Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Portugueses desembarcam no Brasil de olho nas oportunidades da construção civil

Com mercado interno reduzido, pequenos empresários lusos apostam na proximidade cultural e no desenvolvimento de nichos para faturar

Renato Jakitas, Estadão PME,

11 de fevereiro de 2014 | 06h44

Atravessar o Atlântico para fazer negócios no Brasil é há séculos uma especialidade portuguesa e, apostando nessa tradição, um grupo de pequenos e médios empreendedores lusos está prestes a desembarcar em São Paulo.

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Especializados na construção civil, eles querem aproveitar as oportunidades deste lado do oceano para contrabalançar o marasmo do mercado de imóveis europeu, sobretudo na região da Península Ibérica, praticamente estacionado desde o início da crise econômica internacional.

São 25 empresas, 90% delas de pequeno porte, que virão expor durante a Feicon Batimat, feira do setor que acontece entre 18 e 22 de março na capital paulista. Acreditando no potencial tecnológico de seus produtos frente às opções nacionais, a  maioria faz sua primeira incursão no País. Mais do que encontrar clientes e fechar pedidos, o interesse dos representantes da comitiva portuguesa é prospectar importadores, investidores e, quem sabe, fechar alguns contratos de parcerias.

"Nossa grande procura ao expor nessa feira é encontrar um bom parceiro de distribuição ou investidor. As empresas sabem que isso é fundamental para começar a trabalhar no mercado brasileiro", afirma Bruno Moreira, responsável por trazer as empresas para o Brasil.

"Com o abrandamento do mercado de construção em Portugal, os empresários encontraram duas grande saídas: iniciar o processo de exportação e investir em inovação. Praticamente todos esses parceiros desenvolveram alguma coisa de inovador em seus produtos, mesmo que sejam produtos já conhecidos no tecido empresarial da construção", afirma Moreira.

Imóveis. Esse apelo pela inovação é, sem dúvida, a principal motivação de Mário Nunes, dono da Tecdream, uma indústria que desenvolve moldes de isopor e ferro para incorporadoras.

As estruturas, explica Nunes, oferecem isolamento térmico e são encaixáveis como peças do brinquedo Lego. Depois de montadas, são preenchidas por concreto. No mercado, miram a fatia de imóveis que se posicionam a partir do médio padrão.

"O Brasil começa a se interessar por estruturas com isolação térmica e tem um vasto mercado para nosso produto", afirma o empresário. Segundo Nunes, sua tecnologia propicia uma economia de até 70% no tempo da obra quando comparada aos métodos tradicionais.

"A estratégia é criar uma fábrica em São Paulo", destaca Mário Nunes, que fatura cerca de 1 milhão de euros com sua fábrica em Leiria e prevê investimento de até 1,5 milhão de euros na incursão brasileira. "Com os custos do transporte, as taxas que são aplicadas e o tempo depois que demora na alfândega, sabemos que as margens ficam mínimas para trabalhar. A ideia é procurar um parceiro que queira entrar conosco no projeto."

Inovação. Com sede em Lustosa, na região do Porto, a Contraven também quer aproveitar o momento para divulgar seu sistema de preenchimento e acabamento final de pisos por aqui. A diretora-executiva da marca, Lúcia Cardoso, conta que mantém há dois anos uma parceria para a distribuição dos produtos no estado São Paulo.

Sem relevar números, a empresária diz que os negócios vão bem no Brasil. Ela relativiza os problemas aduaneiros e a taxação de itens importados pelo interesse da construção local por tecnologia de ponta.

"Um mercado como o brasileiro, que já se encontra amadurecido na área da construção, apenas produtos inovadores conseguirão efetivamente entrar no mercado", observa Lúcia. "Não considero que o mercado brasileiro seja carente de inovação e tecnologia. Mas comparando com o mercado europeu, com certeza ainda tem várias tecnologias que podem ser 'importadas'."

Vida dura. Para além da novidade oferecida, entretanto, há quem aconselhe reservas por parte dos estrangeiros que mirem o setor da construção brasileira. Na opinião de Natércia Carona, portuguesa e professora de administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), os empresário lusos terão pela frente um caminho difícil se quiserem, de fato, se firmarem como um opção viável ao mercado nacional.

Segundo a especialista, o setor já está bem suprido por uma cadeia produtiva. Resta espaço para os nichos. Mas se faz necessária uma boa estratégia para driblar os impostos aduaneiros que, segundo ela, praticamente inviabilizam a importação de insumos para consumo de massa. "Eles precisam encontrar um bom parceiro e um posicionamento bem definido, principalmente em nichos de mercado. É difícil, sou um pouco cética. Mas não é impossível", conta.

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