Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Plantação de lúpulo dá novo gás a mercado de cerveja artesanal

Produção brasileira foi de 9 toneladas em 2020 para 24 toneladas no ano passado, menos de 1% do que é consumido; para produtores, tecnologia e regulamentação são desafios do setor

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 05h00

O Brasil tem se mostrado um terreno fértil para a produção de lúpulo, mesmo em condições climáticas distintas das de locais de origem da planta, como Estados Unidos e Alemanha, onde essa cultura é amplamente difundida. Se em 2018 havia 60 empreendedores do nicho no País, hoje são cerca de 190 cadastrados pela Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), alta que surfa na onda das cervejarias artesanais.

“Existia uma máxima de que era impossível plantar lúpulo em lugares que não fossem frios. Estamos provando o contrário. Já há plantações em 11 Estados do Brasil, como Rio Grande do Norte, Goiás e São Paulo. O lúpulo do cerrado, por exemplo, é maravilhoso”, afirma Flávio Melo Novaes, cofundador da Aprolúpulo e um dos sócios da startup Lúpulo Alto Tietê, em Mogi das Cruzes (SP).

O lúpulo, da espécie Humulus lupulus, é o elemento que dá aroma e amargor à cerveja. Além de contribuir para a formação de espuma, é responsável pela conservação da bebida. Na produção, podem ser cultivadas apenas variedades não patenteadas. As safras costumam ocorrer duas vezes ao ano. 

“É uma planta que precisa de cerca de 16 horas de fotoperíodo (luminosidade). Para suprir essa demanda, é comum utilizar uma iluminação de led nos campos, que tem custo baixo, menos de R$ 100 por mês para cerca de 1.000 lâmpadas”, diz Novaes.

A Alto Tietê iniciou suas atividades em 2016 com apenas oito plantas importadas dos Estados Unidos. Agora, já são 1.200, em uma área de 8 mil metros quadrados, com capacidade de expansão para 30 mil metros quadrados e 7 mil plantas. A startup ainda conta com viveiro de mudas, registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), processo de beneficiamento e presta serviços de consultoria. 

“Queremos englobar toda a cadeia do lúpulo”, destaca o engenheiro, que já investiu R$ 450 mil e atualmente mantém o negócio apenas com o fluxo de caixa. Segundo ele, oito viveiros no País estão credenciados no Mapa e há 48 variedades cadastradas. “No Brasil, dependendo da localidade, há condições de ter lúpulo o ano inteiro. Conheço quem planta até três vezes no ano”, complementa. 

Nos últimos sete meses, a startup, que faz duas colheitas por ano, cresceu 10 vezes em termos de produção. Estima-se que a próxima safra produzirá 250 kg. As vendas são feitas pela internet e enviadas via Correios, inclusive para outros tipos de empreendimentos, que tem produtos como chás, cosméticos e fumo. Como se trata de uma flor, o mais comum é vender lúpulo em forma de pellet - depois de colhido, seco em estufa e triturado, ele é comprimido em pequenos cones.

“As pessoas que gostam de cerveja buscam novas opções e outros aromas. O mais interessante é que o lúpulo se comporta como o terroir dos vinhos, ou seja, há diferença entre uma mesma variedade de planta cultivada em locais distintos. É uma característica fantástica que abre o leque de opções de cervejas no mercado”, salienta o produtor, segundo quem entre os desafios do setor estão a liberação e o credenciamento de defensivos agrícolas no Mapa para facilitar o manejo. 

Lúpulo nacional cresce com microcervejarias

O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, com 13,3 bilhões de litros, atrás somente da China (46 bilhões) e dos Estados Unidos (22,1 bilhões), de acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindcerv). 

O País chegou a um total de 1.383 cervejarias registradas no Mapa em 2020, um aumento de 14,4% em relação ao ano anterior. Ainda segundo o Anuário da Cerveja, houve um crescimento de microcervejarias nos últimos anos, o que ampliou o interesse pelo lúpulo de qualidade, somado à alta das moedas estrangeiras. 

Foi o que observou Leandro Dalcin, fundador, ao lado do irmão, Adriano Dalcin, da Lúpulos Dalcin, localizada em Taguaí (SP). Eles iniciaram a produção em 2018 e hoje cultivam 1.400 plantas de oito variedades, em um campo de 6.000 metros quadrados. As espécies mais vendidas são a Comet e a Cascade, com custo que varia de R$ 230 a R$ 250, o quilo. 

“Consegui colher muito já na primeira safra, mas para teste. É uma planta muito rápida, com ciclo de quatro a cinco meses. Mas foi difícil porque na época não conhecia muito bem sobre a colheita e o beneficiamento. Já em 2020, comecei a vender”, conta o produtor, que investiu R$ 100 mil no negócio, em propriedade familiar. “Estamos em fase de investimento, com compra de maquinário. Está valendo a pena.”

A Dalcin comercializa seu lúpulo para mais de 10 cervejarias, como Cuesta e Goose Island, e mantém contrato fixo com a Dogma e a BR Brew. Porém, Leandro destaca a dificuldade para fechar contratos com grandes empresas. “Produzimos cerca de 300 kg por safra. Não é o suficiente para atender as grandes.”

