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Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Mulheres se destacam no comando de empresas familiares pela primeira vez

Após décadas sendo chefiados por homens, negócios como Piccadilly e Rayflex ganham figura feminina na liderança; com empreendedoras, mudanças incluem mais cuidado com equipe

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2021 | 14h00

Quando Almiro Grings, fundador da Piccadilly, se tornou avô pela primeira vez, foi de uma menina. Na segunda vez, também. Consternado, ele manifestou a preocupação sobre os rumos da empresa que havia criado em 1955: quem vai tomar conta do negócio? Afinal, tradicionalmente, as sucessões eram de pai para filho. Por seis décadas, a companhia foi comandada somente por homens, até que em 2015 Cristine Grings Nogueira quebrou a tradição. Da terceira geração da família, ela se tornou a primeira mulher na presidência. “Meu avô estaria muito orgulhoso”, diz.

Infelizmente, ele não viveu para ver esse progresso da marca gaúcha de calçados femininos, que hoje conta também com mulheres na vice-presidência e na diretoria financeira. O fato inédito se assemelha a pelo menos outras duas histórias: da Daniela Pereira, primeira mulher a comandar o tradicional restaurante Rei dos Galetos, no centro do Rio, e da Giordania Tavares, que também estreou como figura feminina na diretoria executiva da Rayflex, companhia paulista que fabrica portas industriais.

Mulheres em cargos de liderança ainda é cenário raro em empresas de todo o mundo. Embora haja avanços, eles ocorrem a passos lentos. O relatório Women in Business 2020, realizado pela Grant Thornton International com organizações de médio porte, mostra que a porcentagem de mulheres em cargos executivos é de 29%, mesmo patamar do ano anterior. Em 2018, elas eram 24%. No Brasil, a situação é um pouco melhor: 34% dos cargos de liderança são ocupados por elas e o País ocupa a oitava posição no ranking composto por 32 países.

Em um mercado de trabalho que impõe às mulheres, direta ou indiretamente, barreiras para assumirem postos mais altos, elas precisam se posicionar cada vez mais para serem reconhecidas além do estereótipo de gênero. No caso de empresas familiares, o desafio está, também, em mudar o senso comum de que só estariam ali por serem filhas do dono.

“O setor calçadista feminino, na prática, é liderado na maioria por homens, tanto na indústria quanto no varejo. Inevitavelmente, esse preconceito existiu e foi potencializado por eu ser mulher e jovem, pois assumi com 34 anos”, relata Cristine. Porém, movida a desafios, ela encarou isso como um motivador. “Ser bem-sucedido no mundo dos negócios não está ligado a gênero, mas sim a profissionalismo, dedicação e entrega. Ser homem ou mulher não é premissa para ser bem sucedido.”

Daniela estava com 27 anos quando decidiu deixar os trabalhos em arquitetura para assumir o negócio da família, tornando-se sócia. Do atendimento ao serviço às mesas e na negociação com fornecedores do restaurante, ela lida o tempo todo com homens. “Principalmente por ser no centro do Rio, lugar de business, muito mais masculino, às vezes os clientes já na porta olhavam de uma maneira diferente, não sei se era preconceito por ser mulher ou ser uma mulher nova.”

Ela nunca encarou situações explícitas, mas a sutileza do olhar já era um incômodo. “Eu queria me provar, mas na verdade foi uma escolha mesmo. Senti muito no começo esse preconceito de ‘está aqui por ser filha do dono’”, relembra a arquiteta de 33 anos.

Giordania também encara, de forma sutil, o preconceito de ser mulher em um segmento técnico. Ela, inclusive, é a única entre seus competidores diretos. “Sempre me posicionei, não por ser mulher ou homem, mas mostrando que somos capazes, que temos conhecimento técnico. Me posiciono até ser igual ou maior do que eles”, diz a diretora executiva, de 43 anos.

Além desse aspecto em comum, as três histórias comprovam que ter figuras femininas no comando ajuda a promover mudanças positivas no negócio, principalmente na abertura ao diálogo com as equipes.

Mulher no comando: acolhimento da equipe

Não se pode negar as décadas de liderança masculina que fizeram a Piccadilly, o Rei dos Galetos e a Rayflex chegarem aonde estão, mas um ponto peculiar se destaca. Nos três casos, elas promoveram escuta e acolhimento. Engajar funcionários e colaboradores, ouvi-los e torná-los parte do processo melhorou a qualidade do trabalho - e isso era pouco ou nada praticado antes delas.

“Dou liberdade e autonomia à equipe. Todo mundo sabe o objetivo de todos”, diz Giordania, à frente de empresa que tem mais de 30 anos no mercado. “Quando você fala com propriedade e tem troca de conhecimento, o fato de ser mulher fica em segundo plano.”

Mas ela reconhece que essa aproximação ocorreu após sua ascensão. “As organizações ganham quando colocam uma mulher na diretoria executiva ou na presidência, porque a mulher coloca essa sensibilidade de trazer a equipe para perto, de ouvir todo mundo, algo que os gestores masculinos têm mais dificuldade”, justifica.

Desde que assumiu, ela promoveu uma profissionalização da empresa, buscando no mercado pessoas que pudessem agregar conhecimento interno e no setor de vendas. A companhia também passou a trabalhar com planejamentos de médio e longo prazos, sempre engajando a equipe.

No Rei dos Galetos, com quase 54 anos de história, Daniela aproveitou seu conhecimento em arquitetura para, em 2017, fazer uma atualização do restaurante, deixando-o mais atrativo e acolhedor às mulheres. A reforma incluiu transformar assentos antes desconfortáveis para elas em mesas com cadeiras e colocar um gancho embaixo da mesa para apoiar a bolsa.

