Ana Lee Sales
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Pequeno produtor de cacau tem capacidade, mas falta estímulo financeiro

Criador do Festival Internacional do Chocolate e Cacau, Marco Lessa fala sobre o potencial de pequenos produtores de cacau do sul da Bahia e da necessidade de linhas de crédito mais baratas

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 16h39

ILHÉUS - Quem visita as fazendas de cacau no sul da Bahia, percorrendo estradas que passam por Ilhéus, Itabuna e Uruçuca, percebe a variedade do porte de produção e de técnicas empregadas no processo que transforma a amêndoa em chocolate e outros derivados do fruto. Há propriedades que ultrapassam os 2 mil hectares e outras que ficam em torno de 100. Alguns produtores vão até a etapa da venda, enquanto outros, por necessidade, apostam na própria marca de chocolate para diversificar o negócio e aumentar a renda.

Nessa cadeia produtiva, o mercado de chocolates que preza pela qualidade superior e acompanha o procedimento que vai da plantação à barra (chamado de tree to bar ou bean to bar) ganha força. Mais do que isso, são os pequenos e médios produtores que têm o importante papel de ampliar a diversidade de produtos que chegam ao consumidor. 

Essa é a avaliação do empresário Marco Lessa, idealizador do Chocolat Festival, maior evento de chocolate de origem do Brasil que neste ano está na 12ª edição e ocorre até este domingo, 19, em Ilhéus, na Bahia. Para ele, o pequeno produtor agrega mais personalidade, originalidade e exclusividade ao produto, e por consequência mais valor.

No entanto, há algumas lacunas a serem preenchidas, como a popularização do cacau fino e um maior investimento para aprimorar o segmento. “Falta esse empenho de alguns atores institucionais no sentido de viabilizar condições financeiras para mais investimento em ciência, tecnologia, plantio e produção”, ele diz. Nesse sentido, Lessa acredita que o festival vem como um incentivador, que ajuda na conscientização do consumidor para que o produtor tenha mais visibilidade, receba incentivos e possa escalar o negócio.

Em conversa com a reportagem, o empresário falou desse cenário do movimento bean to bar sob a ótica do pequeno produtor, bem como o projeto de levar o cacau brasileiro para a Europa por meio de um hub para comercializar as amêndoas por lá.

Qual o papel do pequeno produtor e das pequenas marcas de chocolate na construção do bean to bar?

O pequeno tem mais capacidade, criatividade e velocidade para fazer o diferente e, por consequente, a diferença. Quando a gente fala de cacau, já se criou relação direta com chocolate, mas o que está acontecendo é muita inovação e investimento nos derivados do cacau. Você começa com o produto em si, a própria amêndoa, que pode preparar caramelizada ou salgada, a casca que vira chá, o cacau vira chocolate, cachaça, manteiga, cosmético, traz o nibs torrado para refeição salgada, para a alta gastronomia. E essa mistura com outros ingredientes o pequeno pode fazer muito bem.

Quando você soma tudo isso a algumas características de quem produz, seja a fazenda de turismo rural ou não, seu terroir que pode ter apelo ambiental ou não, você pode estar à beira-mar ou ser ribeirinho do Pará. Tudo isso são coisas que o grande só pode fazer em forma de commodity, com volume. Se fala em cacau do Amazonas, da beira do rio Xingu, feito pelos índios yanomami, você tem toda uma narrativa que o consumidor ama, senão todo mundo comeria a mesma coisa da mesma forma. E o mercado tende a, cada vez mais, buscar essa originalidade da produção até o produto final, seja ele agrícola ou industrializado.

Então, considerando isso, acho que (o pequeno produtor) pode fazer diferente e fará a diferença, e isso vai dando muita personalidade, originalidade, exclusividade e agrega muito mais valor ao produto. Sem falar que, na cadeia produtiva, dos 90 mil produtores de cacau, 99% são pequenos produtores, inclusive os que ganharam o prêmio.

Um dos vencedores do prêmio tem uma produção muito pequena. Vocês fazem um trabalho de estar em contato com esses produtores?

O sentido maior desde a criação do Festival do Chocolate foi exatamente impactar essa massa produtora do cacau ao chocolate, trabalhando muito fortemente o consumo, porque ele é importantíssimo para fazer a diferença. Mas, considerando essa questão de como o produtor de cacau que se esmera em fazer uma amêndoa incrível, com muito amor e dedicação, é beneficiado com isso, não é um evento de produção. É múltiplo e transversal, porque a gente tem de educar o consumidor, estimular o empreendedor para impactar no produtor, então a cadeia tem de ser completa. Se não for dessa forma, ele vai continuar se esforçando, tentando fazer algo diferenciado e vai acabar esbarrando numa situação de não haver compensação e perder todo estímulo de fazer algo melhor.

