Paulo Araújo/Estadão-17/10/2019
Paulo Araújo/Estadão-17/10/2019

Pegada de carbono é estampada em rótulos para conquistar consumidor

Pequenas empresas como Nuu, Nude e Pantys calculam emissão de carbono e divulgam informação na embalagem; movimento ajuda clientes na decisão da compra

Bianca Zanatta , Especial para o Estadão

19 de setembro de 2021 | 05h01

Assinado em 2015 por 195 países, o Acordo de Paris selou compromissos para combater o aquecimento global - entre eles, a redução da emissão de dióxido de carbono (CO2), um dos principais causadores do efeito estufa. Foi aí que empresas ao redor do mundo começaram a traçar estratégias para se tornarem carbono zero.

Enquanto grandes marcas e multinacionais estão colocando metas para zerar suas emissões na próxima década, pequenas e médias empresas que nasceram com DNA sustentável não só conseguem ser carbono neutro como decidiram informar sua pegada de carbono nos rótulos, nas embalagens e nas etiquetas de seus produtos.

Entre elas está a Amaro, retailtech brasileira que comercializa desde artigos de moda e beleza até itens para casa. Além de ter se tornado carbono negativo em 2021, neutralizando em dobro toda sua emissão de CO2, a empresa passou a incluir a pegada de carbono nas informações de cada produto de seu e-commerce. 

Ao acessar a peça ou acessório do portfólio da empresa, dá para consultar a rotulagem climática, que informa o impacto ambiental de cada item, para que isso também seja um fator de decisão, ao lado de informações como preço e tamanho.

Outra que se propôs a destacar esse dado nas embalagens é a mineira NUU Alimentos, cujo carro-chefe é um pão de queijo caipira “raiz”, sem corantes ou aromatizantes. Em dois meses, tanto os pães de queijo quanto os palitinhos de tapioca, que a marca fabrica e distribui para grandes redes de supermercados em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, terão o selo de carbono neutro estampado nos saquinhos. 

Segundo a empreendedora Rafaela Gontijo, a ideia foi associar o propósito ambiental à produção artesanal de memória afetiva com decisões que tenham impacto positivo na natureza. “A gente está em um momento de falar sobre um assunto que ninguém ainda entende direito, mas que vai ser muito crucial no futuro. A pegada de carbono é o primeiro passo.”

O caminho seguido pela empreendedora foi calcular os gases emitidos desde a produção pecuária leiteira da marca, que mantém uma fazenda em Patos de Minas (MG), até o forno em que o pão de queijo é assado na casa do consumidor. A pegada prevista - 585 toneladas de CO2 até o final de 2021 - foi neutralizada com a compra de créditos de carbono do programa ambiental Amigo do Clima, que mantém um projeto de redução do desmatamento e da degradação florestal no Pará, entre outros. 

Apesar da neutralização, a empresária aposta com força na redução de emissões da produção. A transição do cultivo convencional para um manejo regenerativo e a escolha dos fornecedores, por exemplo, são partes fundamentais no processo. 

As fazendas ficam a no máximo 40 quilômetros de distância da sede da NUU e a empresa mantém um ranking de desenvolvimento de fornecedores feito em parceria com a Invista Foods. Se o pequeno produtor tiver nota acima de 70 nesse ranking, ele pode ser um parceiro e passar por um programa de capacitação para adequação aos princípios de sustentabilidade.

“Comparando às grandes empresas, que têm metas até 2030, por exemplo, o bom das PMEs é que a gente consegue ser carbono neutro já”, explica Contijo. “Sei de cinco ou seis marcas pioneiras que já informam a respeito nas embalagens, mas isso virá de forma catalisadora.” No caso da NUU, por sinal, a missão é definitiva - a nova linha de pizzas de pão de queijo, que começa a ser comercializada em outubro, também já chega ao mercado com o selo. 

Transparência de informações e decisão do consumidor

Para Mariana Malufe, diretora de sustentabilidade da foodtech Nude, especializada em leites vegetais a partir da aveia, tornar-se carbono neutro para enfrentar a crise climática também é um meio, não um fim.

“A Nude nasceu carbono neutro porque a gente queria compensar as emissões enquanto montava nosso plano de ataque de mitigação climática. Enquanto a gente trabalha nessa redução, a gente está neutralizando, mas o processo de enfrentamento da crise climática é muito mais profundo do que só comprar créditos de carbono”, defende.

A marca traçou uma estratégia robusta com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que olham para a agenda global. Fome zero, agricultura sustentável, enfrentamento às mudanças climáticas e ética e transparência nas relações e processos são as principais prioridades, de acordo com a executiva.

“Não é simplesmente sobre crise climática, mas sobre transparência também: ter o rastreamento de cada etapa do processo de fabricação dos nossos produtos e entender como eles são plantados, por quem, qual a distância percorrida, que tipo de caminhão é utilizado para levar essa aveia do campo até a produção, que diesel usa”, a diretora exemplifica, sublinhando a importância de puxar esse diálogo com o consumidor. 

“A gente acredita muito no poder do consumidor na mudança para uma economia de baixo carbono. É o consumidor usando o poder de compra dele como ato político. É por isso que a gente traz a informação para o rótulo e não deixa só no site. A gente quer que o consumidor pegue (o produto) na mão e entenda que o Nude Original tem uma pegada de carbono diferente do Nude Cacau, que inclui as emissões relativas ao cultivo e transporte do cacau da Bahia até nossa produção.”

Moda íntima carbono zero

Essa é também a preocupação da marca de calcinhas menstruais Pantys, que lançou uma etiqueta de carbono neutro para todas as peças. “Não tem como reduzir ou compensar o impacto do que não conhecemos, por isso resolvemos realizar o cálculo da pegada de carbono e trazer essa informação de forma transparente”, afirma Emily Ewell, uma das fundadoras do negócio. 

“Muito se fala sobre os malefícios das emissões de gases de efeito estufa, mas trazer essa informação em todas as embalagens e páginas de produto pode auxiliar o consumidor no momento da tomada de decisão, assim como conseguimos acessar o número de calorias dos alimentos antes de comprar”, ela ressalta.

A Pantys também investe em créditos de carbono para neutralizar 100% de suas emissões, mas está na corrida para reduzir drasticamente a pegada de carbono. Algumas mudanças, como a escolha da matéria-prima (hoje, tecidos biodegradáveis Amni Soul Eco), uso de embalagens recicláveis, parceria para logística reversa com a Eureciclo e controle dos programas ambientais dos fornecedores, fazem parte desse pacote. 

“Vale destacar que grande parte das emissões da maioria dos produtos do segmento da moda se deve ao transporte e à etapa de produção”, complementa a outra sócia, Maria Eduarda Camargo. “Por isso 100% da produção da Pantys é feita no Brasil, como forma de reduzir distâncias.”

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