Hélvio Romero/Estadão - 15/01/2019
Hélvio Romero/Estadão - 15/01/2019

Moda do paisagismo e foco no consumidor fazem decolar negócios de plantas

Folhagens que invadem redes sociais impulsionam empreendedores com pequenas lojas em São Paulo, que também oferecem consultoria e acessórios

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2020 | 14h00

Catapultada pelas redes sociais, a jardinagem urbana é tendência de consumo entre jovens adultos de 19 a 35 anos, seja por estilo de vida, decoração ou potencial terapêutico. O comportamento das novas gerações e a visão repaginada do paisagismo em ambientes pequenos respalda o surgimento de novos negócios no setor. Na capital paulista, eles dividem espaço com cafés, escolas de botânica ou ocupam portinhas e garagens.

Empreendedores do ramo apontam que a busca online (experimente pesquisar #urbanjungle) e offline por plantas começou a se intensificar há uns sete anos. Em 2015, o Sebrae publicou uma cartilha com análises mercadológicas focadas nesse setor. O estudo já apontava para a rápida segmentação dos negócios, destacando o “varejo de arte”, que são as floriculturas pequenas que têm como diferencial o atendimento personalizado ao cliente com análise de consumo e preferências. A cartilha ainda destaca que esse é um consumidor ávido por novidades.

“Como começa uma moda de planta? No Pinterest e em sites de decoração”, diz Vanessa Guerreiro, da Botânica e Tal. A loja, que divide espaço com um café no centro de São Paulo, teve início dentro de casa, mais precisamente na tela do celular. Vanessa criou uma conta no Instagram com seis fotos e o nome da loja e logo percebeu que as imagens tinham repercussão.

Passou a frequentar a Ceagesp de São Paulo toda semana, pesquisando e fazendo relacionamento com produtores. Há um ano com o espaço físico inaugurado, Vanessa já vendeu plantas até para fora do Brasil.

“O cultivo de plantas virou um nicho que pode ir da decoração, fomentado por sites do segmento e redes sociais, ao colecionador. Tem pessoas que só cultivam monsteras (conhecida popularmente como costela de adão), por exemplo. Tem um cliente que vem à loja e só quer antúrios. Vai além da moda. É estilo de vida, objeto de desejo”, diz Vanessa.

A jornada de compra do cliente é o maior investimento desses negócios, que não são bem floriculturas, já que não trabalham com flores de corte ou arranjos florais. Além de focarem diferentes vertentes, como plantas para ambientes internos ou locais com pouca luz - como apartamentos -, a consultoria durante a compra e o acompanhamento no pós-venda são os trunfos dos empreendedores.

“O cliente tem um aconselhamento de jardinagem comigo. Ele leva a planta para casa sabendo como deve cuidar dela e onde ela deve ficar posicionada. O consumidor sai da loja com o meu telefone”, conta Marcella Santiago, criadora da Verdeiro Josephina, na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista.

Marcella, que já recebeu plantas de volta para recuperá-las de algum problema, conta ter feito cursos de botânica e jardinagem antes de abrir a Verdeiro. A loja, que acaba de completar um ano, está instalada em uma garagem. O local escuro é para chancelar o foco do negócio: plantas para ambientes com pouca luminosidade. Atualmente, são 120 espécies, como pilea peperomioides e begonia maculata (de R$ 30 a R$ 490).

Plantas, informações e acessórios

Seguindo a linha de experiência do consumidor, a Selvvva, uma das pioneiras em São Paulo, criou o blog Estufa da Selvvva com o objetivo de reunir informações sobre cuidados com as plantas, apresentação de espécies e dicas de ambientação.

Julia Rettmann, arquiteta e sócia da empresa, acredita que essa é uma oportunidade para fomentar o assunto e, por consequência, o mercado. No ponto de venda físico, Julia conta que a maioria dos vendedores são biólogos, o que dá segurança para os clientes. Julia e a sócia, Denise Yui, também arquiteta, estudaram jardinagem antes de iniciar o negócio.

Há quatro anos com as portas abertas no centro de São Paulo, a Selvvva também vende por e-commerce, que representa 20% do faturamento da empresa. Com cerca de 100 espécies na loja, os valores partem de R$ 5. “Existem vertentes que tratam as plantas como jóias. Nós queremos que elas sejam acessíveis, para que possam estar nas casas das pessoas”, acredita Julia.

A criação autoral de vasos e suportes em cerâmica, madeira e ferro é também uma forma de se diferenciar em relação às grandes redes ou mesmo entre os pequenos. Selvvva, Verdeiro Josephina e Botânica e Tal criam o design de peças e as confeccionam em parceria com ceramistas, serralheiros ou marceneiros.

Oportunidade para produtores

Com a tendência de consumo, surgem oportunidades também para os produtores, não apenas para varejistas. À frente da estufa da família em Holambra, cidade ícone do setor no interior de São Paulo, Celso Filipini Fontana é um deles.

Há décadas, a empresa focava em flores de corte como crisântemos e violetas, mas há cerca de dez anos Fontana começou a variar as espécies. Hoje, o carro-chefe da estufa é a peperomia scandens, folhagem que vai bem em vasos aéreos. Além disso, passou a cultivar variedades de hoya (conhecidas como flores de cera), como a hoya kerrii ou cacto coração.

Com 40 variedades da espécie, Celso já comercializa oito, que representa 20% da produção da estufa, mas 40% do faturamento, por conta de seu valor agregado.

Em outubro do ano passado, o produtor fez sua primeira venda de hoya para a rede de supermercados Carrefour. De acordo com ele, apostar nesse tipo de espécie não é algo corriqueiro em grandes redes, que focam em flores de corte. A venda, diz, sinaliza que as grandes também enxergam o potencial de consumo de plantas do tipo (cultivadas em vasos).

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