Marcio Fernandes / Estadão
Marcio Fernandes / Estadão

Pequenas empresas são metade dos exportadores brasileiros

Em termos financeiros, no entanto, elas respondem por apenas 1,2% do total; no ano passado, eram 12,7 mil exportadores desse porte, o maior número em 12 anos

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2017 | 14h52

Num período em que a recessão derrubou a demanda doméstica e a desvalorização do real conferiu maior competitividade a produtos brasileiros no exterior, 3,5 mil micro e pequenas empresas entraram no canal exportador nos últimos três anos.

Balanço da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) obtido com exclusividade pelo Broadcast mostra que, embora representem, em volume financeiro, apenas 1,2% das exportações, as micro e pequenas empresas já são praticamente metade (49,6%) do total de exportadores brasileiros. No ano passado, foram 12,7 mil exportadores desse porte, o maior número em 12 anos.

O levantamento, que cruza dados dos registros de exportação com estatísticas de emprego contidas na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), baseia-se em parâmetros do Mercosul que classificam como pequenas empresas aquelas que, no caso da indústria, empregam no máximo 40 pessoas e exportam até US$ 3,5 milhões por ano.

Estado Unidos, que representam 19,7% do total, Argentina (8,4%) e Paraguai (6,7%) são os três principais destinos desses exportadores, que trabalham com uma pauta diversificada, indo de pedras de construção, principal item, a móveis, autopeças, shampoo e calçados, bem como máquinas e equipamentos.

Em 2016, ano em que as grandes companhias, responsáveis por 94% das exportações brasileiras, tiveram queda de 3,4%, as micro e pequenas empresas aumentaram seus embarques em mais de 10%, chegando a US$ 2,3 bilhões.

De um lado, a crise doméstica forçou as empresas a atacar mercados no exterior para ocupar suas linhas de produção e escoar estoques. De outro, a depreciação cambial, com o dólar chegando a passar dos R$ 4,00 no início do ano passado, permitiu que elas levassem seus produtos ao exterior a preços competitivos.

"Parece que estamos de volta ao Brasil de 30 anos atrás, quando se dizia 'é exportar ou morrer'", comenta Thomaz Zanotto, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Um termômetro desse interesse em explorar novos mercados é que atualmente aproximadamente 6 mil companhias estão cadastradas no Plano Nacional da Cultura Exportadora, o programa do governo federal que visa a preparar as empresas ao comércio exterior. Zanotto acrescenta que a comercialização de produtos pela internet e, mais recentemente, a simplificação de processos burocráticos a partir do lançamento de um novo portal de comércio exterior, vem permitindo que mais empresas, independentemente do porte, consigam colocar produtos fora do Brasil.

O problema é que, embora revelem bom desempenho recente, as estatísticas também mostram que muitos dos pequenos exportadores não conseguem se manter em mercados internacionais no longo prazo. Doze anos atrás, as micro e pequenas empresas chegaram a responder por 2,3% das exportações - praticamente o dobro do porcentual atual - e o número de exportadores nessa categoria beirava 13 mil operadores. Depois disso, a participação chegou a cair, em 2012, para pouco mais de 9 mil exportadores e apenas 0,7% do total embarcado no País. Especialistas apontam que as oscilações são resultados de um efeito sanfona, no qual as empresas vão e voltam do exterior a depender da realidade doméstica.

"As pequenas empresas exportam quando não têm opção porque elas não têm estrutura para estar no mercado internacional no dia a dia. Faz mais no desespero", observa José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), entidade que representa empresas que atuam tanto na exportação quanto na importação.

Segundo o executivo, além de não terem "fôlego" para absorver por muito tempo períodos de desvalorização do real, as pequenas, diferentemente das grandes companhias, não têm acesso às linhas bancárias de antecipação de recursos sobre contratos de câmbio.

Como vender ao exterior não oferece mais a rentabilidade de um ano atrás, por causa do aumento de custos e da apreciação do real que tem colocado o dólar de volta à faixa de R$ 3,10 a R$ 3,20, Castro vê um quadro de dificuldades para os exportadores.

De acordo com o consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, as empresas tem se esforçado para alcançar o mercado internacional, mesmo com margem reduzida, para manter a escala de produção, mas muitas não têm uma estratégia de médio ou longo prazo. "Buscam exportar apenas quando há redução do mercado interno. Quando há recuperação, abandonam o mercado externo, onde há maior concorrência e menor lucratividade, e depois são obrigadas a reiniciar o processo".

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