Caio Palazzo
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Produto multifuncional de design exclusivo é aposta de pequenos negócios

Desafio para crescimento de marcas como Noori e Aram, porém, está em escalar produção e diversificar cartela de produtos

Julliana Martins, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2019 | 06h00

Especial para o Estado 

Numa época em que o produto artesanal e exclusivo passou a ter grande valor, empreendedores voltaram suas apostas a itens originais, multifuncionais e com projeto de design agregado. No entanto, enfrentam desafios para crescer como empresas de um único produto de baixa tiragem e alto custo.

Uma delas é a empresa paulistana Noori, cujo fogão a lenha móvel ficou entre os cinco finalistas de prêmio anual a ser entregue nesta semana pela prestigiosa revista britânica Dezeen. A visibilidade de ser a única empresa brasileira entre os finalistas fez com que o fogão (R$ 5.990) já recebesse as primeiras encomendas da Europa.

Com um DNA na permacultura - que apregoa a harmonia da intervenção humana na natureza -, o fogão Noori se baseia na tecnologia do “rocket stove” (chamado de fogão foguete, que usa lenha) e também funciona como churrasqueira, aquecedor e defumador.

A peça foi pensada pelos amigos Pedro Heldt (arquiteto), Eduardo Gayotto (designer) e Plínio Ruschi (engenheiro ambiental) ainda em 2017 e finalizada neste ano. A multifuncionalidade faz parte do propósito dela, para ser usada como equipamento de cozinha e item de decoração.

“O fato de ser um produto duradouro, na contramão da cultura do descartável, reforça ainda mais a nossa ideia de participação e reunião familiar ao redor do fogo, como antigamente”, conta Eduardo.

Como a produção do Noori envolve 10 fornecedores de diferentes Estados, a compra do fogão pelo site implica em 45 dias para a entrega. O processo de fabricação concentra alguns desafios para a empresa, que precisa aumentar a produção para atender a uma demanda crescente - de março a setembro, 25 peças foram vendidas. Com a visibilidade de prêmios, foram ao menos três encomendas para o exterior, além de uma negociação para revenda na Europa.

Além da classificação na premiação da Dezeen, na categoria “homeware product” (artigos domésticos), a marca ganhou prêmio na feira MADE, em agosto em São Paulo, e venceu como melhor Design de Produto na plataforma italiana ItsLiquid International Contest 2018.

“É uma vitória para nós, já que o Noori não tem nem um ano de lançamento. Mas ainda temos que escalonar a produção, definir pontos de venda e organizar os processos de exportação”, diz Eduardo.

Cartela com outros produtos

Além desses desafios, também entra na conta da Noori projetar novos itens, como acessórios para o fogão. Para o professor de gestão comercial e empreendedorismo da FGV Cláudio Goldberg, viver de um produto apenas leva a empresa ao risco de ser copiada e engolida por empresas maiores.

“O consumidor tem uma oferta explosiva, com várias opções de compra. O maior risco para as pequenas empresas é que o diferencial delas pode ser rapidamente alcançado por algum player com mais recursos financeiros e tecnológicos, que pode fazer um produto similar”, diz Goldberg.

Na curitibana Aram, empresa que tem como chamariz uma cafeteira de expresso manual com design praticamente esculpido em madeira e metal (R$ 1.160), outros itens passaram a fazer parte do catálogo e mais três produtos estão em desenvolvimento para lançamento nos próximos meses.

Viabilizada em 2016 após um financiamento coletivo que arrecadou 700% da meta inicial, a cafeteira Aram é feita com itens de mais de 20 fornecedores de Curitiba. As vendas são feitas pelo site com entrega para o mundo todo.

Para o fundador, Maycon Aram, que já expandiu a revenda de seus produtos para 12 países, o desafio atual não é mais escalar a produção, que já chega a 600 peças mensais produzidas em lotes, mas explicar os diferenciais ao cliente e disseminar os princípios que nortearam a criação do produto.

“Com as vendas pela internet, acabamos entrando em um campo raso, onde impera o consumo rápido, conceito que vai na contramão da identidade da empresa. Queremos disseminar a arte do café, do design e da produção artesanal”, conta Maycon, que pensa em criar um blog com conteúdos sobre o universo do café.

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