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Reuters
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Por que tantas mulheres abandonam o setor de tecnologia?

Êxodo feminino já preocupa especialistas que não enxergam futuro para carência de talentos sem o engajamento das profissionais no ramo

Tracey Lien, Los Angeles Times,

05 de março de 2015 | 07h11

Ana Redmond iniciou sua carreira na área de tecnologia por considerá-la um desafio estimulante e uma chance de mudar o mundo. Ela tinha todos os requisitos para o sucesso: muito competente em matemática e ciências, criava códigos com mais rapidez, com menos erros, do que qualquer outro. Em 2011, depois de 15 anos, saiu do ramo antes de chegar a uma posição de direção.

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Garann Means tornou-se programadora por motivos semelhantes. Depois de 13 anos, também saiu da profissão, alegando que o ambiente era hostil e nada receptivo para as mulheres.

Nenhuma delas pretende voltar.

“São várias coisas que vão se acumulando com os anos”, disse Means. “Eu não tinha condições de avançar. Tive de aturar muitas coisas neste ambiente e nesta cultura. A certa altura, achei que não valia mais a pena”.

É um problema enorme para a economia tech. Segundo o grupo Code.org, os empregos na área da computação aumentarão mais de 100% até 2020, para 1,4 milhão. Se as mulheres continuarem abandonando o campo, a falta de profissionais, que já é crucial, se tornará muito pior. No verão passado, Google, Facebook, Apple e outras grandes companhias divulgaram relatórios mostrando que os homens eram mais numerosos do que as mulheres numa proporção de 4 para 1 em seus setores tecnológicos.

É por isso que a indústria está tão ansiosa por contratar mulheres e profissionais pertencentes a minorias. Por dezenas de anos, as companhias dependeram de uma força de trabalho formada por brancos e asiáticos, em geral homens.

Atualmente, muitos programas encorajam mulheres e integrantes de minorias a entrarem na área de tecnologia ainda jovens. Mas apesar de toda a publicidade dada a estas iniciativas, uma verdade é pouco discutida: Há um grande número de mulheres qualificadas deixando o ramo.

As que continuam no setor, afirmam que a contratação de talentos não será muito útil se as mulheres continuarem deixando seus postos - seria como querer encher um balde furado.

“É muito frustrante”, disse Laura Sherbin, diretora de pesquisa do Centro de Inovação de Talentos. “O campo não terá uma melhora significativa se as mulheres chegarem à conclusão de que se trata de um investimento que não vale a pena”.

Um estudo da Harvard Business Review de 2008 concluiu que 50% das mulheres que trabalham na área de ciências, engenharia e tecnologia, com o passar do tempo, acabarão deixando o emprego por causa de um ambiente hostil.

Os motivos são variados. Um deles, segundo o estudo de Harvard, é uma cultura masculina “hostil”, uma sensação de isolamento e a falta de um caminho claro a seguir na carreira. Um estudo atualizado em 2014 mostrou que as razões não mudaram de maneira significativa.

A maioria das mulheres ouvidas no estudo de Harvard disse que as atitudes que as desestimulam são sutis, e portanto mais difíceis de questionar.

Ana Redmond, que hoje tem 40 anos, não queria abandonar a carreira. Mas sentiu que estava muito estacionada, sem possibilidade de avançar. Ela disse que tinha a sensação de que os colegas de trabalho estavam contra ela. “Era como se ele tentassem me excluir em cada estágio”, afirmou.

Ela construiu um protótipo para um site de viagens, um recurso que sugeria cidades e aeroportos baseado nas três primeiras letras digitadas na busca, Seus chefes, homens, alegaram que ela criara o protótipo sem permissão. Depois afirmaram que somente os arquitetos da companhia podiam criar recursos - e todos os arquitetos eram homens. No final, o projeto foi entregue a outra pessoa, e ela foi destacada para tarefas menos interessantes.

”Eles continuavam dizendo que eu deveria provar minha competência”, contou.

Se se tratasse de um incidente isolado, ela não teria dado grande importância ao caso. Mas foi percebendo que a coisa se repetia. Muitas vezes, ela era passada para trás sem uma razão aparente, e que direção tirava dela os seus projetos ou então eles eram menosprezados.

Tracy Chou, 27, conhecida engenheira da Pinterest, disse que foi passada para trás numa startup anterior porque seu chefe achou que um engenheiro recentemente contratado era mais qualificado. Quando ela insistiu numa explicação, ele respondeu: “Tenho a impressão de que este profissional poderá fazer isto mais rapidamente do que você”.

“O fato de todas estas pessoas me tratarem como se eu não soubesse o que estava acontecendo, ou me excluindo das conversações e não confiando nas coisas que eu dizia, todas estas coisas foram se somando e percebi que havia uma tendência ao sexismo”, afirmou.

