Autorretrato
Virgílio Amaral criou a Boobs for Drags para atender o público que faz performance como drag queens. Autorretrato

Prótese de silicone movimenta mercado para drag queens

Nomes como Pabllo Vittar, Gloria Groove e RuPaul’s Drag Race popularizam arte no Brasil; empreendedor vê oportunidade para vender seios de silicone

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2022 | 05h00

Cabelos longos, cílios postiços, maquiagens marcantes, sapatos glamourosos e seios artificiais fazem parte do cotidiano das drag queens - pessoas, geralmente homens, que se montam como uma personagem para performance artística. A popularização das drags no Brasil, que inclui nomes como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Rita Von Hunty e ainda vai ganhar uma versão nacional do reality show RuPaul’s Drag Race, fez com que o empreendedorismo também abrisse os olhos para esse mercado. 

Muitos dos itens usados pelas drags podem ser aproveitados do que é vendido para o público feminino, mas algumas especificidades, como o tamanho dos seios, fizeram o empreendedor Virgílio Amaral criar sua empresa em 2019. A Boobs for Drags (peitos para drags, em inglês) vende itens como perucas, trajes, acessórios e o carro-chefe: próteses de seios de silicone.

O início da empresa aconteceu a partir da experiência do próprio Virgílio como drag, mas o crescimento recorde, mesmo durante a pandemia, mostrou que há mercado: em 2021, a empresa faturou R$ 100 mil.

“Eu comecei de maneira ocasional, importando perucas para amigos que se apresentavam em shows de drag. Quando comecei a importar próteses, outras drags começaram a pedir, já que, na época, ainda era uma novidade no Brasil. A maioria delas via as próteses sendo usadas em programas internacionais, como RuPaul's Drag Race, mas não tinha informação de como comprá-las”, conta.

A prótese funciona como uma camiseta regata, que a pessoa veste pela cabeça, e é composta de colo e um par de seios feitos de silicone e algodão elástico, o que deixa o produto com aspecto realista. Para se adequar à necessidade do consumidor, elas existem em três tamanhos, que vão de 400ml a 700ml, e em seis tonalidades de pele.

“A gente vende principalmente para drag queens e crossdressers. Mas também vendemos para cosplayers, mulheres trans e até mulheres cisgênero (pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer) que precisaram passar por cirurgia de retirada das mamas”, conta Virgílio. Uma das clientes e embaixadoras da marca é a cantora Lia Clark.

Os produtos são importados de países como China, Estados Unidos e Suécia. Com o tempo, Virgílio entendeu que seria melhor para a qualidade e para o preço final se importasse o material e terminasse de confeccionar as peças no Brasil. Hoje, elas chegam “vazias”; ele faz o preenchimento com o algodão elástico e finaliza a colagem dos mamilos. Segundo o empreendedor, isso facilita a importação e evita danos no transporte. 

“Eu também faço pedidos especiais para o fornecedor. Agora, a gente está mudando o tipo de ‘pele’, ela ficará ainda mais realista. Será o mesmo tipo de pele de uma marca japonesa, que é referência em próteses, mas que tem preços absurdamente caros para o Brasil.”

Cada peça custa em torno de R$ 669 e é vendida por site próprio, marketplace e Instagram. Os clientes podem visitar o showroom da marca em São Paulo para conhecer as peças pessoalmente ou fazer uma consultoria gratuita pelo Whatsapp para compreender qual é o melhor tamanho e cor.

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Calcinha para transgênero e travesti vira negócio e atende demanda reprimida

Peças íntimas têm tecido e modelagem especiais para evitar problemas de saúde; marca de São Paulo atende clientes como a cantora Linn da Quebrada

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2022 | 05h01

A exclusão de certos grupos na sociedade aparece até em coisas muito simples, como comprar roupa íntima. Se você é uma pessoa cisgênero (que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento), você vai em uma loja e compra calcinha ou cueca em poucos minutos. Mas para travestis e mulheres e homens transgêneros até uma atividade tão simples quanto essa é cheia de obstáculos. Essas dificuldades, aliadas ao potencial de mercado e à preocupação com a saúde, motivam empreendedores a criar negócios mirando esse público.

No ano passado, a Pantys, marca de calcinhas absorventes para menstruação, lançou a cueca menstrual, voltada para homens transgêneros e pessoas não binárias (que não se identificam nem com o gênero masculino nem com o feminino). Oito meses após o lançamento, a cueca está entre os 10 produtos mais vendidos da marca ao redor do mundo e teve um crescimento médio de 190% por trimestre desde junho de 2021.

A dificuldade em encontrar produtos que a atendessem como mulher trans fez a estilista Sandy Mel criar uma empresa especializada em calcinhas e biquínis, em Itajaí (SC). Com produtos que variam entre R$ 25 e R$ 150, além de mulheres trans e travestis, a empresa ainda atende mulheres cisgênero e homens crossdresses (que gostam de se vestir e de se portar de acordo com o gênero oposto), ainda que em menor quantidade.

Mas por que uma calcinha para mulheres trans e travestis precisa ser pensada especificamente para esse público? Entre essas pessoas, há muitas que não fizeram a cirurgia de redesignação sexual, ou seja, elas possuem um pênis. Assim, o tecido e a modelagem da calcinha precisam ser diferentes para conseguir acomodar o órgão.

