Robson Fernandjes, Estadão
Robson Fernandjes, Estadão

Para pequenos, burocracia emperra competitividade das empresas brasileiras

Brasil é o segundo país mais burocrático do mundo, segundo percepção do mercado

Renato Jakitas, Estadão PME,

28 de maio de 2014 | 06h50

O mineiro Marco Carvalho viveu por cinco anos do intercâmbio tecnológico com a China, fabricando na Ásia produtos que ele mesmo formatava para serem vendidos para outras empresas no Brasil. E a vida seguia assim, relativamente próspera, até que um dia ele teve uma inspiração: criar um cachorro de pelúcia que interagisse com o dono por meio de comando de voz. 

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Patenteado, o brinquedo recebeu o nome de Cão Spock e estava pronto para ganhar as gôndolas quando, de repente, o empresário se deu conta de três detalhes: o custo dos impostos, o tempo para obtenção de licenças e a complexidade das exigências envolvidas para manter uma operação desse nível no Brasil.

“Quando fomos pesquisar a cadeia de impostos, a parte de certificações, de testes, nossa, era tudo tão confuso e tão difícil que optamos por outro caminho”, conta o empresário, que radicalizou na solução. “A gente decidiu abrir a empresa na Inglaterra e operar no Brasil somente por meio de distribuidores. Lá é muito fácil de trabalhar. Em cinco minutos você consegue entender a taxação dos tributos, que é 30% sobre o lucro”, afirma Carvalho. 

Apesar do movimento, ele não cortou os laços com seu País. “Hoje, temos nosso quartel general em Belo Horizonte, onde funciona todo o desenvolvimento criativo. Mas a verdade é que somos ingleses”, destaca.

A história do mineiro ilustra bem o desafio enfrentado pelo empresariado local, sobretudo o de pequeno porte, que sofre para digerir o conjunto de regras e o ambiente regulatório brasileiro. Não à toa, em 2013, um levantamento realizado pelo Fórum Econômico Mundial colocou o Brasil com o segundo pior índice de percepção sobre o peso da burocracia, a frente apenas da Venezuela. 

“Em uma escala que variou de um a sete, o País recebeu nota 2. E isso não nos surpreende. Na nossa visão, a burocracia é o principal fator que atrapalha o desenvolvimento do Brasil”, analisa o economista João Melhado, pesquisador da Endeavor, instituição que se dedica a fomentar o empreendedorismo. “A burocracia é generalizada, para todos os setores da economia. Mas os pequenos são os que mais sofrem e a questão tributária é onde se verificam as maiores queixas”, afirma.

Quem conhece bem essa realidade é a farmacêutica Cláudia de Araújo Carvalho, dona de uma fábrica que terceiriza a produção de cosméticos para marcas de pequeno porte em São Paulo. Com dez funcionários e 35 clientes fixos, para manter em atividade a empresa, que ocupa 180 metros quadrados na zona sul de São Paulo, Cláudia coleciona três pastas com licenças, documentos e impostos. São cerca de 7,5 quilos de papelada que ela tem de manter em dia sob o risco de problemas legais. 

“É muita coisa e, por mais que a gente se preocupe, uma hora ou outra aparece alguma novidade, surge uma regra nova e nos pega desprevenidos”, conta a empreendedora, lembrando-se de um incidente atual. “Temos uma autorização de funcionamento federal e temos também a licença de funcionamento estadual, que é o alvará. Recentemente chegou aqui na minha porta uma fiscal da Prefeitura e me pediu o alvará municipal, que era uma regra de 2008, mas eu não tinha ouvido falar. Tive de correr atrás de mais esse documento e ainda tomei uma multa”, afirma. 

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