É difícil tratar deste problema, segundo Alaina Percival, do grupo Women Who Code, que visa atrair mais mulheres da área de tecnologia. “Certas coisas são tão mínimas que a gente sequer tentaria se queixar a respeito”, disse Alaina. “Mas elas continuam acontecendo dia após dia. São coisas que nos separam e excluem da equipe e que nos levam a indagar: Será que esta é carreira melhor para mim?”

E isto não acontece apenas com as funcionárias. Empresárias deste setor também enfrentam atritos semelhantes.

Wayne Sutton, parceira da BuildUp, uma startup que pesquisa companhias fundadas por mulheres ou minorias, diz que às vezes constata que as mulheres sendo tratadas de maneira injusta. Recentemente, ele estava presente quando uma mulher se apresentou a um investidor e recebeu como resposta que ela deveria procurar um emprego como funcionária, ma não começar um empreendimento por conta própria, “porque aqui você não vai conseguir “.

“Situações como estas podem realmente abalar a confiança de qualquer empreendedor”, disse Sutton. “Algumas pessoas dirão que quando você se torna uma empreendedora de primeira categoria, isto não a abalará. Mas é realmente um comportamento desnecessário”.

Até o momento, nenhuma companhia achou uma solução para impedir o êxodo destas mulheres.

O Google, onde a força de trabalho feminina é de apenas 17%, lançou um programa de treinamento em 2013 para combater a discriminação cultural. Os funcionários se dedicam ao jogo da associação de palavras, se surpreendem com a rapidez com que ligam engenharia e as profissões da área de codificação aos homens, e os empregos menos tecnológicos às mulheres.

A equipe técnica do Pinterest é 21% feminina. Ela criou uma comissão de promoção na área de engenharia para garantir que ninguém seja deixado de lado. Gênero, raça, etnia etc. não têm uma prioridade especial, e a comissão está encarregada de garantir que estas questões não impeçam o avanço numa carreira. A companhia tem também um funcionário na área de recrutamento encarregado de promover a diversidade.

O Facebook, com uma equipe técnica 15% feminina, costuma reunir suas funcionárias do mundo todo para um dia de liderança com conversações, oficinas e suporte. As mulheres também se organizam em grupos para compartilhar conhecimentos e experiências. A companhia oferece ainda benefícios especiais, como quatro meses de licença maternidade e paternidade remunerados, e aulas de reciclagem para as funcionárias que retornam ao trabalho.

A equipe de engenharia da Apple é 20% feminina. A companhia não respondeu à solicitação de comentários.

Laboratório de sensibilidade, programas de mentores, instrução em táticas de negociação e otras medidas voltadas para o aperfeiçoamento não influirão nos números, disse Joan C. Williams, professora de Direito no Hastings College of the Law da Universidade da Califórnia, e coautora de What Works for Women: Four Patterns Working Women Need to Know.

Segundo ela, as companhias precisam pesquisar os casos de discriminação que impedem que as mulheres avancem na carreira, e depois encontrar os “interruptores”. Em vez de sessões de treinamento individuais, as companhias precisam empreender mudanças sistêmicas, acrescentou.

Por exemplo: os dados do Google mostraram que as mulheres eram promovidas com menos frequência do que os homens porque os funcionários precisam se indicar. As mulheres que fizeram isto foram deixadas de lado. Baseada em sues estudos, Joan concluiu que as mulheres são recompensadas pela modéstia e penalizadas por aquilo que os homens veem nelas como um comportamento “agressivo”. O Google começou a incluir líderes femininas em workshops de treinamento geral - de homens e mulheres - sobre maneiras de se promoverem efetivamente. A diferença de gênero entre os indicados desapareceu, disse Joan.

Embora as mulheres que se destacam particularmente, como Marissa Mayer da Yahoo, Meg Whitman da Hewlett-Packard e Ginni Rometty da IBM marquem vitórias extremamente frágeis para as mulheres, muitas empresas de tecnologia são dirigidas por homens.

E o fato de ter como CEO uma mulher não resolve em si o problema. Os homens são cruciais para criar um ambiente em que as mulheres prosperam, disse Scarlett Sieber, 27, vice-presidente de operações da empresa de tecnologia Infomous.

“São os homens que precisam defender e pressionar para que as mulheres possam ascender, e não esperar que apenas aquele 1% das mulheres que já estão no topo o façam”, disse Sieber.

Na sua opinião, todo o setor precisa fazer o que faz melhor: provocar a transformação.

Até então, mulheres como Redmond e Means continuarão saindo. Redmond agora tem sua própria empresa de aplicativos educativos para crianças, enquanto Means, 36, se mudou para Roma para trabalhar num romance e pensar no que fará depois.

Quando perguntaram a ela o que seria preciso para que ela voltasse para o setor de tecnologia, Means riu e disse: “Tudo”. E depois: “O principal seria profissionalismo. Se todos se tratassem com respeito, seria o máximo”. Tradução de Anna Capovilla 

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