Alessandro Lucchetti/Estadão
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Oliveira Guarda-Chuvas, um negócio à prova de intempéries

Estabelecida na Galeria Nova Barão desde a década de 1960, loja é o lugar procurado por quem se recusa a trocar um guarda-chuvas barato por outro a cada novo aguaceiro

Alessandro Lucchetti, Especial para o Estadão

22 de junho de 2017 | 14h35

O advento da importação maciça de guarda-chuvas da  China desmontou a indústria nacional e inaugurou a era do guarda-chuva descartável. Reparar guarda-chuvas é um costume conservado por poucos, os que têm um equipamento de melhor qualidade. Mas  a Oliveira Guarda-Chuvas insiste e trabalha, desde 1967, com comercialização e conserto numa pequena loja da Galeria Nova Barão e está conseguindo sobreviver a essa tempestade chinesa. Jorge de Oliveira Neto, filho do fundador da Oliveira, diz não saber de outro estabelecimento que execute esse serviço na cidade.

"Ninguém mais curte guarda-chuva. Hoje em dia compra-se guarda-chuva chinês barato, de alumínio. Quando ele tem uma avaria, simplesmente compra-se outro", lamenta o empresário. Para não sucumbir, a Oliveira trabalha também com produtos chineses. No entanto, o guarda-chuva mais barato que se encontra na loja de número 69 da galeria que liga a Barão de Itapetininga à Sete de Abril sai por R$ 50. "Há produtos chineses bons, mais ou menos e ruins. Trabalho com linhas melhores." Quem quiser se defender dos pingos com maior elegância pode optar por um produto da marca alemã Knirps (igualmente montado na China) por R$ 500.

Num mês com alto índice pluviométrico, Oliveira estima que venda de 400 a 500 unidades de seu carro-chefe. Por semana, seu Luís, o mecânico de guarda-chuvas oficial da Oliveira, repara uns 20 guarda-chuvas. Lubrificação de mecanismos, troca de hastes e de forro: os serviços executados pelo técnico custam entre R$ 10 e R$ 25.

Os clientes da Oliveira são aqueles que investem uns R$ 60 ou R$ 80 num guarda-chuva, e não se incomodam em pagar um pouco mais para trocar uma vareta, se for necessário. Há também empresas que adquirem os chamados "guarda-chuvas de portaria", alguns dotados de logomarcas. Ainda há fabricação nacional de armações para essa mercadoria. A Chuvatec, de Pacarambi (RJ) se incumbe desse trabalho. Administradores de restaurantes e hotéis, que cortesmente poupam seus clientes da chuva, normalmente têm o zelo de conservar e fazer a manutenção adequada das peças. 

"Troco figurinhas. Não tenho lucro nem prejuízo. No frigir dos ovos, é um negócio que me dá prazer. Felizmente, posso me dar ao luxo de atuar num negócio que não dá lucro, porque tenho outros. Não estou casado e não tenho filhos, não tenho muitas despesas. Ademais, este negócio lembra meu pai (Jarbas de Oliveira)."

Na década de 1950, seu Jarbas tinha uma perfumaria na Rua Líbero Badaró, do outro lado do Viaduto do Chá, no centro velho da capital. Naquele tempo, São Paulo era mesmo a terra da garoa. Preocupado com os clientes, o comerciante mantinha num balde um punhado de guarda-chuvas que vendia aos desprevenidos face às intempéries. "Com o tempo, meu pai viu que vendia mais guarda-chuvas do que perfumes, e mudou de ramo."

A loja de Jarbas atravessou o Viaduto do Chá, cuja construção, por sinal, absorveu a mão de obra do bisavô de Jorge, um italiano que pegava no pesado, e se fixou na Rua Coronel Xavier de Toledo. A elegante Nova Barão, inaugurada em 1962, atraía uma clientela interessante, e a Oliveira lá se fixou.  Os anos 60, 70 e 80 foram o auge da loja.

Símbolo de status. "O guarda-chuva era um símbolo de status, um ornamento, tal como um chapéu. Vendíamos peças com cabos de java (raiz de bambu), de chifre, de madeira trabalhada, de raiz de nogueira. Essa arte ainda existe. A Indaiá, de Indaiatuba, resiste, mas hoje trabalha mais com bengalas. Hoje ninguém mais tem  essa curtição, tudo é plástico e resina", diz Oliveira, fazendo careta antes de tomar um gole de café na Praça Dom José Gaspar. "A preocupação é fabricar um guarda-chuva leve e dobrável, que não vá pesar dentro de uma bolsa, mas a durabilidade do alumínio deixa muito a desejar em comparação ao ferro."

Oliveira tem estima pelos guarda-chuvas, tanto que não os esquece, nem mesmo quando a chuva passa e o sol se abre. Como se sabe, guarda-chuvas são um item que abarrota as seções de achados e perdidos de estações de trens e metrôs. "Nunca perdi um guarda-chuva. Um dia, enquanto tomava um café, deixei um sobre uma caixa de  registro de água da cafeteria. Alguém o viu e o levou, porque chovia."

Quando é bem atendido numa loja, Jorge, em vez de dar gorjetas, presenteia com guarda-chuvas, um ato que para ele é prova de elevada estima. "Muitos clientes deixam o guarda-chuva para consertar e não vêm buscá-lo. Não temos espaço para guardar tantos. Depois de um certo tempo, eu os utilizo como presentes."


 

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