Denny Cesare/Estadão
Denny Cesare/Estadão

Negócios verdes incubados em São Paulo pensam em cidade mais sustentável

Participando do Hub Green Sampa 2021, iniciativas como Uka, Cidades.co, Next Ride e Projeto Flow podem ajudar a construir um urbanismo sustentável na maior cidade do País

Marcos Leandro, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

As metrópoles, com grande concentração de pessoas em um espaço delimitado, enfrentam inúmeros problemas todos os dias, especialmente em relação à sustentabilidade. Por isso, para promover uma convivência harmônica e com menor impacto ao meio ambiente, é importante pensar em cidades com menor produção de lixo e emissão de poluentes, estimular o consumo consciente de água e energia, criar moradias ecologicamente corretas e desenvolver formas de transporte menos poluentes.

É com esses desafios, que não são pequenos, em mente, que startups compartilham de um desafio em comum. Empresas como Uka, Cidades.co, Next Ride e Projeto Flow querem construir um urbanismo sustentável em São Paulo, a maior e mais complexa cidade do País. Há outro ponto em comum entre todas essas empresas. Elas passaram a ser incubadas em 2021 no projeto Hub Green Sampa, programa de aceleração de negócios da Capital. Ao todo, já são 20 iniciativas selecionadas para a edição atual e mais 10 entrarão no grupo. Todos os participantes têm acesso ao Centro de Inovação Verde Bruno Covas, além de mentorias e capacitação. 

Os negócios que serão acelerados vão desde projetos em fases de ideação até startups que já atuam no mercado. “Quando essas empresas dão certo, os produtos delas se desenvolvem e elas se estabelecem como negócios e começam, de fato, a oferecer essa solução para a sociedade, o problema com o qual elas trabalham passa a ter mais uma solução no mercado”, explica Aline Cardoso, secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo. Ao final do programa, essas soluções podem ser absorvidas por empresas patrocinadoras ou até mesmo pelo próprio governo.

A bicicleta é uma boa opção

Uma opção prática e sustentável, que ajuda a fugir do trânsito, é a bicicleta. Entre 2016 a 2019, o mercado de bicicletas elétricas cresceu 34%, segundo levantamento feito pela Aliança Bike e o Laboratório de Mobilidade Sustentável da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Labmob/UFRJ). De acordo com a pesquisa, 56% dos ciclistas entrevistados usavam um automóvel para se locomover. Essa crescente busca pela ‘magrela’ se tornou uma oportunidade de negócio para os engenheiros Abdalla Tauil, Felipe Cândido e Pedro Bueno.

Inicialmente, eles tentaram ingressar no ramo de eletrificação de bicicletas, mas, após falharem, observaram que havia um interesse maior em bikes elétricas do que em kits de eletrificação. “Então surgiu a ideia de alugar bicicletas elétricas, com planos mensais que incluem serviço de assistência, seguro, manutenção preventiva e tudo aquilo que envolve ter uma bicicleta elétrica hoje em dia”, conta Pedro. Foi assim que nasceu a Next Ride, com assinatura de R$ 479 por mês. 

Sobre as vantagens em relação à compra, ele destaca o custo-benefício. “Para ter uma bicicleta hoje, é preciso gastar um dinheiro considerável. Em um modelo bom para o ambiente urbano, a pessoa vai gastar cerca de R$ 8 mil. No nosso plano, com esse valor, é possível ficar quase um ano e meio com a bicicleta, além de ter bikes atualizadas sempre à disposição”. 

Casas ecológicas e construções colaborativas

Outra participante desta edição do programa é a Uka, empresa de projetos de pequenas casas ecológicas. A iniciativa surgiu no ano passado após a chegada da pandemia ao Brasil. “A questão ambiental, que sempre fez parte da nossa formação, estava ali gritante, exigindo um modelo de integração entre o homem e a natureza que possibilitasse um cenário diferente do que observamos no início de 2020. Para nós, foi o momento em que virou a chave e decidimos que queríamos fazer a diferença de forma mais efetiva, com resultados inspiradores que motivassem os outros e com algo que sempre gostamos e acreditamos: a bioarquitetura”, conta Leonardo Monteiro, um dos três fundadores e sócio.

A proposta da Uka é tornar possível uma nova forma de ocupação, com o máximo de aproveitamento do espaço e uso sustentável dos ambientes interno e externo. “Integramos técnicas de construção de baixo impacto, projetos de casas inspiradas no movimento Tiny House, manejo de paisagem funcional, e tecnologias verdes. Entregamos ao cliente uma moradia sustentável pelo menor custo viável”. Nesse processo, a preocupação com o meio ambiente vai desde a escolha dos materiais até os métodos usados na construção. O resultado, segundo a empresa, é uma moradia confortável, funcional e sem excessos. 

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“As pequenas casas ecológicas podem possuir custo por m² construído equiparado ou até mesmo superior a construções convencionais, mas o fator crucial a ser considerado nesta equação é o retorno financeiro que uma casa ecológica proporciona. Quando é pensado no conforto térmico, se dispensa uso de ar condicionado; quando é gerada energia elétrica através de painéis solares, se dispensa energia elétrica. Com a diminuição dos custos fixos, o investimento é amortizado com o tempo”, explica Leonardo. 

Ainda nessa linha de construções, o Cidades.co busca solucionar os problemas de espaços públicos com a adoção de praças. A iniciativa permite que empresas promovam melhorias urbanas com contrapartidas, como divulgação da marca no local, por exemplo. “Se você pegar qualquer grande avenida de São Paulo, ela vai estar adotada, mas, se você entrar um quarteirão para dentro da cidade, vai ter uma praça de verdade que não é adotada. O motivo que me fez abrir essa empresa foi lutar para viabilizar esse tipo de espaço”, diz o arquiteto Marcelo Rebelo, fundador do Cidades.co.

As praças são adotadas por moradores, que, segundo Marcelo, são os verdadeiros interessados em manter aquele espaço revitalizado. No primeiro momento, a empresa oferece aos cidadãos todo suporte de forma gratuita, que vai desde capacitações sobre técnicas de mobilização para conseguir apoio no bairro até auxílio na captação de recursos, que podem vir de empreendedores, empresas maiores ou até mesmo do governo. “Conseguimos revitalizar todos esses espaços e trazê-los de volta para a cidade, com qualidade e segurança.”

Reuso de água

Impactado pela crise hídrica que o Estado de São Paulo viveu entre 2014 e 2016, o administrador Lucas Djin Ito, ainda estudante na época, buscou formas de reaproveitar a água do banho para a descarga, mas sem usar baldes. “Eu queria encontrar um jeito de abastecer a caixa acoplada do vaso sanitário sem reformas e custos extraordinários. Daí, eu comecei a pensar em como estocar essa água e usá-la no momento apropriado”. 

E foi assim que surgiu a Flow, um dispositivo que permite o reuso de água do banho, da máquina de lavar e até mesmo da chuva, tudo sem quebrar paredes ou contratar profissionais para a instalação. Ainda em fase de desenvolvimento, a ideia do empreendedor é cobrar R$ 289 pelo produto.

“Uma unidade de Flow isolada não faz muita diferença, mas várias unidades distribuídas, principalmente em bairros mais carentes, vão gerar uma economia relevante de água por mês, como também economia financeira local”, explica. Estimando que cada dispositivo economize 2 mil litros de água por mês, com mil produtos sendo utilizados em um bairro, a redução de consumo seria de 2 milhões de litros. Considerando um custo de R$ 10 por mil litros, seriam R$ 20 mil poupados que passariam a circular dentro daquela comunidade. 

 

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