para si mesmos o que as respectivas mães deixaram de proporcionar.

Clay Trevor, escritor e produtor da comédia da HBO, Silicon Valley, disse num recente artigo no New Yorker: "Segundo me contaram, em algumas grandes corporações, os departamentos de Relações Públicas mandaram os funcionários parar de dizer: 'Vocês estão tornando o mundo um lugar melhor', particularmente porque nós caçoamos desta frase sem piedade. Portanto, acho, que 'estamos tornando o mundo um lugar melhor' fazendo com que estas pessoas parem de dizer que estão tornando o mundo um lugar melhor".

Bom, já é um começo. Mas o impulso de fundir a entrega de escovas de dentes com bons trabalhos dignos de um Prêmio Nobel, não é nem um pouco cult; atualmente é uma queimada que devora o chamado setor de inovações. Produtos e serviços destinam-se a lançar a desordem nos setores do mercado (ou seja, lançar no mercado coisas de que ninguém na realidade precisa) mais do que a solucionar os problemas reais, principalmente os experimentados pela classe que a escritora C. Z. Nnaemeka definiu como "classe inferior nem um pouco exótica" a das mães solteiras, da população rural branca empobrecida, dos veteranos, dos americanos desempregados acima dos 50 - que, explica, têm "a desgraça de não ser suficientemente interessantes".

Se a função mais fundamental de 'plano' é solucionar problemas, por que tantas pessoas dedicam tanta energia à solução de problemas inexistentes? Como fazer com que haja mais gente enxergar além da própria experiência de vida?

A designer e teórica Jessica Helfand, autora do livro Design: The Invention of Desire, obra profunda e necessária lançada recentemente, chama a atenção para o termo 'hack', muito usado no Vale do Silício, que foi pintado no pátio do campus da Facebook, visível dos aviões que voam sobre o local, e que indica também uma pessoa que não faz as coisas direito, porque não sabe ou não quer.

'To hack' significa cortar, quebrar. E deriva da ideia de que nada deve ser poupado, tudo deve ser salvo. Mas será este o caso? Estamos consertando as coisas certas? Estamos quebrando as coisas erradas? Será necessário começar do zero toda vez?

Empatia, humildade, compaixão, consciência: são estes os elementos que faltam na busca de inovações, afirma a escritora. No livro ela explora o design e por extensão a inovação, como uma disciplina intrinsecamente humana - embora aparentemente tenha perdido o seu objetivo. E reitera que a inovação hoje tem menos a ver com criar e mais com desfazer o trabalho dos outros.

"Neste ambiente de escassa humildade, a ideia de disrupção atrai como uma espécie de provocação subversiva", ela escreve. "Há designers demais que acham que estão inovando quando na realidade estão apenas quebrando e entrando".

Tradução de Anna Capovilla

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