Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Marcas de moda apostam na reutilização de couro e até guarda-chuva

Empreendedoras investem em conceito de reciclagem para produzir peças como casacos e bolsas com sobras da indústria ou reaproveitamento de peças usadas

Isaac de Oliveira, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 06h01

Especial para o Estado 

Aliando criatividade e consciência socioambiental, marcas investem no upcycle - conceito baseado na reutilização de materiais - para empreender no mercado da moda. A partir do reaproveitamento de matérias-primas, como couro e tecidos de guarda-chuva, negócios desenvolvem produtos que visam sustentabilidade e inclusão social.

Somente em 2019, o Brasil exportou mais de 181,9 milhões de metros quadrados de couro e pele, movimentando em torno de R$ 4,8 bilhões, segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil. Contudo, parte da produção fica parada em estoques, a exemplo das peles de aprovação de mostruário, explica a empreendedora Petula Silveira.

Após 12 anos atuando no setor calçadista, a designer se uniu à amiga Amanda Py para criar a PP Acessórios, marca que cria produtos de vestuário e decoração a partir do couro excedente da indústria de calçados. “É muita pele que sobra e muitas (fábricas) não descartam da maneira correta porque isso é caro. E quando é descartado da maneira incorreta dá um grande impacto ambiental”, alerta.

O cerne do negócio da PP, com lojas em São Paulo e Porto Alegre, é a prática de um design sustentável, desenvolvendo produtos com responsabilidades social, ética e ambiental.

A partir de uma curadoria semanal em estoques de fábricas no Rio Grande do Sul, as empresárias compram peles sem uso e as transformam em bolsas, vestidos, almofadas, entre outros produtos. Ao todo, são 240 itens em catálogo, que variam de R$ 20 a R$ 520. De acordo com a designer, a marca trabalha com a política de reutilização total.

“Quando eu compro essa pele, eu tenho a responsabilidade ambiental de não mexer nela, nada de cor, brilho, textura, senão eu vou gerar um outro impacto (no ambiente). A PP é resíduo zero. Tudo que vai sobrando da pele grande, a gente vai diminuindo, e usamos todo o couro.”

Petula diz que a marca repõe no mercado, em média, 500 metros quadrados de couro e diminui a produção de meia tonelada de matéria-prima e meia tonelada de material tóxico no solo, por ano.

Em São Paulo, outro negócio aposta na reutilização de materiais, como guarda-chuvas descartados que são transformados em jaquetas. A iniciativa faz parte das ações da Betopia, uma marca que busca promover reflexões para a sociedade e os consumidores, focando em questões sociais e ambientais, segundo Raissa Pinati, idealizadora da marca.

Feita a vários braços, a Betopia busca dar protagonismo a empreendedores menores por meio de parcerias. As capas de guarda-chuva, por exemplo, são recolhidas pela Kombossa Seletiva e pela E-sustentável, que são pequenos negócios de coleta seletiva. Já a fabricação das jaquetas é feita por um grupo de costureiras intermediadas pelo Instituto Ecotece.

No caso da microempresa E-Sustentável, conta Raissa, a atuação do fundador Evaldo Garcia é em Lavras (MG), onde ele recolhe guarda-chuvas, tira o tecido da estrutura de metal, faz a higienização das capas e envia para a Betopia por correio, para que sejam transformadas em outras peças.

“Além de pensar na criação dos produtos, que têm por si só um apelo reflexivo e ambiental, a gente procura trazer para o storytelling de cada temporada empreendedores de periferia ou que no geral são desfavorecidos pela sociedade, e que a gente entende que merecem um holofote”, diz Raissa.

Criada em 2017, a Betopia disponibiliza seus produtos no site, ainda com produção tímida, mas em busca de expansão. “Nos dois últimos anos a marca passou pelas fases de planejamento e execução do piloto. O modelo atual encontra-se na transição para a expansão. Pretendemos intensificar a publicidade e colocar os produtos em pontos físicos para revenda”, diz Raíssa, que procura investidores.

Mudança do mercado consumidor

Com os anos de mercado, o aprendizado mostra que há uma maior receptividade dos consumidores às causas sustentáveis, dizem as empreendedoras. Petula recorda que, no início da PP Acessórios, enfrentou muita resistência por reutilizar material.

“Se a gente falava que era excedente, as pessoas ouviam como lixo. Quantas vezes a gente estava em uma loja e falavam: ‘Isso é resto?’. As pessoas não imaginavam ter que pagar por alguma coisa que era ‘resto’”, lembra.

Hoje, ela diz viver outro momento, em que as pessoas valorizam esse tipo de trabalho e grandes empresas se interessam em parcerias. A PP já fechou negócios com marcas como Red Bull, Google e Nike, para as quais produziu brindes (em lotes de larga escala, com 5.000 unidades) como carteiras, cases de notebook, porta-passaportes, tag de malas etc.

Já Raissa avalia que o mercado sustentável ainda segue tímido e defende preços mais acessíveis para se chegar a um consumo mais massificado. “É muito difícil você ver alguma coisa por menos de R$ 300 neste mercado de jaquetas. A gente colocou uma porcentagem até pequena de lucro, com produto a R$ 170, porque queremos atingir uma conscientização em massa”, conta.

Tudo o que sabemos sobre:
empreendedorismocouromodavestuário

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.