Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Negócios sociais em habitação têm espaço para crescer, diz estudo

Trabalho conduzido pela Artemisia reúne carências e revela oportunidades para empreendimentos de impacto social nos setores de construção e moradia

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2019 | 06h10

Solucionar problemas de habitação e moradia da população em situação de vulnerabilidade social pode ser um gargalo de oportunidade para o empreendedor que deseja criar um negócio de impacto social. Só no Brasil, 11,4 milhões de pessoas vivem em favelas, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A precariedade de moradias, o baixo poder econômico de grande parte da população e as dificuldades do governo em atender às demandas abriram espaço para startups desenvolverem negócios rentáveis que conseguem atender pessoas de baixa renda.

Estudo inédito feito pela Artemisia (organização sem fins lucrativos que trabalha no fomento de negócios de impacto social no Brasil) e pela Gerdau, a Tese de Impacto Social em Habitação aponta desafios do setor e mostra que há espaço para que a iniciativa privada consiga empreender e gerar impacto positivo para a população em situação de vulnerabilidade social.

“Há mais de dez anos tentamos fomentar inovações e vemos que, historicamente, a habitação sempre foi um tema com menos quantidade de empreendimentos e negócios”, explica Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia e colaboradora do Estadão PME.

A base de dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) corrobora a tese de Maure. Atualmente, são apenas 143 construtechs e 99 proptechs - startups que atuam nos setores de construção civil e imobiliária, respectivamente - associadas à instituição. Entre os 45 setores mapeados para a atuação de startups no Brasil, elas também não têm tanta prioridade: as construtechs aparecem na 18ª posição e as proptechs, na 24ª, enquanto segmentos como educação, finanças e saúde e bem estar encabeçam o ranking.

Um levantamento elaborado pela Construtech Ventures, primeira fomentadora de startups do setor de construção civil e imobiliária do País, mapeou 500 startups da área no Brasil, divididas em nichos como captação de recursos, gestão da obra e redução e destino de resíduos. Para o economista Bruno Loreto, um dos fundadores da Construtech Ventures e que, neste ano, criou a Terracotta Ventures, para investir no setor de construção e mercado imobiliário de startups, o setor é promissor.

“Ainda há muito espaço para a aplicação de soluções de base tecnológica e tem muita oportunidade no setor de impacto social no ambiente construtivo, considerando que o Brasil tem uma grande população em condições não dignas de moradia.”

Se o número de iniciativas já é considerado baixo, o cenário ainda é mais carente para as construtechs e proptechs de impacto social, ou seja, que pretendem solucionar necessidades da população em situação de vulnerabilidade econômica. Na contramão, a demanda é grande: o déficit habitacional do Brasil cresceu 7% em dez anos e atingiu sete milhões de unidades habitacionais em 2017, de acordo com um levantamento feito pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). Já a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do IBGE, apontou que, no mesmo ano, 27 milhões de pessoas (13% da população) viviam em domicílios inadequados. Da população com renda inferior a R$ 406 por mês, 28% tinha ao menos uma inadequação, contra 13% em relação à população em geral.

Para Maure, o desafio do empreendedor é criar um modelo de negócio que atenda de forma acessível o público de baixa renda e seja rentável, já que negócios de impacto social possuem modelos de precificação e objetivos de sustentabilidade financeira e rentabilidade. “O mercado está crescendo, mas ainda é o setor onde mais temos dificuldades para encontrar iniciativas que tenham nascido com essa missão, façam um trabalho sério e gerem lucro”, diz a cofundadora da Artemisia, que desde 2012 realizou sete teses, em áreas como saúde, educação e mobilidade. Até o fim deste ano, é prevista a tese sobre empregabilidade.

Confira a seguir exemplos de negócios de impacto social mapeados no setor.

Lazer em espaços públicos

Os nove desafios do setor de habitação apontados pela tese vão além de apenas garantir o direito à moradia e também englobam oportunidades para desenvolver negócios como qualificação dos espaços públicos e desenvolvimento local, soluções financeiras para a habitação, acesso e eficiência a serviços básicos e reformas populares.