“Hoje, 40% do nosso público é feminino, tem grupos inteiros de mulheres vindo.” Também houve um treinamento com a equipe para humanizar mais o atendimento e deixar os funcionários mais à vontade no trabalho. “Antes, era calça social e gravata borboleta. Mudou para calça jeans, tênis e avental com camisa social. Eles adoraram”, conta.

Já na Piccadilly, Cristine, de 40 anos, deu ênfase maior no olhar às pessoas. “Eu tinha consciência de que só por meio delas eu faria qualquer processo de transformação. As pessoas tinham de estar engajadas e é muito importante que elas se sintam parte do processo”, explica. Desde que assumiu, em 2015, houve reposicionamento da marca, com propósito de encorajamento feminino, mais rejuvenescida e valorizada, além da entrada no setor de franquias e aceleração de internacionalização.

Trajetórias de resistência, dúvidas e decisões

Justamente por não querer ser vista como a filha do dono, Cristine omitiu suas origens quando começou a fazer estágio na Piccadilly, época em que cursava Publicidade. “Eu não queria que as pessoas tivessem preconceito ou receio de me receber”, conta. Mas era um desejo dela conhecer o processo fabril, assim como outras pessoas da família fizeram. “Eu só dizia que era estagiária do curso da faculdade. Isso facilitou a aceitação das pessoas e a possibilidade de eu me integrar.”

Ela não pensava, porém, em seguir trabalhando no negócio da família. Decidida, construiu sua carreira na área de formação: fez outro estágio em publicidade, um MBA em marketing, intercâmbio, chegou a trabalhar em um banco e, aos 21 anos, tornou-se sócia de uma agência de publicidade e propaganda. Cristine não sabia, mas a vida já a estava preparando para o cargo de liderança. “Tive muitos desafios, aprendi muitas coisas técnicas da minha área e muito sobre lidar com pessoas, ser empresária.”

Mas a Piccadilly estava no sangue, ela diz, e até o case que precisou construir no MBA era sobre a empresa da família. Ela se rendeu a esse fato quando, aos 24 anos, aceitou o convite do tio, então presidente, para assumir a gerência do setor comercial e marketing da empresa. “Ao viver experiências fora da Piccadilly, diferente do sentimento que tinha, eu consegui buscar bagagem para chegar ali. Isso me deixou mais segura, porque as pessoas enxergam o que eu tenho algo a agregar.”

Três anos depois, Cristine tornou-se gerente do setor e, aos 34, presidente da companhia, dentro de um processo de sucessão que já vinha se desenhando. “Essa decisão acabou acontecendo por parte da terceira geração, que me escolheu para assumir a presidência. Foi uma validação de todo o trabalho que fiz até aquele momento.”

A resistência declarada de Cristine não fez muito parte da realidade de Daniela Pereira, uma vez que ela decidiu assumir o Rei dos Galetos há seis anos. Mas dúvidas pipocaram na cabeça. “Ao mesmo tempo que eu queria, me perguntava se era isso mesmo, porque foi uma mudança muito radical. Mas algo dentro de mim falava o que tinha de fazer, senti que nasci para agregar valor a isso e continuar escrevendo nossa história”, diz.

Formada em arquitetura, ela foi entrando aos poucos no negócio da família. “Foi desafiador”, resume. Atuou no salão, com atendimento e servindo os clientes. Por não ter a sabedoria e experiência dos homens que já haviam comandado o restaurante, Daniela foi tentando construir seu lugar, ainda que muitas vezes não fosse escutada.

“Eu era a única mulher, filha do dono, trabalhando com homens muito mais velhos, em um restaurante no centro do Rio, tradicionalmente de homens e negócios. Aos poucos, naquele trabalho do dia a dia, consegui perceber que eles paravam e começavam a me ver como parte da equipe, que agrega valor. Tive de ganhar o respeito deles”, relata.

Mas para conquistar esse respeito, Daniela teve de pensar, inclusive, em mudar seu modo de vestir. “No escritório de arquitetura, eu estava acostumada a ir com saia, aí vim para o centro da cidade e não me sentia confortável. Colocava calça jeans, camisa, para estar dentro do contexto, por medo de ser mal interpretada. Sendo mulher, sempre pensava em me provar, mas sabia que sou boa porque sou.”

Assim como Cristine e Daniela, saber que está na liderança do negócio da família por competências próprias e carreira trilhada até ali é característica também de Giordania Tavares. Ela trabalha há mais de 25 anos na Rayflex, empresa fundada pelo pai, tendo iniciado na área administrativa. Em 2014, assumiu como diretora executiva e segue focada em empenhar seus esforços e conhecimentos para os bons resultados da companhia.

“Nunca pensei na empresa como familiar. Sempre pensei em trabalhar e fazer ela dar resultado, levá-la para um patamar como grande player no mercado, independentemente de ser familiar ou não. Sou profissional com formação acadêmica e tive desenvolvimento para liderança, negociação, para ser empresária. Então, na minha cabeça, sempre foi ser uma boa gestora para ter bons resultados”, conta Giordania.

Ela cresceu em um ambiente que já a preparava para os negócios. Além de ver o pai trabalhando e acompanhá-lo na empresa desde os 14 anos, ela viu tias sendo líderes comunitárias e financeiramente independentes. Também presenciou os tios à frente dos pequenos empreendimentos. O caminho estava tão trilhado que o patriarca queria que ela cursasse Administração e reclamou quando ela optou primeiro por Engenharia. “Depois fui fazer Administração e decidi que ia assumir a gestão da empresa.”

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