Alex Silva/Estadão
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Previtechs simplificam acesso para atrair cliente à margem de grandes bancos

Startups de previdência miram educação financeira e digital para estimular investimentos; segundo estudo, setor enfrenta paradigma cultural e impacto da pandemia na renda

Marcos Leandro, Especial para o Estadão

28 de novembro de 2021 | 05h00

A expectativa de vida do brasileiro, em 2020, é de 76,8 anos, segundo o IBGE. Em 1940, era de 45,5 anos. Com o avanço das tecnologias, as pessoas conseguem viver mais, porém a grande questão é: como vão se bancar? Trabalhar até o final da vida não é uma possibilidade para todos, seja por questões de saúde, vontade própria ou até mesmo pelo preconceito etário do mercado de trabalho. Por isso, a preocupação é conseguir garantir uma boa aposentadoria

Em um cenário pós-reforma da Previdência, em que se dificulta o acesso à aposentadoria pelo Estado, o mercado de previdência privada viu sua demanda crescer. Mesmo com a pandemia, os aportes em planos abertos ultrapassaram os R$ 100,7 bilhões de janeiro a setembro deste ano, segundo a FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida). E há potencial de aumento, uma vez que, de acordo com Relatório Global do Sistema Previdenciário 2020, cerca de 90% das pessoas com mais de 25 anos não poupam dinheiro pensando na aposentadoria.

Segundo Renato Padredi, gerente de produtos da Brasilprev, o grande desafio é promover uma mudança cultural. “Temos que ajudar para que essas pessoas comecem a se planejar”, afirma. Como forma de popularizar o acesso a planos de Previdência, as previtechs (startups de finanças focadas no mercado previdenciário) buscam inovar e tornar os processos mais simples - algo similar ao que aconteceu com os bancos digitais e as fintechs de pagamentos.

Uma dessas empresas é a Onze, que foi fundada em 2020 e recebeu um aporte de R$ 53 milhões da Ribbit Capital, investidora do Nubank, da Brex e do Guiabolso. “Nosso propósito é geração de poupança, no sentido amplo da palavra, ou seja, ajudar as pessoas a economizar e guardar mais, de maneira eficiente e automática”, diz Antonio Rocha, cofundador e CEO da Onze. “Desse objetivo veio a ideia de usar a previdência, que é um instrumento que permite que você poupe de forma recorrente.”

Outra motivação para a abertura da empresa foi a falta de opções para os consumidores. “Vimos um mercado muito mal servido. É um mercado muito grande, só a previdência aberta no Brasil tem R$ 1 trilhão em ativos sob gestão, mas 90% estão nas mãos dos cinco grandes bancos. É um dos últimos produtos financeiros que ainda mantêm essa concentração.”

Atualmente, a previtech trabalha com previdência corporativa e já atende mais de 30 empresas, como OLX e Mobly, e soma mais de 11 mil pessoas com acesso ao serviço. A contribuição é retirada diretamente do salário do funcionário e o RH pode, se quiser, oferecer uma contrapartida. A escolha desses valores é flexível, sem restrições e sem custos para o empregador. O investimento do colaborador é dele e pode ser retirado mesmo em caso de demissão, enquanto a parte da empresa pode seguir regras próprias.

Para o ano que vem, a meta é chegar a 100 empresas atendidas e totalizar um valor de R$ 1 bilhão de ativos em gestão, além de lançar uma solução individual para pessoas físicas. A Onze começou com 35 funcionários, hoje já tem 70 e pretende continuar crescendo. “Eu realmente acredito na nossa missão. Queremos fazer a nossa empresa crescer e estimular mais empresas a contribuir com os seus colaboradores.”

As previtechs estão inseridas no grupo das fintechs (startups financeiras), que representam 9% das 13.700 startups brasileiras. Hoje, não há uma segmentação das fintechs por atuação, mas, segundo a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), além da pioneira Onze, há no mercado mais uma startup com foco em previdência: a Saks, que desenvolveu um app que mostra opções de planos previdenciários de acordo com o perfil do investidor. Os planos são individuais e podem ser feitos com um investimento mínimo de R$ 200.

Mercado aberto para a inovação

O estudo FDC Longevidade Previdência, desenvolvido pela Fundação Dom Cabral com apoio do Insights50+ e da Brasilprev e divulgado com exclusividade pelo Estadão, realizou um mapeamento do mercado previdenciário. O resultado apresentou dois grandes desafios: o impacto da pandemia na renda das famílias e a geração sanduíche, que são pessoas de 50 a 70 anos que precisam prestar apoio aos pais idosos e aos filhos. Em um mercado com grande potencial, a inovação das previtechs pode ajudar a superar os problemas e melhorar a experiência dos consumidores.

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“As previtechs entram em um contexto de oportunidades de novos produtos, para você não só aprender a se planejar, que é uma necessidade urgente, mas também aprender a manter a sua renda e a fazer esse novo plano de vida, que agora fica mais extenso”, explica Layla Vallias, coordenadora do estudo.

Segundo ela, com as pessoas vivendo mais tempo, é necessário esse planejamento de ter uma renda extra. “Se eu vou viver 100 anos, eu vou precisar trabalhar, provavelmente, até 80, mas como eu faço isso em um País que começa a ter um preconceito etário a partir dos 45? Isso tudo acaba culminando em um desafio muito grande que, até então, ninguém tem a resposta. Temos que entender como fazer para cuidar dessas pessoas com mais de 60 anos e todas as outras que vão chegar lá.”

Enquanto não se tem uma resposta para fechar as contas da previdência social, em um cenário com mais idosos aposentados e menos jovens trabalhando, as previtechs têm a missão de fazer com que as pessoas comecem a poupar dinheiro pensando no futuro. Outra empresa que investe nesse mercado é a Ciclic, que é uma startup com foco em seguros - ou uma insurtech.

A companhia nasceu em 2018, com oferta de produtos de previdência privada individual e empresarial, e tem como diferencial ser 100% online. “O cliente consegue fazer a contratação em qualquer lugar, seja de um smartphone ou um desktop, e a qualquer momento. Os planos são a partir de R$ 1 por mês e a recorrência é aplicada no cartão de crédito”, explica Bruna Melo, head de finanças da Ciclic.

“Nós percebemos que o cliente que se interessa por poupar dinheiro precisa de uma proteção um pouco mais completa para os ciclos da vida.” Em 2019, a empresa decidiu diversificar ainda mais a sua cartela de produtos e hoje, além dos planos de previdência, oferece seguros para viagem, celular, imóveis e aparelhos portáteis, além de benefícios de saúde para pessoas e pets.

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