Mesada digital e cartão para criança são trunfos de startups para educação financeira

Pequenas empresas ensinam a poupar e investir com a ajuda da tecnologia; impulsionadas por novo currículo escolar, Tindin, Mozper e Finkids veem demanda crescer

Bruna Klingspiegel - O Estado de S.Paulo

Com o crescimento do número de endividados no Brasil, discutir sobre finanças desde cedo tem se tornado indispensável para incentivar bons hábitos e melhorar a relação dos brasileiros com o dinheiro. Obrigatória nas escolas desde 2020, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) implementou o ensino de educação financeira como tema transversal nas salas de aula. Diante desse cenário, a demanda impulsiona pequenas empresas como Tindin, Mozper e Finkids, que, aliadas à tecnologia, ensinam conceitos financeiros complexos de forma lúdica e gamificada para crianças e adolescentes.

Fundada em 2018 no Paraná, a Tindin Educação & Finanças é uma startup especializada em educação financeira para crianças que, por meio de aplicativos voltados às famílias ou às escolas, explica na prática conceitos relacionados a dinheiro, consumo, empreendedorismo e investimento.

O que começou como uma necessidade familiar logo se transformou em uma oportunidade de negócio, conta Eduardo Schroeder, CEO e fundador da empresa. Com 3 anos, seu filho passou por alguns problemas relacionados ao consumismo infantil. Nesse período, ele começou a pesquisar sobre educação financeira e colocou em prática o conceito de mesada educativa. “Ele começou a ganhar uma ‘semanada’ e tinha que poupar até ter o suficiente para comprar o que ele queria”, conta o empreendedor.

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Com a necessidade de consumo do filho também evoluindo, veio a ideia do primeiro produto da Tindin em 2018: uma carteira digital de mesada educativa. “Um dia ele chegou pra mim e disse: ‘Pai, quero comprar seu cartão de crédito, no videogame não aceitam minhas moedas’”, recorda-se.

Eduardo Schroeder (à esq.) e Fábio Rogério, sócios da Tindin, que ensina educação financeira para crianças por meio de mesada digital e metaverso educacional. Foto: Matheus Lopes Rodrigues

Com foco exclusivamente educacional, a plataforma pode ser usada pelos pais para controlar os gastos dos filhos e ajudá-los a poupar. Em sua primeira versão, o aplicativo trabalhava com dinheiro real e transações financeiras, mas os sócios decidiram focar exclusivamente na sua funcionalidade educativa. "Todo dinheiro que tem lá é lúdico. A criança vai poupando o valor e, quando ela quer resgatar, aciona o SAC e o pai entrega o valor para ela”, diz.

Com a educação financeira obrigatória nas salas de aula, em 2020 a startup lançou sua primeira plataforma gamificada para as escolas. Em um ambiente virtual, os alunos se tornavam moradores de uma cidade e gerenciavam sua vida financeira, como em um jogo de tabuleiro, com compra e venda de casas, por exemplo. 

Com a pandemia, o contexto mudou. Por mais que fosse necessário cumprir as diretrizes da BNCC, dentro das escolas a prioridade também era sobreviver e conseguir atender o modelo de educação remota. “Nós pensamos: e se em vez de colocar a educação financeira dentro das disciplinas, colocássemos todas as disciplinas dentro da educação financeira? Foi aí que surgiu nosso metaverso”, conta.

A plataforma multidisciplinar se tornou um ambiente virtual de aprendizagem, em que os professores podem colocar os seus conteúdos educacionais e criar trilhas de aprendizado para qualquer disciplina. O aluno se transforma em um personagem e tem que se alimentar, se vestir, escolher onde morar e realizar atividades para ganhar dinheiro, como assistir a uma aula ou responder algum questionário.

“Com isso a gente começa a simular aspectos que envolvem o consumo por necessidade e o consumo por desejo, por exemplo. Lá dentro eu posso comprar uma roupa que me vista, mas eu posso comprar uma roupa mais cara, porque ela é mais bonita e tem um impacto envolvido. Apesar de ser dinheiro fictício, tem tudo a ver com o conceito de administração das finanças”, comenta o empresário, que está prestes a lançar a versão do metaverso familiar. “Eu costumo dizer que a educação financeira não é só sobre dinheiro, é sobre recursos. Quando você ensina a criança a lidar com isso, ela vai aprender a lidar com o dinheiro, com o tempo e com o talento.”

