Sergio Castro
Sergio Castro

'O importante é saber que empreendedor não é profissão', diz Pedro Herz, dono da Livraria Cultura

Com uma visão muito clara sobre o consumo de livros no Brasil e novas tecnologias, Pedro Herz acredita que leitor se faz em casa

Letícia Ginak, especial para, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2017 | 09h58

Em 1938, um casal judeu deixa a Alemanha nazista e embarca em um navio com destino praticamente desconhecido. Os dois chegam à Argentina, mas conseguem mudar para o Brasil, especificamente para a cidade de São Paulo, a procura de novas oportunidades.  Eva Herz, a esposa, começa a alugar livros para imigrantes vizinhos e, aos poucos, constrói uma das livrarias mais conhecidas do País. Parece resumo de livro, mas essa é a origem da Livraria Cultura e a história dos pais de Pedro Herz, herdeiro e dono da marca, considerada um reduto para os amantes dos livros. O que começou na sala de casa se transformou em 18 lojas espalhadas por oito estados. Em entrevista ao Estadão, Pedro Herz, um dos palestrantes da Semana Pró-PME, fala sobre a principal chave para empreender: honrar compromisso. 

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Como você enxerga o empreendedorismo no Brasil?

Acho que se confunde muito o que é empreendedorismo. Se você muda o caminho para voltar pra casa e ganha 30 minutos a mais no seu dia você está empreendendo. Empreender é descobrir algo novo, uma nova forma de fazer. Existem várias maneiras de empreender. Você pode se juntar com seu amigo e abrir um bar ou formar uma banda. O importante é saber que empreendedor não é profissão.

Nesse momento, muitos estão se arriscando e começando a empreender. O que você diria para esses futuros empreendedores?

Eu só aprendi com os meus erros, até porque os acertos são intuitivos. Acredito que a gente tem que honrar o compromisso que assume. Parece que a palavra compromisso foi erradicada do nosso vocabulário. Quando eu empreendo, eu assumo um compromisso com o meu colaborador que está ao meu lado e tenho que remunerá-lo por isso. Eu também tenho um compromisso com o meu cliente, eu tenho que entregar o que eu prometo, o cliente é meu chefe. Tem que saber fazer aquilo o que você se propõe. Como eu vou abrir um restaurante se eu não sei ligar o fogão? Você tem que se preparar para isso, tem que trabalhar, nem que seja de garçom. E tem que saber como é lidar com dinheiro, como você vai bancar seu negócio, como vai amortizar o déficit. Não tem fórmula, é preciso vocação e capacidade. Não existe realidade imediata, não tem copy/paste.

Você nunca teve resistência com novas tecnologias, sempre acompanhou e investiu na novidade. Como enxerga esse momento extremamente tecnológico para o mercado literário?

Nunca tive problemas. Em 1994, com a chegada da internet, fui pioneiro no mercado. Você tem que inovar. Sobre os readers, eles são uma nova mídia a favor do consumidor. Eu posso ler um livro que pesa 1 kg em um aparelho de 80 gramas, ou seja, é extremamente confortável para o leitor.

Com essa facilidade dos readers, as vendas de e-books estão crescendo?

Pelo contrário, estão caindo vertiginosamente. Aparelho não faz leitor. Leitor se faz em casa. Se, cada vez mais casais não querem ter filhos, teremos menos leitores, porque nós estamos mal na escola. Precisamos tentar descobrir o que é ler. Eu acho que faz parte de ouvir, nós não ouvimos mais o que o outro diz. Nós só estamos falando, não conseguimos ficar calados. E digitar é falar. Se você entra em um elevador, 100% das pessoas estão falando e ninguém está ouvindo. E isso acontece em todos os espaços. Outro dia tive que dar um berro no cinema, é uma loucura. E se eu vou ver um filme, um espetáculo de música, se eu leio um livro, isso é ouvir. Se eu escuto, aquilo pode me tocar, me emocionar e então eu vou comprar aquela música, vou até reler aquele texto.

O que pensa dos escritores que estão publicando de forma independente?

Ele está assumindo um risco. Publicar um livro é uma coisa, o problema é encontrar o leitor. Nós temos um consumo muito baixo de livro per capita.

Como você enxerga essa onda conservadora que prejudica a produção artística no Brasil, com o cancelamento de exposições e peças de teatro, por exemplo?

Isso me arrepia. Essa censura, proibir e vigiar o que o outro faz. Ninguém é obrigado a ir à exposição, a ver a peça, você vai se quiser. É um falso moralismo.

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