Joe Skipper/Reuters
Joe Skipper/Reuters

Para aumentar caixa, empresas viram compradoras de lojas de franquia

Para diversificar rendimentos ou investir no médio prazo, empresas tradicionais compram unidades de marcas do varejo

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2016 | 06h00

Matéria atualizada às 19h

Não é incomum uma empresa comprar parte de outra por acreditar em seu potencial de expansão ou desejar ampliar a atuação. O raro é quando ao invés de se tornar sócio, alguns investidores optam por virar um franqueado da marca. 

É exatamente isso o que está acontecendo. Em um tipo de negociação rara até pouco tempo atrás, hoje existem empresas que ingressam no franchising pelo outro lado do balcão, o de comprador de unidades. Segundo empresários e especialistas, a justificativa vai desde o interesse em reduzir oscilações de mercado, estratégias para criar novas frentes de receita ou simplesmente a projeção de lucros no médio e longo prazos.

Se virar moda, essa transformação pode colocar em risco a velha imagem da ‘barriga no balcão’, prontamente invocada pelas marcas sempre quando questionadas sobre o perfil de investidor que mais as interessa para uma expansão.

Aeroportos. A inspiração para esse modelo que começa a ganhar força no País está no passado vivido pelas empresas que atuam no segmento de restaurantes coletivos, especialmente uma das principais representantes do ramo, a gigante International Meal Company. 

Além de operar com cozinhas coletivas, a IMC criou marcas como Viena, Carl’s Jr. e Red Lobster para oferecer em praças de alimentação de portos, aeroportos e rodoviárias que opera pelo mundo, incluindo o Brasil. 

“Essas empresas entram nessas licitações e operam áreas grandes. Elas acabam ou comprando unidades de franquia ou lançando bandeiras para oferecer nesses pontos”, conta Robinson Shiba, fundador da Trend Foods (dona da China in box e Gendai), que já negociou uma franquia com a IMC.

Outra representante do setor é  GRA, da britânica Compass Group (que tem franquias de outras redes, por exemplo, no Aeroporto Internacional de Guarulhos). Um dos ‘clientes’ da empresa, aliás, é a Casa do Pão de Queijo, de Alberto Carneiro Neto. “Eles compraram oito unidades da nossa marca”, diz o empresário. “ O interesse da GRSA era oferecer um mix mais completo para seus clientes. Nossa franquia é relativamente barata e a maioria dos nossos candidatos a franqueado ainda são pessoas físicas”, conta.

A história já é diferente com a Burguer King, que tem entre seus franqueados empresas do segmento calçadista a varejo de eletroeletrônicos. No final do primeiro semestre a rede divulgou seu plano de expansão por franquias com investimentos de R$ 1 milhão a R$ 3 milhões e se surpreendeu com a procura. “Já temos 60 cartas de intenção e as empresas são maioria absoluta”, conta o diretor William Giudici, responsável pela divisão de franquias da rede. “Acho que a explicação é o tipo de investimento. Comprar uma franquia com a gente vai exigir um desembolso alto e um tempo de retorno do investimento de quatro, cinco anos. Não é fácil encontrar uma pessoa física que aguente isso.”

Segurança. Para Angelo Coiro Filho, dono há 30 anos da construtora ACF, além da capacidade de investimento, o relacionamento com outros empresários, donos de redes de franquias, também são fatores que, pelo menos no caso dele, determinaram o investimento. 

“Eu faço construção de lojas em shoppings e estou comprando algumas unidades porque as vezes um lado vai mal e o outro pode compensar”, afirma o empreendedor, que já tem cinco lojas de acessórios em São Paulo e procura área para novas aquisições em 2017. 

“A construtora é ainda meu principal negócio. Mas o risco é maior. Se acontece algum problema na obra, a margem despenca. As franquias me entregam um lucro muito interessante”, avalia o empresário.

No primeiro semestre do ano, as franquias obtiveram crescimento nominal (sem descontar a inflação) de 7,9% em receitas, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). A inflação foi de 4,96% no período.

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