Willy Biondani
Willy Biondani

Prêmios celebram excelência de produtos e viram vitrine para pequenas empresas

Negócios de alimentos, como azeite, chocolate, cerveja e queijo, usam premiações nacionais e internacionais para referendar qualidade e atrair consumidor; logística para o exterior é desafio

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2022 | 05h01

O azeite de oliva Sabiá foi eleito, no fim de abril, em um dos mais conceituados prêmios internacionais de azeite como um dos 10 melhores do mundo. Em dois dias, a empresa recebeu mais de mil pedidos de compra. “O impacto nas vendas foi muito grande, estamos reabastecendo as gôndolas semanalmente. Em 2 dias as vendas explodiram, e quase 80% das pessoas que fizeram a primeira compra estão comprando pela segunda vez”, diz Bia Pereira, sócia da marca ao lado do marido, Bob Vieira da Costa.

O negócio de azeites, lançado comercialmente em 2020, já acumula mais de 40 prêmios internacionais nesse escasso tempo de vida, rendendo uma grande vitrine para os empreendedores. Assim como o azeite Sabiá, outros pequenos negócios de alimentação de alta qualidade chamam a atenção pelos prêmios. É o caso do chocolate Mission, que começou a participar de concurso em 2017 e reúne 50 premiações, e o da cerveja Dádiva, que desde 2016 acumula 33 galardões.

A lista de seus pares premiados também é extensa, incluindo azeites como Lagar H (com mais de 30 títulos em dois anos de mercado), chocolates como Luisa Abram (20 títulos), cervejas como Wäls, além de queijarias (BelaFazenda, Pardinho, Capril do Bosque) e outros. Em comum, a visão de negócio parece a mesma: usar os prêmios como uma chancela da alta qualidade dos produtos e usar essa certificação de júris especializados para se diferenciar no mercado consumidor.

Para Arcelia Gallardo, fundadora da Mission Chocolates em 2013, esse foi o objetivo ao começar a participar dos principais prêmios globais no segmento de chocolates, como o International Chocolate Awards Americas (em Nova York) e o Academy of Chocolate (em Londres). 

“Para o consumidor, é muita marca no mercado, muita confusão. Como saber qual é a boa barra de chocolate? Mesmos nós chocolateiros seguimos os premiados porque eles já foram avaliados, outras pessoas já provaram. Como consumidor, gostamos de uma indicação. Então, quando você disputa espaço numa loja, vale quando você é premiado.”

Luiza Tolosa, da cervejaria Dádiva, criada em 2014, também mira a participação em prêmios em favor da visibilidade da marca. “Quando você é muito pequeno, uma validação externa, ao dizer que seu produto é bom, ajuda a dar reconhecimento a ele. Quando entramos no mercado, havia cerca de 200 cervejarias registradas no Mapa (Ministério da Agricultura) e hoje são mais de 1.000”, diz ela, evidenciado a profusão de marcas concorrentes.

Para Luiza, que costuma participar de concursos como o World Beer Awards (em Londres) e o Festival Brasileiro da Cerveja (Blumenau-SC), há uma forma de rentabilizar o concurso de forma mais imediata, na sequência da premiação, que leva clientes ao produto pelo barulho da divulgação. Mas, a longo prazo, é preciso viabilizar outras estratégias, diz.

“Se você consegue levar o prêmio para a lata, para o rótulo, você ajuda o consumidor a tomar uma decisão na frente da prateleira”, diz a mestre-cervejeira.

Qualidade muito além da indústria

E por que pequenas empresas são capazes de alcançar reconhecimentos por alta qualidade e empresas maiores não? Segundo Bob, que cultiva azeitonas na Serra da Mantiqueira e no Sul do País, o controle rígido de produção, acompanhado pelo olho (e as mãos do dono), do cultivo à embalagem, fortalece pequenos negócios artesanais.

No caso do Sabiá, isso inclui colheita a mão, cadeia refrigerada, além de encurtamento do tempo entre colheita e extração para evitar a oxidação das azeitonas. Até a garrafa de vidro foi trocada após eles perceberem que a embalagem anterior ajuda a “esquentar” e oxidar o azeite. Se a antiga garrafa chilena custava R$ 1,80, agora a nova embalagem italiana sai a R$ 12, encarecendo o produto final, mas fazendo valer o líquido premiado e raro que vai ali dentro - a atual safra rendeu 40 mil garrafas de azeite (sendo 10 mil do blend premiado).

No ramo dos chocolates, Arcelia aponta que, além de a indústria usar um produto inferior (cacau commodity), as diferenças constantes entre as safras, ano a ano, levam à padronização que a indústria faz. “Ela coloca bastante aromatizante, com torra alta para matar os sabores ruins (do cacau inferior), mas daí mata tudo, e você precisa entupir o produto de açúcar.”

Além do terroir e da produção bem controlada, contam também as receitas originais para essas marcas ganharem concursos lá fora. No caso da Mission, barras com frutas brasileiras fazem sucesso lá fora: cupuaçu, castanha-de-baru, goiabada.

Logística para participar de prêmios

Para quem quer participar de concursos, os empreendedores indicam que, além de ter um produto de alto nível, é preciso cuidar atentamente da logística, já que se tratam de alimentos. Ainda que todos enviem por avião (e não na cadeia refrigerada possível em navios), as embalagens sempre levam gelo dentro. Segundo Arcelia, se o chocolate chegar derretido no destino, a marca é desclassificada.

Luiza sugere escolher os concursos de acordo com a notoriedade que eles podem agregar à marca aqui no Brasil e também de acordo com os mercados para onde ela quer exportar sua cerveja, como na Europa ou nos Estados Unidos. Afinal, o flerte internacional e a exportação podem ser reflexos diretos de um prêmio. 

Foi o caso do azeite Sabiá, que foi procurado por um restaurante inglês e uma rede de varejo francesa. Segundo Bob Costa, neste ano ele não conseguirá enviar o produto para a rede francesa, mas já fechou negócio para o próximo ano. O empreendedor também aponta que, além da notoriedade da premiação, o custo da inscrição é levado em conta, pois podem chegar a US$ 400. “E tem concurso que sai distribuindo medalha a qualquer um que se inscreve. Então, se você não tem um pouco de critério, sai caro.”

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