Mercado da moda entra na era da inovação aberta

Mercado da moda entra na era da inovação aberta

Proposta é deixar de lado as grandes marcas e ligar pequenos agentes do setor com o consumidor

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2016 | 06h00

O processo de produção e de venda no mercado da moda está em transformação e no que depender de um grupo crescente de pequenos empreendedores, trata-se de uma mudança irreversível. Estrangulados pela cadeia tradicional, dominada pelas grandes corporações, esses criadores buscam eliminar dependências por meio de um modelo colaborativo de trabalho. 

O sentido traçado por esse movimento passa pelos coworkings, ou espaços compartilhados, que moldam sua estrutura com mesas de corte, máquinas de costura, manequins e rolos de tecido para receber os empreendedores. A ideia é atrair o máximo de agentes, o que vai na contramão da produção clássica da moda, que mantém as coleções secretas até o lançamento.

A restrição à produção coletiva não existe mais para os residentes do Lab Fashion, primeiro coworking de moda de São Paulo. Criado pelos empresários Diogo Hayashi e Fabio Uehara, o espaço deve entrar em 2017 ampliado para abrigar o dobro da capacidade atual, que é de 30 pessoas. Com isso, eles esperam duplicar também o faturamento, que deve ser de R$ 25 mil em dezembro. 

A ideia de criar o espaço apareceu a partir de uma percepção pessoal de Fabio Uehara, que trabalhava com compra e venda de roupas de confecções para pontos de venda. Em duas ocasiões, ele não se viu atendido por uma grande rede com que trabalhava e decidiu excluí-la do seu fluxo de trabalho. 

“Eu não sabia o que queria fazer, mas não podia desperdiçar minha expertise em moda. Eu queria, depois desse trauma, repensar o consumo. Sei que é tímido o que estamos fazendo, mas é uma semente”, explica Uehara. “Não sei se é quixotesco ou não, mas tem um pouco de sonho aí, de transformar a sociedade”, reflete. 

O movimento no Lab Fashion é intenso desde a manhã, quando chegam os primeiros residentes. As fitas métricas são os itens mais procurados e perdidos pelos modelistas ao longo do dia, e é possível encontrar alguns deles recortando tecidos até por volta das três da manhã.

“Os profissionais que nos procuram já têm uma certa rodagem. São pessoas da área que estão cansadas de ter um ateliê trancado em casa. As coleções fechadas já não fazem mais sentido, eles querem ter contato com gente, compartilhar, colaborar”, define Diogo Hayashi. Dividir um espaço no coworking custa ao empreendedor R$ 604 ao mês, ou R$ 25 a diária. O plano da dupla é, no futuro, transformar o conceito em franquia. 

Justo. Para a carioca Letícia Magalhães, uma das criadoras do coworking Malha, o consumo ‘justo’ é o novo pretinho básico do guarda-roupa. Aliada a outros profissionais, ela injetou R$ 3 milhões para transformar um galpão em São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro, em um espaço que já abriga desde a criação até a venda online das coleções de pequenos empreendedores. Atualmente com 50 residentes, a empreitada faturou em novembro, o quarto mês de funcionamento, R$ 250 mil. 

“É um caminho sem volta. O mercado da moda, em si, precisa se adaptar. E não é só produzir de forma sustentável, é repensar o modelo de negócio”, reflete Letícia. “Quem ainda não se adaptou tem de correr atrás, porque o consumidor já não tem mais interesse na compra desenfreada”, analisa.

Atenta a essa guinada, a TexPrima, fabricante de tecidos famosa entre estilistas, decidiu também investir em um espaço colaborativo direcionado a pequenos criadores dentro da própria fábrica, na zona norte de São Paulo. “O pequeno empreendedor tem dificuldade em permanecer na cadeia da moda de forma competitiva porque ele não tem escala”, explica o responsável pela implementação do projeto Bruno Souza. A participação no coworking a partir do ano que vem será direcionada a produtores que estejam na cartela de clientes da TexPrima. “Nossa intenção é não perder as pequenas marcas e oferecer ferramentas para que elas cresçam”, conta Souza.

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