Conta digital e cartão de débito para criança

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) realizada em abril deste ano identificou o maior nível de endividamento desde 2010: o número de lares brasileiros com dívidas alcançou 77,7% das famílias. O mesmo levantamento mostrou o cartão de crédito como um dos maiores vilões da saúde financeira nesse mesmo período, atingindo 87% dos consumidores.

Com o objetivo de mudar esse panorama, a Mozper chegou ao Brasil em janeiro de 2022 após dois anos operando no México. A plataforma de educação financeira ensina crianças e adolescentes sobre controle financeiro e como tomar decisões inteligentes quando o assunto é dinheiro.

Gabriel Roizner, CEO e cofundador da Mozper, com o cartão da startup na mão: autonomia das crianças. Foto: JP. Mubarah

No aplicativo, os jovens recebem um valor pela realização de tarefas estabelecidas pelos pais. Além disso, com um cartão de débito Visa, os responsáveis disponibilizam orçamentos específicos para cada categoria de consumo: 50% entretenimento e 50% alimentação, por exemplo. “Dar um cartão para uma criança não é educar financeiramente, você só está mudando a forma de pagamento do meio físico para o digital. Para nós esse aprendizado é uma consequência da repetição de atividades que simulam a criação de hábitos que envolvem o dinheiro”, explica Gabriel Roizner, CEO da Mozper.

Com mais de 50 mil usuários, a plataforma utiliza uma inteligência artificial para analisar os estabelecimentos e limitar os gastos no cartão conforme a renda disponibilizada por orçamento. “A gente quer que essa criança aprenda a ter uma relação boa com o consumo. Ela vai ter que pagar pelas coisas, mas ela sabe que se gastar tudo, depois ela vai ficar sem”, explica.

Outro exemplo voltado à educação financeira é a Finkids. A startup começou a tirar a sua ideia do papel em 2020 e, neste ano, passou pelo programa de aceleração da Bluefields. Com previsão de lançamento para outubro deste ano, o aplicativo deverá oferecer jogos e trilhas de aprendizado voltados a conceitos básicos de finanças pessoais, desde a origem do dinheiro até produtos de investimentos.

“A gente está focando muito na metodologia que vai ser aplicada. Trabalhamos com um time de psicopedagogas que estão nos ajudando a traduzir esses temas para que seja uma coisa mais lúdica e efetiva”, conta Lucas Silva, CEO da Finkids.

Consumo consciente 

Nunca é cedo demais para ensinar as crianças sobre dinheiro, diz Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin). Desde cedo, explica ele, as crianças aprendem sobre a funcionalidade do dinheiro na prática. Sendo assim, educar financeiramente ainda na infância possibilita a criação de uma relação saudável com o dinheiro. 

“Se você der duas moedas para uma criança e explicar que metade ela pode guardar para desejos a longo prazo e a outra parte ela pode gastar com balas e chocolate, isso vai moldar o comportamento dela e ensinar a importância de equilibrar desejos e necessidades, por exemplo.”

Nossos hábitos de consumo, segundo Reinaldo, são uma reprodução do que nossos pais, avós e bisavós faziam, sendo que a educação financeira nunca fez parte do cotidiano do brasileiro.

Um estudo realizado pelo Itaú Unibanco, em parceria com o Datafolha e a consultoria Box1824, constatou a relação negativa do brasileiro com o dinheiro -  97% dos entrevistados afirmaram ter dificuldade em lidar com as finanças, enquanto 46% preferem não olhar para o seu dinheiro por medo de fazer algo errado.

Para Eduardo da Tindin, o maior desafio nesse processo com crianças é envolver toda a família e quebrar tabus. “Aprender sobre finanças não é um bicho de sete cabeças. Não é sobre matemática ou sobre cálculos, é sobre mudança de comportamento e isso não envolve apenas a criança.”

