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Negócios de Cannabis enfrentam lei restritiva e buscam mercado fora do Brasil

Enquanto Legislativo discute a plantação no País, empreendedores vão para Europa, Canadá e Uruguai; além de fins medicinais, empresas miram nichos de bem-estar sexual e turismo

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 05h00

No início de junho, foi aprovado em Comissão Especial da Câmara o projeto de lei que autoriza o cultivo da planta Cannabis sativa no Brasil, para fins medicinais, veterinários, científicos e industriais. Enquanto o Legislativo ainda discute a possibilidade da plantação, as empresas criadas por brasileiros dentro do chamado cannabusiness encontram mercado fora do País, em locais onde a produção e a venda de produtos a base de Cannabis são permitidos para além do uso medicinal.

Desde 2019, a legislação do País permite apenas a importação e a produção de itens a partir da planta (a mesma que origina a maconha) para fins medicinais. O cultivo em solo brasileiro só é permitido em casos decididos por liminar. O que está em jogo agora no Brasil é o plantio por pessoas jurídicas, como empresas, associações de pacientes ou organizações não governamentais. O projeto de lei 399/15 não prevê o cultivo individual; itens como cigarro, chás e outros derivados seguem proibidos, mesmo que o PL seja aprovado.

Segundo especialistas, há cerca de 25 mil itens que podem ser produzidos a partir da planta Cannabis nos países em que o mercado é regulamentado. O setor é visto também como lucrativo para quem empreende nele. Em 2018, o mercado global de Cannabis movimentou  US$ 18 bilhões, segundo a consultoria norte-americana New Frontier Data, especialista no tema.

No Brasil, os empreendedores do cannabusiness acabam indo por dois caminhos. Uma opção é estabelecer seu negócio nas bordas do mercado, investindo em serviços auxiliares, como consultorias para empresas que atuam no setor ou na importação de medicamentos a base de Cannabis. Para quem quer atuar diretamente com a planta, a alternativa tem sido levar os negócios para o exterior.

A INTT, marca brasileira de cosméticos, atua no setor brasileiro de bem-estar sexual desde 2007, mas foi em 2019, quando expandiu o negócio para a Europa, que a empreendedora Stephanie Seitz viu oportunidade no cannabusiness. Desde então, todos os produtos seguem sendo produzidos em São Paulo, onde Stephanie mora, com exceção da linha que contém Cannabis, fabricada em Portugal e vendida para países como Alemanha, Espanha e Rússia.

Entre os 30 produtos vendidos na Europa estão os dois itens que são feitos a base de Cannabis: um lubrificante criado com óleo da semente do cânhamo e um gel vibratório que contém THC (Tetra-hidrocanabinol) e CBD (canabidiol), que atuam como estimuladores de prazer. Só os dois produtos representam 17% do faturamento da empresa.

 

“Para a gente, o projeto de lei aprovado do jeito que está não provoca uma diferença direta. A área de cosméticos ainda não está contemplada nele, mas uma possível aprovação seria um grande avanço, porque vamos ter condições de começar a debater essa questão da produção e, quem sabe, incluir a área de cosméticos dentro de uma adequação do projeto”, explica Larissa Uchida, fundadora da Kali, empresa que distribui os produtos da INTT Cosméticos no Brasil. 

Pós-graduada em Cannabis medicinal, Larissa também tem outros dois negócios no cannabusiness: uma empresa voltada para a capacitação de profissionais que atuam no setor, a Open Green, e uma agência de viagens que leva brasileiros para conhecer países onde o cultivo e a venda de Cannabis é legalizada, a Micasa 420.

“Existem pacotes pré-selecionados que são bastante procurados, como os estados legalizados nos Estados Unidos e o Uruguai, o que mais tem procura. Todos os anos, o Uruguai sedia a Expocannabis, uma feira sobre o tema.” Por causa da pandemia, em 2020 a empresa não lançou pacotes, mas Larissa conta que, em 2019, o crescimento foi de 300% em relação ao ano anterior.

“O nosso cliente é muito heterogêneo. No último grupo que levamos, a pessoa mais nova tinha 18 anos e a mais velha 78. Tem gente que vai porque quer conhecer a cultura de um país legalizado, outros vão pela curtição. E muita gente vai para se consultar lá, para conhecer como é uma farmácia onde se comercializa a erva.”

De olho no Uruguai e no Canadá

Para se desenvolver no Brasil, onde não há incentivos governamentais para o setor, é comum que as empresas do cannabusiness procurem por programas de aceleração. Um deles é promovido pela The Green Hub, empresa formada por cinco sócios e que opera com inteligência de dados, consultoria e aceleração no mercado da Cannabis. No início, o negócio focava apenas no fomento à parte medicinal, mas hoje o foco é na visão global da planta. 

“Não vejo o Brasil próximo de avançar com esse projeto de lei nem preparado para isso. Então há outras formas para movimentar esse mercado antes do cultivo ser permitido e fazê-lo crescer”, destaca Marcelo De Vita Grecco, co-fundador da The Green Hub.

Na última chamada de aceleração, realizada este ano, a aceleradora recebeu inscrições de 52 negócios e escolheu quatro deles para integrar o seu portfólio, que, no total, abarca nove empresas. Uma das escolhidas é a The Dogon’s, startup brasileira com foco no desenvolvimento de tecnologia e soluções para o mercado mundial da Cannabis.

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O negócio é desenvolvido pelos sócios Taysa Daudt, Caio Stephan e Matheus Salatiel, que pretendem ir para fora do Brasil para desenvolver o MVP (mínimo produto viável). A primeira linha terá quatro produtos: uma suspensão líquida solúvel em água, sucos e chás; comprimidos probióticos efervescentes; um blend em pó para aplicação na indústria de bebidas, alimentos, cosméticos e farmácia; e pedaços de frutas e vegetais transformados em superalimentos. Todos os produtos serão fabricados em três concentrações de CBD: baixa, média e alta.

“A tecnologia já foi colocada no papel, agora, a gente vai buscar investidores para desenvolver o projeto no Uruguai ou no Canadá. Vamos para fora do País, porque não temos nada parecido hoje no mercado nacional. No Brasil, é muito complicado, desde a pesquisa até o acesso à matéria-prima”, conta Taysa.

A ideia da empresa surgiu quando a filha de Taysa, na época com dois anos, foi diagnosticada com o Transtorno do Espectro do Autista (TEA). “Eu tentei uma série de terapias, recebi uma lista imensa de medicação, que deram efeitos colaterais devastadores. Então, recebi a doação do óleo de Cannabis e resolvi experimentar. Três dias depois, a minha filha parecia outra criança, desde a socialização até o sono”, conta. 

Ainda que se apresentem em formas diferentes do que as medicações a base de Cannabis mais tradicionais, o foco da The Dogon’s é o mercado medicinal, portanto os produtos terão que ser prescritos por médicos especializados. 

“Não tem processo de vaporização neles. A nossa ideia é inserir os canabinóides em produtos que as pessoas já conhecem. São formas menos estigmatizadas para as crianças”, explica Taysa.

A expectativa dos empreendedores é que, com a regulamentação e legalização do plantio da Cannabis no Brasil, eles possam mirar também o mercado nacional e reduzir o custo final para o consumidor. 

“Poder cultivar no Brasil já reduz bastante o custo. É lamentável ver as dificuldades que as pessoas passam. Um salário mínimo de pouco mais de R$ 1 mil e a medicação custando R$ 3 mil. É legalizado, mas para quem? Para mim, seria impossível trazer o óleo de Cannabis para a minha filha.” 

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