Jeremy M. Lange/The New York Times
Jeremy M. Lange/The New York Times

Para donos de negócios centenários, fechar é especialmente doloroso

Ao longo dos anos, lojas sobreviveram às mudanças na moda, a guerras mundiais, à Grande Depressão e à crise financeira de 2008, mas a pandemia do novo coronavírus tem sido um desafio intransponível

Amy Haimerl, The New York Times

24 de julho de 2020 | 14h04

A loja de departamentos Harrell manteve-se vigilante em Wright Street, em Burgaw, Carolina do Norte (EUA), por 117 anos. Atendeu a todas as necessidades dos 4 mil habitantes da cidade, como calçados de bebê e cabrestos para cavalo ou chapéus de ir à igreja e eletrodomésticos no edifício de dois andares, construído com tijolos vermelhos em 1924. 

A loja esteve no cenário de vários filmes famosos do fim da década de 1990 e início da década de 2000, incluindo Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado e Divinos Segredos. Sobreviveu às mudanças na moda — houve época em que vendeu ceroulas —, a guerras mundiais, à Grande Depressão e à crise financeira de 2008, além das enchentes.

Mas não conseguiu sobreviver ao novo coronavírus. Vernon Harrell, dono atual da loja que pertence à família há quatro gerações, anunciou recentemente que fecharia o negócio fundado por seu bisavô. “Tem sido muito difícil", disse Harrell, de 65 anos, que começou a trabalhar na loja quando tinha 13. “Não queria ser o responsável pelo fim da loja.”

A pandemia devastou muitos dos proprietários de pequenos negócios. Nos Estados Unidos, quase um quarto das empresas fecharam em março e abril, seja em caráter temporário ou permanente, de acordo com um estudo publicado pelo Bureau Nacional de Pesquisa econômica. Mas, para as empresas que fazem parte de suas comunidades há 100 anos ou mais, o que está em jogo não é apenas o sustento — há um legado e, em alguns casos, são gerações de laços de família.

Desde março, a pandemia acabou com pelo menos meia dúzia de negócios centenários - ou quase. O Hotel Buckminster, de Boston, por exemplo, inaugurado em 1897, fechou as portas; o Ritz Barbecue, inaugurado em um pequeno barracão em Allentown, Pensilvânia, em 1927, serviu sua última porção de costeletas e sorvete no mês passado; a Hickory Grove Greenhouses, ao norte de Allentown, decidiu fechar depois de 103 anos; e a Michigan Maple Block Co., empresa de produtos de madeira do norte de Michigan, está desativando a fábrica e demitindo 56 trabalhadores depois de 139 anos no ramo.

“São empresas que podem ter um fim decente ou desagradável; nada dura para sempre", disse o sociólogo Dennis Jaffe, que trabalha com empresas de família e, recentemente, publicou o livro Borrowed From Your Grandchildren: The Evolution of 100-Year Family Enterprises [Emprestada dos netos: a evolução dos empreendimentos de família centenários]. “É triste e há um luto, mas também temos um legado.”

Harrell estava lutando para manter a loja aberta mesmo antes da chegada do coronavírus. Mudanças na preferência do consumidor e a concorrência de franquias como Home Depot estavam encolhendo sua receita. Ele já tinha desistido de vender material para assoalhos e revestimento — artigos que a loja Harrell oferecia desde o início — porque não conseguia bater os rivais. 

Mas também tentava modernizar o negócio: Harrell criou um site e colocou a loja nas redes sociais, e pensou em acrescentar um bar à loja, para dar aos clientes outra razão para vir às compras. “Se não fosse a covid, eu seguiria tentando, por mais difícil que fosse", disse Harrell. “Mas perder a renda de dois meses simplesmente acabou comigo.”

Um dos desafios enfrentados pelos negócios de família é a dificuldade em encontrar alguém disposto a assumir o comando — ainda mais em meio a um declínio econômico. Os filhos adultos de Harrell moram a seis horas de distância, em Asheville, Carolina do Norte, e não estão interessados em reimaginar o varejo para o mundo pós-covid. O desinteresse é o mesmo entre os sobrinhos dele.

“Não há mais uma nova geração apaixonada e interessada em assumir os negócios e superar uma crise", disse Jennifer Pendergast, diretora executiva do Centro para Empreendimentos de Família da Universidade Northwestern. “A situação difícil vai durar um pouco. Há alguém disposto a enfrentar esse quadro?”.

Para os donos de negócios que tentam mapear o futuro — sejam eles da segunda ou da quinta geração —, Jennifer recomenda que encontrem alguém que possa lhe “dizer verdades", que olhe para os números e o lado emocional de seguir adiante. Se a conta não fechar e o negócio for inviável, não há sentido em mantê-lo. Mas, se houve uma chance de prosperar, ela incentiva os proprietários a se indagarem se o trabalho ainda faz sentido para a família.

“A simples obrigação não pode ser a razão para continuar", disse ela. “No longo prazo, não é uma situação sustentável.” Amy Hyman sente essa obrigação diariamente conforme tenta levar a Lake Steam Baths, de Denver, à conclusão do seu 94.º aniversário.

Como Harrell, ela nunca se imaginou no comando de uma empresa de tradição. Estava contente trabalhando no bar onde conheceu o marido, Hannon. A casa de banhos turcos e russos era responsabilidade da sogra, Gertie. “Ela tinha um metro e meio de altura", disse Amy. “Uma senhorinha judia andando por aí e dizendo a todos o que fazer. É a memória mais querida que tenho desse lugar — sem jamais saber que, um dia, eu me tornaria como ela, em um certo sentido.”

Quando Gertie morreu em 2006, Hannon assumiu os negócios — com alguma participação de Amy. As mulheres nunca puderam entrar nos banhos. Mas Amy convenceu Hannon a deixar que ela testasse uma noite feminina realizada um domingo por mês para que as mulheres também pudessem desfrutar das saunas e hidromassagens.

Ela continuou trabalhando no bar e criando os filhos enquanto Hannon administrava o negócio. Mas, em 2015, quando ele morreu aos 59 anos, Amy se viu no comando porque não havia outros parentes disponíveis.

“Nunca imaginei que acabaria cuidando dos negócios sozinha", disse Amy. “Meus filhos tinham 14 e 10 anos quando Hannon morreu, e a cada ano eu repetia, ‘Vou vender o estabelecimento e cuidar da minha vida’. Mas não posso. A comunidade é incrível.”

Ela dobrou a aposta no negócio aberto pelos pais de Hannon em 1927. Quitou a hipoteca de US$ 400 mil no prédio e no estacionamento de 1.000 metros quadrados, gastando mais de US$ 40 mil em novos aquecedores, equipamentos de sauna e máquina de vapor. Ela também aumentou o número de noites das mulheres e ampliou as opções do cardápio.

Os resultados começaram no ano passado: Amy disse ter lucrado e 2020 tinha tudo para ser seu melhor ano. Ela se preparava para investir em outra sauna e planejava uma expansão. Tinha nove funcionários e uma equipe ampliada de 36 massagistas para atender à demanda.

Mas os investimentos também erodiram suas reservas e a deixaram vulnerável quando o governador do Colorado, Jared Polis, ordenou o fechamento dos negócios no fim de março para deter a disseminação do coronavírus. A receita dela caiu a zero, e ela teve que demitir funcionários.

“Hesito constantemente e luto comigo mesma: manter o negócio ou vendê-lo?", disse Amy. “Se tiver que vender, sei que a comunidade do Lake Steam vai me perdoar e compreender.” / Tradução de Augusto Calil

Receba no seu e-mail as principais notícias do dia sobre o coronavírus. Clique aqui.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.