Ricardo Matsukawa/Estadão
Ricardo Matsukawa/Estadão

O desafio das academias brasileiras

Número de unidades mais que dobra, mas faturamento não acompanha expansão

Renato Jakitas, Estadão PME,

24 de setembro de 2014 | 06h50

Na hora de abrir uma empresa, o brasileiro tradicionalmente considera uma pizzaria, padaria ou pet shop. Para isso, nem é preciso visitar a Junta Comercial da cidade, basta circular pelo seu centro comercial. Nesse passeio, aliás, você vai perceber que essa lista ganha atualmente mais um modelo de negócio, a academia de ginástica, cada vez mais recorrente.

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Em quatro anos, a quantidade de empreendimentos mais que dobrou no setor, saindo de 15 mil unidades, em 2010, para 30.767 neste ano. Um avanço que coloca o País na vice-colocação em número de estabelecimentos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, que nos vence por 1.383 empresas, segundo dados da Associação Brasileira de Academias (Abrac) e da International Health, Racquet and Sportsclub Association (IHRSA).

Mas tamanho é uma coisa, dinheiro no bolso, outra. Sendo assim, o Brasil representa apenas o décimo faturamento do mundo para o setor (projeção de US$ 2,5 bilhões neste ano para uma estimativa de US$ 22,4 bilhões nos EUA) e a quarta colocação em número de clientes, com 7,6 milhões de matrículas.

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São dados aparentemente incongruentes e que nos levam para aquele que é tido como o principal desafio para o empreendedor da área atualmente: fazer com que a busca real do brasileiro por um corpo saudável e em forma converta-se em matrículas e dinheiro no caixa dos muitos e pulverizados centros de malhação em funcionamento pelo País.

“As academias brasileiras são nitidamente mais vazias que em mercados mais maduros, como é o caso dos Estados Unidos. Isso a gente percebe facilmente, só de visitar as unidades de lá e as daqui. A gente não consegue colocar um aluno por metro quadrado construído e, por isso, o faturamento do empresário do setor é bem mais baixo”, afirma Paulo Akiau, sócio da Tribes Company, um conglomerado de empresas que tem como carro-chefe a Body Systems, que licencia aulas coletivas de ginástica para 1,3 mil academias e fatura por volta de R$ 25 milhões ao ano.

“O mercado fitness sofre ainda de um problema de gestão por parte dos empresários. Mas é um setor muito interessante, tem muitas oportunidades. Por isso, é preciso fazer muita força para falir uma academia”, afirma Paulo Akiau.

Na opinião de Waldyr Soares, presidente da Fitness Brasil e representante brasileiro da IHRSA, o mercado deve passar por uma transformação em pouco tempo. “Eu vejo que uma consolidação é inevitável daqui a pouco tempo. Não tenha dúvida que o Brasil é hoje o segundo mercado em número de unidades no mundo. Mas, se for olhar a qualidade, é um problema. Montar academia virou moda, mas entrar no mercado hoje é negócio de gente grande.”

Por “gente grande”, Soares se refere, por exemplo, a dupla Alexandre Accioly e Edgard Corona. Respectivamente, eles estão no comando das redes Bodytech e Bio Ritmo, duas das principais concorrentes do ramo e que, juntas, faturaram R$ 550 milhões, quase 10% da receita total do setor.

“Acho que o mercado vai crescer nas pontas, especificamente na especialização do serviço e nas redes de low coast (as academias de baixo custo). A gente, particularmente, cresce porque lançamos novas unidades o tempo todo. Temos no radar lançar 40 unidades entre este ano e o ano que vem”, explica Accioly, que tem por trás desse poder de investimento o suporte do banco BTG Pactual, dono de 30% da rede. “Nossa grande aposta é a marca Fórmula, uma rede que atende a classe B e que queremos avançar com franquias em cidades de médio porte, esse é um caminho interessante”, destaca.

Na concorrência, Edgard Corona da Bio Ritmo adota estratégia similar, embora ainda mais radical. Há cinco anos o grupo lançou a Smart Fit, que cobra mensalidades a partir de R$ 49 e já conta com 148 unidades. “Não digo que é o futuro do setor, mas é um movimento importante”, observa Corona, que não está otimista com os resultados de 2014.

“O mercado como um todo está sentindo o momento econômico e o setor, se empatar os resultados do ano passado, já sai no lucro”, diz o empresário, que desde 2012 enfrenta concorrência direta no modelo de low cost com a Justfit, liderada por um ex-executivo da Bio Ritmo, Marco Lara. “Estamos com oito unidades, mas nosso plano é alcançar 10 até o final do ano e 22 no final do ano que vem”, explica Lara. “O mercado de low cost é muito rentável, mas ele precisa escalar, se não o empresário vai bater com a cara no muro.”

:: Cinco dicas para atuar no segmento ::

Nicho: A aposta na segmentação é importante para sobreviver em um mercado onde a concorrência profissional poderá esmagar o seu negócio.

Opção: O treinamento funcional, que não exige equipamentos sofisticados, é a grande aposta dos empresários do setor para os próximos anos.

Invista: Ter dinheiro é essencial no ramo. Uma academia exige investimentos superiores a R$ 1 milhão; 35% desse valor é destinado aos equipamentos.

Franquia: Grandes grupos, como Runner e Bodytech, oferecem a opção de franquia. Pode ser uma boa alternativa para se manter nesse segmento.

Baixo custo: O modelo de low cost já é uma realidade no País, mas o empresário que investir na opção deve se capitalizar para buscar escala.

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