Thibaud Lecuyer, sócio diretor da Dafiti
Thibaud Lecuyer, sócio diretor da Dafiti

Quem acha essa crise uma surpresa esteve hibernando por dois anos, diz sócio da Dafiti

Thibaud Lecuyer, sócio diretor da Dafiti, fala sobre projetos de expansão da marca e recessão econômica

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo,

11 de janeiro de 2016 | 06h54

A retração que assombra a economia brasileira não assusta Thibaud Lecuyer, um dos fundadores da Dafiti. O e-commerce, idealizado por Lecuyer, pelo brasileiro Philipp Povel e pelos alemães Malte Huffmann e Malte Horeyseck, começou com a venda de calçados e hoje envolve, apenas no Brasil, mais de mil marcas e 110 mil produtos entre roupas, sapatos, acessórios, beleza, casa e decoração.

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Uma das razões para o otimismo de Thibaud é que, mesmo diante da crise, o capital não parou de entrar na empresa. No primeiro semestre de 2015, a Dafiti obteve receita líquida de R$ 368 milhões, um crescimento de 41% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em cinco anos de atuação, a Dafiti recebeu um total de R$ 660 milhões em financiamentos de investidores como AB Kinnevik, IFC, JP Morgan, Quadrant Capital Advisors e Teachers’ (OTPP).

O sócio-diretor da empresa falou ao Estadão PME sobre os planos de expansão da empresa em 2016. Confira a conversa a seguir.

A Dafiti entrou no mercado brasileiro em um momento de consolidação da cultura do e-commerce por aqui. Qual é a percepção que vocês têm hoje do mercado online?

Tivemos que educar e iniciar vários brasileiros às compras de moda online, algo que não era comum ou fácil até então. Mostramos ao consumidor brasileiro que comprando na internet é possível receber um serviço de qualidade, muitas vezes melhor do que a compra offline.

Quando iniciamos, há cinco anos, a brincadeira é que em março e abril, na época da Páscoa, vários clientes e e-commerce, estavam recebendo, ainda, as entregas de Natal. O comércio eletrônico não atendia o cliente como deveria, o importante era vender e faturar. A entrega era um segundo momento.

Qual foi a estratégia adotada pela Dafiti para conquistar o público?

Desde que iniciamos tentamos mostrar para o cliente que o e-commerce não tem essa coisa meio cinza, esse lado escuro da força, para usar o termo bem 'Star Wars'. Nos diferecenciamos oferecendo a devolução de graça e até 30 dias para mudar de ideia. Se você olhar a lei do consumidor, são sete dias. Decidimos dar mais tempo para o cliente se arrepender.

Desenvolvemos, também, uma interação rápida e eficiente com o cliente. Se ele manda um email, vamos responder em até sete ou oito horas. Se liga, vamos atender dentro de 30 segundos. Não é necessário digitar 1, 2 ou 3, o número do CPF, 4, 5, o CPF de novo, para chegar ao atendente. Nosso objetivo é garantir o serviço de atendimento como uma porta de entrada na companhia.

O líder do mercado no ecommerce é a Amazon. Quando você compra na Amazon, você esquece que comprou, porque sabe que vai receber de maneira rápida e segura. Se houve qualquer problema, o lojista vai te ajudar a resolver. Esse foi o nosso objetivo e acho que conseguimos, de passar esses valores para o nosso cliente aqui no Brasil.

Qual é a estratégia de crescimento da Dafiti diante da crise enfrentada pela economia brasileira?

Para nós, a crise não foi uma supresa. Quem acha que essa crise é uma surpresa, esteve hibernando nos últimos dois anos. Todo mundo teve sinais para se preparar o quanto antes. Para nós, a questão era como se preparar e quais seriam os impactos. A inflação maior coloca mais pressão sobre os nossos custos, portanto não deixamos subir demais os custos, porque depois precisaríamos reduzir. A inflação coloca pressão sobre a folha de pagamento dos funcionários e está pressionando a companhia por dentro.

Mas também tem uma pressão que vem de fora, do lado da demanda, do cliente. O nível de famílias inadimplentes está alto, o desemprego subiu e vai gerar menos renda disponível. Em tempos de crise, as pessoas reduzem a despesa, o consumo, para gastar em bens de primeira necessidade.

Você tem uma tempestade perfeita e estamos vivendo ela. Deveria parecer tudo negativo e obscuro. Mas, apesar disso, é preciso acordar todos os dias do lado claro da força, otimista. O departamento comercial precisa tentar vender um produto todo dia, e vai receber não, não e não. A cada reunião, você precisa chegar com um sorriso. Para empreender no Brasil, tem que ser assim, otimista.

De que forma uma empresa pode proteger seu capital em períodos como esse?

É preciso simplificar a estrutura, os processos, detectar o que fazer de maneira diferente para ser mais eficiente dentro de casa. Outro aspecto é tentar entender de A a Z todos os custos da companhia, entender onde está a gordura e cortá-la.

Em outros países, em períodos de crise, o acesso ao capital vem de forma mais fácil porque o capital é barato. Empréstimos têm custo reduzido. Aqui não é o caso. Então é preciso olhar com muita atenção para o fluxo de caixa, porque ele é impactado pela venda, pela receita, mas também é impactado porque clientes pararam de pagar. Você tem que entender ainda mais esse jogo em períodos de crise.

A Dafiti começou direcionada para calçados e hoje atende a outras demandas. Essa estratégia de expansão deve permanecer?

O consumidor hoje sabe muito bem que a Dafiti não é só uma loja de calçados. É uma loja onde você compra de calçados, vestuário, acessórios e produtos de beleza, uma categoria que está crescendo bastante no nosso site. Quando as pessoas gostam do serviço da Dafiti, se sentem seguras para comprar outros produtos também.

O cliente sabe que vende sapatos, mas também há uma diversificação.

Tem que fazer uma coisa bem primeiro. Entre trabalhar com dez coisas ao mesmo tempo e trabalhar mal, preferimos dominar o mercado de calçados de maneira rápida, ganhar experiência, para depois passar para um segundo momento de acessórios, que é uma venda mais fácil. É muito mais difícil vender vestuário, roupa, do que calçado. Então, preferimos primeiro crescer, fazer venda, ter receita com calçados, aprender e quando tivemos tudo isso decidimos expandir. Se você tentar fazer tudo ao mesmo tempo, vai fazer mal feito.


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