Nesses mais de dez anos de festival, tem algo que você acha que poderia ter sido diferente para a valorização do cacau? E o que acha que ainda se deve fazer?

Desde a criação do festival, quando não existiam marcas de chocolates bean to bar de origem do Brasil, ele contribuiu de maneira substancial para que se criasse esse movimento todo. A gente percebe duas coisas: existe o mercado empreendedor de chocolatiers querendo trabalhar qualidade e tem o produtor disposto a produzir qualidade do cacau. O que eu acho que falta é estímulo financeiro, linhas de crédito mais baratas em que os governos poderiam ser garantidores e muito mais investimento em ciência, tecnologia e inovação. As principais plantas industriais do Brasil, as grandes são importadas; das pequenas e médias, são poucas que oferecem tecnologia, e as pequenas melangers que fazem a massa pesada são todas importadas.

Agora que começam a surgir algumas empresas, mas é preciso que isso seja difundido por uma razão simples: apesar de a gente trabalhar muito isso, não se trata apenas de beneficiar uma cadeia produtiva e impactar a balança comercial ou empregar. É um produto incrível do ponto de vista do sabor e de saúde, então não tem mais razão para a gente não fazer do cacau um alimento nacional, produto que chegasse a todo mundo de forma democrática, ter escala.

Esse é um trabalho que o CIC (Centro de Inovação do Cacau) vem tentando fazer?

O CIC vem trabalhando muito focado na qualidade do cacau, mas eu me refiro, além disso, para que houvesse mais universidade, institutos de pesquisa — que vem crescendo também. É uma cultura que ficou muito arcaica por 300 anos, você não tem tecnologia aplicada na roça e isso começou a mudar, tem aparelhos que cuidam da quebra do cacau, do armazenamento, tecnologia para fermentação.

A gente construiu, historicamente, a cultura do emprego, não do empreendimento e, com isso, você é empreendedor por necessidade, mas tem de ser por oportunidade. Você tem vocação, mas não transforma isso com planejamento, apoio, apesar de órgãos como o Sebrae darem suporte. Quando o cara tem oportunidade, tem recurso e a chance de fazer, ele vai fazer. Mas imagine 90 mil produtores, 200 marcas de chocolate, centenas de chefs, chocolatiers e 220 milhões de brasileiros que amam chocolate: se a gente consegue dar condições para as pessoas comprarem o cacau local, produzir, processar, criar receitas, vira uma potência no segmento.

Como está o desenvolvimento do hub para comercializar as amêndoas e expandir o cacau brasileiro pela Europa?

A gente percebe que vem crescendo de forma significativa, até pela valorização da história do produtor, e o europeu valoriza muito a história. Tem uma série de ativos especificamente na Europa que me levam a acreditar que, se a gente criar condições mais simples, fáceis e rápidas que fazem com que o produto chegue até ele, tem mais mercado e com o câmbio tem um facilitador. Ele vai ter mais poder de compra e de importar o nosso produto.

Essa ação na Europa (que reúne alguns produtores brasileiros) é mais uma ação de exposição do que a gente tem de melhor. A gente percebe o crescimento cada vez maior, eles utilizam cacau do mundo inteiro. Se estão fazendo isso, é porque o consumo está existindo, quase como o vinho, e estando mais próximos deles a gente pode fazer com que negócios sejam gerados com escala maior e impactem na vida desses milhares de produtores brasileiros.

O prêmio internacional recebido nesta semana dá a visibilidade que se precisa para expandir o cacau na Europa?

Depois que o Brasil entrou no declínio da produção, ele eliminou uma etapa fundamental da qualidade do cacau que é a fermentação, porque precisava vender. E a queda ficou muito grande, diminuiu o porcentual de cacau no chocolate e aconteceu isso. O que a gente está vendo é a recuperação de um prestígio com esses prêmios. O consumidor estrangeiro verifica que o Brasil é capaz de produzir amêndoas de qualidade, chocolate de qualidade.

Então, os prêmios tanto do cacau como chocolate fazem toda a diferença, a gente fica mais competitivo, mais orgulhoso, melhora a autoestima e estimula que outros queiram também ganhar prêmio. É uma consequência, porque é nada mais do que trabalho. E quando você vir as grandes marcas de chocolate começarem a criar suas linhas especiais, gourmet, de origem, bean to bar, é porque a coisa está dando certo.

* A repórter viajou a convite do Chocolat Festival

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