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni

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Mesada digital e cartão para criança são trunfos de startups para educação financeira

Pequenas empresas ensinam a poupar e investir com a ajuda da tecnologia; impulsionadas por novo currículo escolar, Tindin, Mozper e Finkids veem demanda crescer

Bruna Klingspiegel - O Estado de S.Paulo

Com o crescimento do número de endividados no Brasil, discutir sobre finanças desde cedo tem se tornado indispensável para incentivar bons hábitos e melhorar a relação dos brasileiros com o dinheiro. Obrigatória nas escolas desde 2020, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) implementou o ensino de educação financeira como tema transversal nas salas de aula. Diante desse cenário, a demanda impulsiona pequenas empresas como Tindin, Mozper e Finkids, que, aliadas à tecnologia, ensinam conceitos financeiros complexos de forma lúdica e gamificada para crianças e adolescentes.

Fundada em 2018 no Paraná, a Tindin Educação & Finanças é uma startup especializada em educação financeira para crianças que, por meio de aplicativos voltados às famílias ou às escolas, explica na prática conceitos relacionados a dinheiro, consumo, empreendedorismo e investimento.

O que começou como uma necessidade familiar logo se transformou em uma oportunidade de negócio, conta Eduardo Schroeder, CEO e fundador da empresa. Com 3 anos, seu filho passou por alguns problemas relacionados ao consumismo infantil. Nesse período, ele começou a pesquisar sobre educação financeira e colocou em prática o conceito de mesada educativa. “Ele começou a ganhar uma ‘semanada’ e tinha que poupar até ter o suficiente para comprar o que ele queria”, conta o empreendedor.

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Com a necessidade de consumo do filho também evoluindo, veio a ideia do primeiro produto da Tindin em 2018: uma carteira digital de mesada educativa. “Um dia ele chegou pra mim e disse: ‘Pai, quero comprar seu cartão de crédito, no videogame não aceitam minhas moedas’”, recorda-se.

Eduardo Schroeder (à esq.) e Fábio Rogério, sócios da Tindin, que ensina educação financeira para crianças por meio de mesada digital e metaverso educacional. Foto: Matheus Lopes Rodrigues

Com foco exclusivamente educacional, a plataforma pode ser usada pelos pais para controlar os gastos dos filhos e ajudá-los a poupar. Em sua primeira versão, o aplicativo trabalhava com dinheiro real e transações financeiras, mas os sócios decidiram focar exclusivamente na sua funcionalidade educativa. "Todo dinheiro que tem lá é lúdico. A criança vai poupando o valor e, quando ela quer resgatar, aciona o SAC e o pai entrega o valor para ela”, diz.

Com a educação financeira obrigatória nas salas de aula, em 2020 a startup lançou sua primeira plataforma gamificada para as escolas. Em um ambiente virtual, os alunos se tornavam moradores de uma cidade e gerenciavam sua vida financeira, como em um jogo de tabuleiro, com compra e venda de casas, por exemplo. 

Com a pandemia, o contexto mudou. Por mais que fosse necessário cumprir as diretrizes da BNCC, dentro das escolas a prioridade também era sobreviver e conseguir atender o modelo de educação remota. “Nós pensamos: e se em vez de colocar a educação financeira dentro das disciplinas, colocássemos todas as disciplinas dentro da educação financeira? Foi aí que surgiu nosso metaverso”, conta.

A plataforma multidisciplinar se tornou um ambiente virtual de aprendizagem, em que os professores podem colocar os seus conteúdos educacionais e criar trilhas de aprendizado para qualquer disciplina. O aluno se transforma em um personagem e tem que se alimentar, se vestir, escolher onde morar e realizar atividades para ganhar dinheiro, como assistir a uma aula ou responder algum questionário.

“Com isso a gente começa a simular aspectos que envolvem o consumo por necessidade e o consumo por desejo, por exemplo. Lá dentro eu posso comprar uma roupa que me vista, mas eu posso comprar uma roupa mais cara, porque ela é mais bonita e tem um impacto envolvido. Apesar de ser dinheiro fictício, tem tudo a ver com o conceito de administração das finanças”, comenta o empresário, que está prestes a lançar a versão do metaverso familiar. “Eu costumo dizer que a educação financeira não é só sobre dinheiro, é sobre recursos. Quando você ensina a criança a lidar com isso, ela vai aprender a lidar com o dinheiro, com o tempo e com o talento.”

