Mundo corporativo ainda representa desafio para os homossexuais

Oportunidades e desvantagens do publico LGBT no mercado de trabalho atual são discutidas

Gustavo Coltri, O Estado de S. Paulo,

18 de julho de 2011 | 18h46

 Nunca os homossexuais estiveram tanto em evidência. A última Parada do Orgulho Gay reuniu milhões pessoas mesmo embaixo de chuva, a TV mostrou o primeiro beijo lésbico em mais de 50 anos e o Supremo Tribunal Federal finalmente reconheceu a união entre pessoas do mesmo sexo. As saídas do armário são cada vez mais comuns, e o bom momento para o público LGBT é inegável. Mesmo com o vento a favor, assumir claramente a orientação sexual é um bom negócio no mercado corporativo atual?

Nem sempre, de acordo com a experiência do administrador Andrey Torres em um grande banco brasileiro. "Trabalhei na área de cobrança e de crédito como terceirizado. Na época, concorri a uma vaga de analista, mas o gestor do banco, nosso cliente, disse que não me queria porque eu era gay."

Torres deixou a companhia em março depois de três anos e hoje se dedica à administração de um negócio familiar - uma farmácia de manipulação na zona sul de São Paulo. "Tenho amigos homossexuais que não assumem com medo de perder o emprego."

Y é gerente-geral de uma agência bancária e também não consegue ascender profissionalmente por causa de sua orientação sexual. O profissional de 35 anos também se sente constrangido com as insinuações de seu superior. "Ele faz comentários a meus funcionários como: ‘vocês gostam dele porque ele é um paizão, ou melhor, uma mãezona!’." Y registrou inutilmente queixa no canal de reclamações da empresa, que mantém medidas de conscientização. "Estou procurando outras instituições para trabalhar e já avisei o órgão de proteção dos bancários que pretendo fazer uma denúncia."

Em maio, uma pesquisa realizada com 400 profissionais de recursos humanos pelo site de empregos Trabalhando.com mostrou que 54% do entrevistados acreditavam na existência - ainda que velada - de preconceito contra homossexuais nas organizações.

Para Fabiane Leonel, analista de recursos humanos de uma multinacional, a abertura ou restrição a gays nas empresas depende da cultura de cada organização, mas a especialista reconhece obstáculos. "Para alguns cargos, como, por exemplo, representação comercial na área externa, é preciso ter uma postura mais formal. Um homem muito afeminado ou com muitos trejeitos pode ter dificuldades em uma seleção."

Na opinião de Othamar Gama Filho, consultor em gestão de pessoas da Recruiters, o preconceito é mais prevalente em segmentos de mercado tradicionais. "Acontece, por exemplo, em profissões como o direito, mas temos visto grandes empresas que não fazem distinções." Segundo ele, medidas no sentido de coibir a discriminação ainda são falhas entre as empresas brasileiras. "As companhias também precisam sair do armário. Devem mostrar suas opiniões e seus valores, com cartilhas, manuais de conduta e ações de comunicação."

A adoção de um código de ética foi a alternativa da empresa aérea Gol na tentativa de evitar ações discriminatórias: "Está claro no código que a companhia não admite qualquer comportamento que possa criar um ambiente agressivo, intimidador ou ofensivo", declarou em nota. A Gol também promove seminários de conscientização.

Outro lado

Douglas Drumond, presidente da ONG Casarão Brasil, ligada ao movimento LGBT, não vê dificuldades aos homossexuais no mundo corporativo e acredita que a orientação sexual até pode ajudar. "O gay tem uma valorização em empregos como comissário de bordo, pelo perfil. A facilidade de viagem e a falta de família são apenas dois exemplos." Para a consultora em gestão de pessoas Karin Parodi, da Career Center, a homossexualidade é vista com naturalidade nas empresas. "É um tema cada vez mais desmistificado."

Apesar dos avanços, todos veem dificuldades para travestis e transexuais. "Há uma resistência enorme", diz Fátima Pando, técnica do Programa Operação Trabalho da Prefeitura de São Paulo, que mantém um projeto para a inserção de homossexuais de baixa renda no mercado. Atualmente, 19 dos 20 beneficiados são travestis. "Já viu algum num escritório? Eu nunca", lamenta Drumond.

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