Matheus Lopes Rodrigues
Matheus Lopes Rodrigues

Mesada digital e cartão para criança são trunfos de startups para educação financeira

Pequenas empresas ensinam a poupar e investir com a ajuda da tecnologia; impulsionadas por novo currículo escolar, Tindin, Mozper e Finkids veem demanda crescer

Bruna Klingspiegel, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2022 | 05h02

Com o crescimento do número de endividados no Brasil, discutir sobre finanças desde cedo tem se tornado indispensável para incentivar bons hábitos e melhorar a relação dos brasileiros com o dinheiro. Obrigatória nas escolas desde 2020, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) implementou o ensino de educação financeira como tema transversal nas salas de aula. Diante desse cenário, a demanda impulsiona pequenas empresas como Tindin, Mozper e Finkids, que, aliadas à tecnologia, ensinam conceitos financeiros complexos de forma lúdica e gamificada para crianças e adolescentes.

Fundada em 2018 no Paraná, a Tindin Educação & Finanças é uma startup especializada em educação financeira para crianças que, por meio de aplicativos voltados às famílias ou às escolas, explica na prática conceitos relacionados a dinheiro, consumo, empreendedorismo e investimento.

O que começou como uma necessidade familiar logo se transformou em uma oportunidade de negócio, conta Eduardo Schroeder, CEO e fundador da empresa. Com 3 anos, seu filho passou por alguns problemas relacionados ao consumismo infantil. Nesse período, ele começou a pesquisar sobre educação financeira e colocou em prática o conceito de mesada educativa. “Ele começou a ganhar uma ‘semanada’ e tinha que poupar até ter o suficiente para comprar o que ele queria”, conta o empreendedor.

Com a necessidade de consumo do filho também evoluindo, veio a ideia do primeiro produto da Tindin em 2018: uma carteira digital de mesada educativa. “Um dia ele chegou pra mim e disse: ‘Pai, quero comprar seu cartão de crédito, no videogame não aceitam minhas moedas’”, recorda-se.

Com foco exclusivamente educacional, a plataforma pode ser usada pelos pais para controlar os gastos dos filhos e ajudá-los a poupar. Em sua primeira versão, o aplicativo trabalhava com dinheiro real e transações financeiras, mas os sócios decidiram focar exclusivamente na sua funcionalidade educativa. "Todo dinheiro que tem lá é lúdico. A criança vai poupando o valor e, quando ela quer resgatar, aciona o SAC e o pai entrega o valor para ela”, diz.

Com a educação financeira obrigatória nas salas de aula, em 2020 a startup lançou sua primeira plataforma gamificada para as escolas. Em um ambiente virtual, os alunos se tornavam moradores de uma cidade e gerenciavam sua vida financeira, como em um jogo de tabuleiro, com compra e venda de casas, por exemplo. 

Com a pandemia, o contexto mudou. Por mais que fosse necessário cumprir as diretrizes da BNCC, dentro das escolas a prioridade também era sobreviver e conseguir atender o modelo de educação remota. “Nós pensamos: e se em vez de colocar a educação financeira dentro das disciplinas, colocássemos todas as disciplinas dentro da educação financeira? Foi aí que surgiu nosso metaverso”, conta.

A plataforma multidisciplinar se tornou um ambiente virtual de aprendizagem, em que os professores podem colocar os seus conteúdos educacionais e criar trilhas de aprendizado para qualquer disciplina. O aluno se transforma em um personagem e tem que se alimentar, se vestir, escolher onde morar e realizar atividades para ganhar dinheiro, como assistir a uma aula ou responder algum questionário.

“Com isso a gente começa a simular aspectos que envolvem o consumo por necessidade e o consumo por desejo, por exemplo. Lá dentro eu posso comprar uma roupa que me vista, mas eu posso comprar uma roupa mais cara, porque ela é mais bonita e tem um impacto envolvido. Apesar de ser dinheiro fictício, tem tudo a ver com o conceito de administração das finanças”, comenta o empresário, que está prestes a lançar a versão do metaverso familiar. “Eu costumo dizer que a educação financeira não é só sobre dinheiro, é sobre recursos. Quando você ensina a criança a lidar com isso, ela vai aprender a lidar com o dinheiro, com o tempo e com o talento.”