Conta digital e cartão de débito para criança

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) realizada em abril deste ano identificou o maior nível de endividamento desde 2010: o número de lares brasileiros com dívidas alcançou 77,7% das famílias. O mesmo levantamento mostrou o cartão de crédito como um dos maiores vilões da saúde financeira nesse mesmo período, atingindo 87% dos consumidores.

Com o objetivo de mudar esse panorama, a Mozper chegou ao Brasil em janeiro de 2022 após dois anos operando no México. A plataforma de educação financeira ensina crianças e adolescentes sobre controle financeiro e como tomar decisões inteligentes quando o assunto é dinheiro.

Gabriel Roizner, CEO e cofundador da Mozper, com o cartão da startup na mão: autonomia das crianças. Foto: JP. Mubarah

No aplicativo, os jovens recebem um valor pela realização de tarefas estabelecidas pelos pais. Além disso, com um cartão de débito Visa, os responsáveis disponibilizam orçamentos específicos para cada categoria de consumo: 50% entretenimento e 50% alimentação, por exemplo. “Dar um cartão para uma criança não é educar financeiramente, você só está mudando a forma de pagamento do meio físico para o digital. Para nós esse aprendizado é uma consequência da repetição de atividades que simulam a criação de hábitos que envolvem o dinheiro”, explica Gabriel Roizner, CEO da Mozper.

Com mais de 50 mil usuários, a plataforma utiliza uma inteligência artificial para analisar os estabelecimentos e limitar os gastos no cartão conforme a renda disponibilizada por orçamento. “A gente quer que essa criança aprenda a ter uma relação boa com o consumo. Ela vai ter que pagar pelas coisas, mas ela sabe que se gastar tudo, depois ela vai ficar sem”, explica.

Outro exemplo voltado à educação financeira é a Finkids. A startup começou a tirar a sua ideia do papel em 2020 e, neste ano, passou pelo programa de aceleração da Bluefields. Com previsão de lançamento para outubro deste ano, o aplicativo deverá oferecer jogos e trilhas de aprendizado voltados a conceitos básicos de finanças pessoais, desde a origem do dinheiro até produtos de investimentos.

“A gente está focando muito na metodologia que vai ser aplicada. Trabalhamos com um time de psicopedagogas que estão nos ajudando a traduzir esses temas para que seja uma coisa mais lúdica e efetiva”, conta Lucas Silva, CEO da Finkids.

Consumo consciente 

Nunca é cedo demais para ensinar as crianças sobre dinheiro, diz Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin). Desde cedo, explica ele, as crianças aprendem sobre a funcionalidade do dinheiro na prática. Sendo assim, educar financeiramente ainda na infância possibilita a criação de uma relação saudável com o dinheiro. 

“Se você der duas moedas para uma criança e explicar que metade ela pode guardar para desejos a longo prazo e a outra parte ela pode gastar com balas e chocolate, isso vai moldar o comportamento dela e ensinar a importância de equilibrar desejos e necessidades, por exemplo.”

Nossos hábitos de consumo, segundo Reinaldo, são uma reprodução do que nossos pais, avós e bisavós faziam, sendo que a educação financeira nunca fez parte do cotidiano do brasileiro.

Um estudo realizado pelo Itaú Unibanco, em parceria com o Datafolha e a consultoria Box1824, constatou a relação negativa do brasileiro com o dinheiro -  97% dos entrevistados afirmaram ter dificuldade em lidar com as finanças, enquanto 46% preferem não olhar para o seu dinheiro por medo de fazer algo errado.

Para Eduardo da Tindin, o maior desafio nesse processo com crianças é envolver toda a família e quebrar tabus. “Aprender sobre finanças não é um bicho de sete cabeças. Não é sobre matemática ou sobre cálculos, é sobre mudança de comportamento e isso não envolve apenas a criança.”

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni

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