Dono de uma marca de camisetas em São Paulo, Henrique West relatou dificuldades para exportar
Dono de uma marca de camisetas em São Paulo, Henrique West relatou dificuldades para exportar

Preço do frete limita expansão das lojas virtuais

Remessa de uma garrafa de vinho, por exemplo, pode custar três vezes mais para o pequeno empreendedor que faz poucas entregas; cenário cria gargalo logístico e aumenta distância para as grandes empresas do setor

Renato Jakitas, Estadão PME,

24 de fevereiro de 2016 | 07h41

Se a internet colocou o varejo dentro de um filme 3D de ficção científica, a entrega do produto ainda é para o pequeno lojista um retorno aos clássicos em preto e branco de faroeste. Sem volume para negociar o frete com as transportadoras privadas, hoje absorvidas pelos grandes vendedores, a realidade do empresário não é muito diferente da experimentada pelo usuário comum, que para enviar uma encomenda contrata um motoboy ou segue até a agência dos Correios. 

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O resultado disso é a eclosão de um gargalo logístico que, segundo análise de especialistas e a percepção dos próprios empreendedores, impõe limites ao crescimento do comércio online e cria lacunas de competitividade ao setor, distanciando cada vez mais as pequenas das grandes lojas.

“Eu poderia ser muito maior, mas não consigo”, resume Henrique West, dono da marca de camisetas Siamese, de Jundiaí (SP). Na cidade, ele mantém com esforço seu microcosmos profissional: confecção responsável por alimentar uma loja física e o e-commerce da marca, este último responsável por 80% das vendas (em 2015, ele faturou R$ 700 mil). 

“Eu compro pra mim, às vezes, uns produtos em sites na China e lá me dão frete grátis. Mas quando vendo de Jundiaí para o Rio Grande do Sul, sou obrigado a cobrar R$ 20 pela postagem”, conta. A insatisfação do empresário de Jundiaí chegou perto da revolta na semana passada, quando ele decidiu montar uma operação piloto para começar a exportar. Há algum tempo ele vinha monitorando o interesse de consumidores na Europa, Estados Unidos e México por sua marca. Para conhecer o tempo médio de entregas, o preço do frete e ‘azeitar’ a operação, ligou para um amigo em Londres e disse que enviaria a ele um pacote de camisetas. 

Deu tudo errado. “Eu cheguei no posto dos Correios e me disseram que para enviar uma encomenda de 200 gramas, que tinha um preço de nota fiscal de R$ 60, teria de pagar R$ 160. Achei inacreditável”, lembra West, que contou a história para amigos e clientes em sua página pessoal no Facebook. “Ainda me entregaram um formulário cheio de perguntas em quatro vias com papel carbono, um negócio bem moderno”, ironiza West, explicando que voltou para casa e desde então pesquisa alternativas mais viáveis para exportar. “Não encontrei nada. Isso só vai dar certo se eu montar uma empresa no exterior.”

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De lá para cá. A descoberta do dono da Siamese já é uma realidade antiga para outro empresário, Lincoln Fracari, que há sete anos, na China, se dedica a fazer o contrário do proposto por West: vender de fora para dentro do Brasil. Uma operação tão difícil quanto, diz Fracari. “O pequeno no Brasil acaba sendo desestimulado a comprar da China pelo valor absurdo de frete que a operação representa e pelas dificuldades impostas pela alfândega no Brasil”, conta.

Fracari toca uma exportadora especializada em atender e-commerces brasileiros na cidade de Shenzhen, próxima da ilha de Hong Kong. Para ele, o processo é caro, lento e burocrático. “Os varejistas que não conseguem importar de modo oficial, por não terem volume de pedido, dependem dos Correios ou de transportadoras como DHL e Fedex. É sempre caro e lento. (Os varejistas) são os grandes prejudicados”, afirma.

Local. A explicação para essa questão, que atinge tanto as operações internacionais quanto também as domésticas (inclusive dentro de uma mesma cidade) remonta ao cenário de competitividade nesse setor. Existem cerca de 35 mil transportadoras apenas no Estado de São Paulo, segundo estimativas do sindicato da categoria. No entanto, na prática, o dono de pequenas lojas virtuais conta mesmo com um único fornecedor, os Correios.

“Isso acontece porque os Correios são os únicos que conseguem atender o empresário com volume menor do que 50 entregas por dia”, explica Guilheme Reitz, sócio da Axado, plataforma de gestão de fretes. “E, infelizmente, trabalhar apenas com os Correios, uma empresa pública, tem seus problemas, como greves e um preço que pode ser pouco competitivo com relação ao que as grandes lojas conseguem nas principais transportadoras.”

Dessa forma, o valor do frete de uma garrafa de vinho enviada por um grande e-commerce, como o Evino, que em 2015 alcançou 22 mil pedidos por mês, pode ser três vezes mais barato que o de um empório de pequeno porte que faz suas postagens na agência dos Correios. “No balcão pode chegar a R$ 22. Uma empresa com volume de entregas, com bom contrato em uma transportadora, paga por volta de R$ 7”, conta Marcelo Farias, da Mandaê, startup criada justamente para abocanhar parte desse ‘spread’ do frete. “A gente recolhe as entregas na casa ou na empresa das pessoas, embala e envia ao preço de balcão dos Correios. Nossa margem é a diferença entre nosso contrato com os Correios e o preço da agência”, explica.

Na prática, essa diferença impacta em negócios como o de Cesar Tejon, dono de uma plataforma de terceirização logística chamada Squid Fácil. Ao desenvolver um sistema que coloca clientes e donos de lojas virtuais dentro do estoque dos fornecedores, Tejon viu como diferencial cuidar das entregas. O empreendedor, no entanto, enfrenta problemas com a logística reversa. “Conseguimos preços competitivos nos Correios e em algumas transportadoras. Mas as roupas, que colocariam a gente em outro patamar pela procura, não são viáveis ainda.”

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