‘Ou você perde para as startups ou se junta a elas’

‘Ou você perde para as startups ou se junta a elas’

Para diretor de Stanford na América Latina, ecossistema empreendedor do Brasil depende da retomada de investimentos

Entrevista com

Jonathan Levav, diretor acadêmico do Stanford Ignite na América Latina

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2017 | 06h00

Há três anos, o diretor acadêmico da Universidade de Stanford Jonathan Levav vem ao Brasil para iniciar o Ignite, programa de inovação com foco em empreendedorismo voltado para líderes de grandes companhias e de startups. Assim como faz na Índia, China, Chile e em outros países onde o curso acontece, Levav procura aqui a ideia de negócio que vai valer US$ 1 bilhão. Em entrevista exclusiva ao Estado, ele fala sobre o ecossistema empreendedor no País.

Por que o Brasil não produz ideias de US$ 1 bilhão?

Minha hipótese é que o mercado aqui é grande, mas ainda não é suficientemente desenvolvido. Você pode construir uma grande empresa, mas para ser realmente grande é preciso resolver um problema de forma global. É preciso encontrar uma solução que se aplique ao Brasil e aos Estados Unidos, à China. É como acontece em mercados como Israel e Finlândia, que são muito pequenos. A saída deles é vender para a Ásia, para a Europa. Tem de ir para o global, mas aqui o local parece suficiente.

Estamos ao menos perto?

Não muito. A maioria dos negócios que tenho visto no Brasil são para consumidores finais. Ainda não vi por aqui alguém se propondo a solucionar algo como o problema de segurança cibernética. Há empreendedores fazendo coisas interessantes e ganhando dinheiro, mas a América Latina como um todo ainda não é um bom exemplo global. É um jogo que vocês podem ganhar se conseguirem fazer com que o dinheiro de fora chegue novamente aqui.

O capital de risco deixou de ver atrativos para investir no Brasil?

Houve um tempo em que todo mundo queria estar aqui e isso atraiu grandes fundos de investimento. Mas a crise deixou tudo menos interessante. Para o capital de risco, o mercado brasileiro está completamente fechado, pois investidores não gostam de risco. Mas sabe o que seria legal? Se a comunidade investidora no Brasil crescesse. Se grandes companhias investissem mais em inovação. Isso ajudaria a trazer o capital estrangeiro novamente.

As fintechs, startups voltadas para o mercado financeiro, podem mudar esse cenário?

O que é vemos aqui é um sistema bancário que não funciona para os consumidores. É caro, a operação é opaca, não há empatia em relação à inovação. É um sistema totalmente atrasado e isso dá oportunidades a empreendedores que forem espertos, principalmente em um momento em que as pessoas estão precisando de crédito. Um sistema como o Nubank não funcionaria nos Estados Unidos porque é muito fácil conseguir um cartão de crédito por lá. Aqui, eles souberam mirar justamente nessa falha. Há fintechs olhando para uma população de seis milhões de empreendedores que precisam administrar seus caixas de forma eficiente. Ir até um banco toma pelo menos uma hora da sua vida. Por que não resolver isso em doze minutos pelo celular? São serviços que ajudam pequenos negócios a evoluir.

E como grandes companhias no Brasil e no mundo têm olhado para a inovação produzida por startups?

Nos Estados Unidos, empresas de mídia como Google, Disney, Comcast perceberam que não é fácil criar inovação. Então decidiram, em vez de criar, olhar para quem está inovando do lado de fora. Agora, elas estão avaliando aquelas ideias que devem ou não comprar ou incorporar. Isso terá um enorme efeito em produtividade e eficiência. Trazendo a discussão para a América Latina, e mesmo para o Brasil, vejo que o primeiro passo em direção a esse cenário foi dado. Grandes empresas já olham para pequenos negócios como focos de produção de inovação. Porém, ainda estão reticentes em fazer esse capital crescer, transformando startups em suas concorrentes. Mas, no fim, é uma questão de escolha entre perder para essas startups ou se juntar a elas.

No universo das startups, há alguma fórmula para o sucesso?

Não. A maioria das empresas falha porque mudar o comportamento do consumidor é muito difícil. É preciso entrar na carteira, na bolsa, na casa, e entender ao menos como tudo isso funciona para mudar a vida de alguém de uma forma grandiosa. E que seja fácil de incorporar. Essa é a ideia que vale US$ 1 bilhão.

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