Outro fator que interfere na modelagem é a “aquendação”, técnica que consiste em esconder o pênis para que ele não fique ressaltado na calcinha. Esse método é muito utilizado por mulheres trans e travestis e por drag queens quando estão no personagem. Para “aquendar”, é comum usar fita adesiva e cola no órgão genital, o que pode ser prejudicial à saúde. Nesse ponto, entram as calcinhas pensadas para esse público, que evitam o uso de substâncias que fazem mal ao corpo.

Na empresa de Sandy é ela, com sua experiência pessoal, quem desenha os produtos, faz os cortes, compra os tecidos, pensa nos modelos e conduz as vendas pelas redes sociais e marketplaces. Para confeccionar as peças, ela conta com uma equipe de costureiras.

“O maior desafio hoje é manter o padrão de qualidade, mesmo com o aumento do preço dos tecidos e dos aviamentos, sem aumentar o preço final. O público é muito exigente, sempre quer novidades, então eu renovo as opções de estampa a cada 15 dias. Tem loja que não vende tecido em pequena quantidade, então a compra mais básica que eu faço não fica por menos de R$ 1.500”, explica. 

Victor Alves e Everton Torres perceberam que havia uma demanda no mercado e, em 2018, criaram a TGW, que fabrica e comercializa moda íntima, praia e fitness para mulheres trans e travestis em Blumenau (SC).

“Blumenau se tornou uma referência para pessoas trans com uma clínica voltada para esse público, que é reconhecida mundialmente. Então, percebemos a falta de oferta, porém uma grande demanda – não em termos de mercado, mas de necessidade. A mulher trans e travesti precisa poder comprar uma roupa íntima feita para o corpo dela, para que ela se sinta inserida na sociedade”, explica Everton. 

Por serem dois homens cisgênero, eles precisaram de ajuda para confeccionar os produtos. “Tivemos uma ajuda dessa clínica que atende pessoas trans para fazermos peças que se adequam ao órgão. Dependendo da qualidade da calcinha, acaba machucando e inflamando”, conta Victor.

Hoje, na empresa, trabalham os dois sócios e uma revendedora que comercializa as peças nos Estados Unidos, além de um investidor anônimo. As vendas são feitas pelas redes sociais, e-commerce, Whatsapp e marketplaces. O carro-chefe, a calcinha, custa R$ 49,90. A dupla vende, em média, 100 pedidos por mês. 

De olho na saúde 

A saúde também é uma questão importante para o surgimento desses negócios. Em 2016, a empreendedora Silvana Bento criou a sua empresa, a Trucss, em São Paulo, a partir de um problema detectado no trabalho como técnica em hemoterapia. Observando as pacientes trans e travestis que chegavam aos hospitais, percebeu que muitas eram internadas para fazer cirurgia nos rins. Foi atrás de respostas e entendeu que o problema acontecia porque elas seguram a urina por muito tempo.

O motivo é explicado pela técnica da “aquendação”. Como geralmente ela é feita com cola ou fita, só se retira no banho, o que faz com que a pessoa passe muito tempo sem fazer xixi, e isso gera doenças do trato urinário.

Diante desse cenário, Silvana pegou tecido, linha e agulha e desenhou um protótipo de calcinha que, com um funil entre as pernas, simula a técnica da ‘aquendação’. Assim, a pessoa pode ir ao banheiro quando der vontade, sem grandes transtornos. Silvana entrou com o processo de patente em 2016, mas a aprovação pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) leva em média seis anos para a concessão. Há casos em que os inventores tiveram que esperar mais de 10 anos. 

A partir do modelo da calcinha, que custa em média R$ 70, ela desenvolveu também uma linha praia. Uma de suas clientes é a cantora Linn da Quebrada, atualmente participante do Big Brother Brasil 22. A BBB, inclusive, levou os produtos para usar durante o confinamento. 

As vendas da Trucss são feitas por um site - que conseguiu colocar de pé após sua participação no programa Shark Tank - pelo Instagram e pelo Whatsapp. No fim de 2020, Silvana acreditou que, com a chegada da vacina no próximo ano, a economia iria melhorar, e abriu uma loja física em São Paulo. Mas, com a fase vermelha da pandemia, que veio logo depois, teve que fechar após seis meses.

“Nossas vendas caíram 70% durante a pandemia. Eu tinha uma equipe, mas precisei dispensá-los e fiquei sozinha na marca, apenas com a pessoa terceirizada que fabrica as peças para mim”, conta. Por ser um negócio pequeno e sem capital de giro, as vendas são feitas por encomenda, o que, para Silvana, é o maior desafio da empresa.

“Quando a pessoa compra, geralmente, ela precisa do produto com urgência. E eu demoro de dois a 20 dias úteis para entregar. Acaba sendo até constrangedor falar isso para uma cliente. Se eu conseguir fazer um estoque e ter os produtos na pronta-entrega, vai facilitar a conclusão da venda. Como eu terceirizo a fabricação, eu não tenho a costureira só para mim, então eu disputo com outras pessoas”. 

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