Conta digital e cartão de débito para criança

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) realizada em abril deste ano identificou o maior nível de endividamento desde 2010: o número de lares brasileiros com dívidas alcançou 77,7% das famílias. O mesmo levantamento mostrou o cartão de crédito como um dos maiores vilões da saúde financeira nesse mesmo período, atingindo 87% dos consumidores.

Com o objetivo de mudar esse panorama, a Mozper chegou ao Brasil em janeiro de 2022 após dois anos operando no México. A plataforma de educação financeira ensina crianças e adolescentes sobre controle financeiro e como tomar decisões inteligentes quando o assunto é dinheiro.

No aplicativo, os jovens recebem um valor pela realização de tarefas estabelecidas pelos pais. Além disso, com um cartão de débito Visa, os responsáveis disponibilizam orçamentos específicos para cada categoria de consumo: 50% entretenimento e 50% alimentação, por exemplo. “Dar um cartão para uma criança não é educar financeiramente, você só está mudando a forma de pagamento do meio físico para o digital. Para nós esse aprendizado é uma consequência da repetição de atividades que simulam a criação de hábitos que envolvem o dinheiro”, explica Gabriel Roizner, CEO da Mozper.

Com mais de 50 mil usuários, a plataforma utiliza uma inteligência artificial para analisar os estabelecimentos e limitar os gastos no cartão conforme a renda disponibilizada por orçamento. “A gente quer que essa criança aprenda a ter uma relação boa com o consumo. Ela vai ter que pagar pelas coisas, mas ela sabe que se gastar tudo, depois ela vai ficar sem”, explica.

Outro exemplo voltado à educação financeira é a Finkids. A startup começou a tirar a sua ideia do papel em 2020 e, neste ano, passou pelo programa de aceleração da Bluefields. Com previsão de lançamento para outubro deste ano, o aplicativo deverá oferecer jogos e trilhas de aprendizado voltados a conceitos básicos de finanças pessoais, desde a origem do dinheiro até produtos de investimentos.

“A gente está focando muito na metodologia que vai ser aplicada. Trabalhamos com um time de psicopedagogas que estão nos ajudando a traduzir esses temas para que seja uma coisa mais lúdica e efetiva”, conta Lucas Silva, CEO da Finkids.

Consumo consciente 

Nunca é cedo demais para ensinar as crianças sobre dinheiro, diz Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin). Desde cedo, explica ele, as crianças aprendem sobre a funcionalidade do dinheiro na prática. Sendo assim, educar financeiramente ainda na infância possibilita a criação de uma relação saudável com o dinheiro. 

“Se você der duas moedas para uma criança e explicar que metade ela pode guardar para desejos a longo prazo e a outra parte ela pode gastar com balas e chocolate, isso vai moldar o comportamento dela e ensinar a importância de equilibrar desejos e necessidades, por exemplo.”

Nossos hábitos de consumo, segundo Reinaldo, são uma reprodução do que nossos pais, avós e bisavós faziam, sendo que a educação financeira nunca fez parte do cotidiano do brasileiro.

Um estudo realizado pelo Itaú Unibanco, em parceria com o Datafolha e a consultoria Box1824, constatou a relação negativa do brasileiro com o dinheiro -  97% dos entrevistados afirmaram ter dificuldade em lidar com as finanças, enquanto 46% preferem não olhar para o seu dinheiro por medo de fazer algo errado.

Para Eduardo da Tindin, o maior desafio nesse processo com crianças é envolver toda a família e quebrar tabus. “Aprender sobre finanças não é um bicho de sete cabeças. Não é sobre matemática ou sobre cálculos, é sobre mudança de comportamento e isso não envolve apenas a criança.”

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni

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