Importação ainda é predominante

A maior parte da matéria-prima utilizada pelas cervejarias hoje ainda é importada, cerca de 4.721 toneladas, o equivalente a US$ 82 milhões somente em 2021, de acordo com a plataforma Comex Stat, do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Enquanto a produtividade de uma planta brasileira adulta gira em torno de 300g a 400g de lúpulo seco, no exterior, chega a 800g. A produção brasileira em 2020 foi de cerca de 9 toneladas e, em 2021, subiu para 24 toneladas, segundo a Aprolúpulo, menos de 1% do mercado.

Ainda assim, o setor está em crescimento no País. A área plantada aumentou de 18 hectares para 40 hectares entre 2020 e 2021, um crescimento de mais de 100%, segundo a associação. Além disso, resultados de pesquisas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP já atestam que o lúpulo nacional é tão bom quanto o importado. 

“O caminho agora é para as cervejarias artesanais. São lotes pequenos de cerca de 1.000 a 2.000 latas, que tem uma saída rápida”, explica Leandro Dalcin, que viu seu faturamento aumentar 50% entre 2020 e 2021. A expectativa é dobrar a produção até o próximo ano. A capacidade só não é superior, segundo o produtor, por falta de mão de obra especializada e maquinário específico para a produção. 

“Não temos tecnologia para colher lúpulo, porque é um mercado que está começando no País. Hoje a produção ainda é muito manual e dá trabalho, o que encarece o produto. Em uma linha de 100 plantas, com maquinário especializado, colhe-se 170 por hora. Com três ajudantes e a minha máquina atual, levo quatro dias para fazer o mesmo. Enquanto não houver máquina para facilitar o processo, o setor vai demorar a crescer”, acredita. 

A Dávida foi uma das cervejarias que já produziram bebidas com lúpulo nacional. Em parceria com a Brava Terra, de São Paulo, lançou o rótulo Smash, em 2020. Foram produzidos 2 mil litros, que acabaram nas primeiras semanas. "Todos adoraram, mas não sei se usaria o ano todo, porque o lúpulo é muito perecível e ainda falta tecnologia para que possamos estocá-lo. A qualidade do produto brasileiro já está em nível internacional, mas, se não for bem processado, estraga rápido", diz Victor Marinho, sócio e mestre-cervejeiro da Dádiva.

Matheus Aredes, cervejeiro, consultor e professor, compartilha de opinião semelhante. Para ele, o crescimento do setor no Brasil requer uma grande empresa para atuar no beneficiamento do lúpulo e fazer a ponte junto aos agricultores, fomentando o mercado a ponto de o País realmente virar exportador. “Além de pesquisas para o desenvolvimento de novas variedades que melhor se adequem às nossas condições climáticas”, acrescenta. 

Fazenda cervejeira urbana em Belo Horizonte

Atento a oportunidades e desafios do mercado, o empresário José Felipe Carneiro, cofundador da Wäls (que hoje pertence à Ambev) e das marcas de kombucha Khäppy e Lowka, investiu cerca de R$ 1 milhão na plantação e na importação de máquinas agrícolas para iniciar suas produções de lúpulo neste ano, em Belo Horizonte e em Carmo da Cachoeira (MG).

A ideia de José Felipe é criar um lupulal urbano, com venda de cervejas no local e sob a ótica do agroturismo. “Quero fazer algo semelhante às vinícolas sul-africanas e trazer as pessoas da capital para essa neorruralidade. Alugamos uma área de desaterro, onde não nascia nem capim, e refizemos o terreno para criar uma fazenda cervejeira, projeto da Brazilian Hop King, da Brazuca Lúpulos e da Van de Bergen Lúpulos”, conta.

No terreno de 5 mil metros quadrados na capital mineira foram plantadas 300 mudas, de quatro variedades. Já a fazenda no sul de Minas tem uma área de 1 hectare, com capacidade para 4 mil plantas e, a princípio, nove espécies. A meta é expandir a produção para 7,5 hectares em quatro anos. 

“Quando se tem um produto que tem um consumo no Brasil de 4.700 toneladas e que nem 1% é produzido no País, enquanto empreendedor vejo um potencial enorme de produtividade e lucratividade”, salienta o executivo. A primeira safra deve ser colhida em julho e será destinada às marcas de cerveja da família, Stadt Jever e Novo Brazil (produzida na Califórnia, nos Estados Unidos), ao mercado nacional e, futuramente, à exportação. 

Na visão do José Felipe, que conquistou o prêmio de ‘Melhor Cerveja do Mundo’ com a Wäls Dubbel, em 2014. a produção de lúpulo nacional vem enaltecer novamente a beleza da produção artesanal. “Vai deixar mais fácil a acessibilidade à variedades de aromas e sabores que talvez seriam muito caros quando importados. Não significa que será mais barato. Futuramente, o terroir é que vai fazer toda a diferença. É por meio dele que vamos descobrir as particularidades do lúpulo brasileiro”, finaliza. 

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