Uma das iniciativas apontadas como exemplo é a EreLab, que cria mobiliários urbanos lúdicos para potencializar o desenvolvimento cognitivo e psicomotor de crianças e fortalecer o respeito ao espaço público da vizinhança. “Os parques e espaços públicos estão completamente ligados à saúde e à educação. A nossa missão é o resgate da criança com a cidade para poder despertar nela a cidadania”, aponta a artista plástica Helo Paoli, que criou a empresa em 2014 ao lado de Roni Hirsch. 

O modelo de negócios da startup é a triangulação entre a iniciativa privada, a gestão pública e as comunidades, com a criança no centro. “Nós fazemos a interface entre os três atores para conseguir que a iniciativa privada aporte, a gestão pública ceda o local e a comunidade seja beneficiada com um lugar de lazer para estimular a convivência e a qualidade de vida”, explica Helo. Em cinco anos de empresa, eles já construíram 24 espaços em sete Estados.

Reforma para a baixa renda

Outras oportunidades levantadas pela Tese de Impacto Social em Habitação, desenvolvida pela Artemisia, são as de negócios que propõem a reforma de moradias e criem soluções financeiras para famílias de baixa renda comprarem ou reformarem suas casas. Nesse sentido, os sócios Fernando Assad, Marcelo Coelho e Igiano Lima criaram, em 2014, o Programa Vivenda, negócio social que oferece soluções para famílias de baixa renda acessarem reformas de qualidade.

A startup faz a reforma completa de cômodos - banheiro, cozinha, área de serviço, sala e quarto - passando pela arquitetura do projeto e incluindo a mão de obra, o material, a entrega e o financiamento da obra.

“Nós vimos que não existia solução de financiamento no mercado e lançamos a primeira debênture de impacto social do Brasil que tem como motivação exclusiva financiar as reformas da Vivenda”, explica Fernando.

A startup captou R$5 milhões para financiar oito mil reformas. Para as famílias de baixa renda que podem pagar pelo serviço, eles financiam até R$ 11.500, parcelados em até 30 vezes. Quem não pode arcar com o valor recebe a reforma de graça e ela é paga por fundações e institutos filantrópicos. A startup atende da classe C à classe E, já fez mais de 1.600 reformas e faturou R$ 2,5 milhões em 2018.

​Pelo fim do desperdício

Criada em 2014 pelos sócios Marília Lara e Antonio Oliveira, a startup Stattus 4 desenvolveu um sistema de detecção automática de vazamentos de água em rede e ramais de distribuição. Por meio de inteligência artificial, o dispositivo capta amostras, analisa dados e classifica um possível vazamento.

A iniciativa tenta sanar um dos gargalos identificados pela tese: a necessidade de possibilitar acesso a alternativas de qualidade para os serviços básicos, gerando consumo consciente e redução de custos. Com atuação em 26 cidades, o faturamento previsto pelos sócios para este ano é de R$ 2 milhões.

“Quando falamos de perda de água, estamos falando de vazamentos. E parte deles acontece nos últimos dez metros de distribuição, entre a rua e a casa”, explica Marília. De acordo com um estudo publicado pelo Instituto Trata Brasil, o País desperdiça 38% de água potável ao ano durante a distribuição. Além do consumo consciente, o sistema permite reduzir gastos excessivos com a conta de água

A iniciativa não presta serviço diretamente ao consumidor final, mas às distribuidoras de água e aos prestações de serviços dessas distribuidoras. “Levando tecnologia que favoreça a distribuição de água de forma mais racional, fazemos com que os investimentos em saneamento sejam feitos de forma mais inteligente e, com isso, sobra dinheiro para atuar nas áreas de vulnerabilidade e levar saneamento básico para as pessoas”, diz Marília. 

Os desafios e as oportunidades apontados pela tese

#1 | Soluções financeiras para a habitação

#2 | Regularização fundiária

#3 | Aluguel acessível para moradia adequada

#4 | Reformas habitacionais e assistência técnica

#5 | Gestão de condomínio de habitação social

#6 | Acesso e eficiência a serviços básicos

#7 | Qualificação dos espaços públicos e desenvolvimento local

#8 | Capacitação e oportunidades para profissionais da construção civil

#9 | Inovações em processos e materiais da construção civil

 

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