Estúdio Gastronômico
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Marcas de chocolate fazem frete grátis para salvar Páscoa

Vendas online, no entanto, não são suficientes para cobrir expectativa pré-coronavírus e negócios preveem queda; para quem vende a terceiros, temor é ovo ficar na prateleira

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 13h25

Lojas fechadas por conta do novo coronavírus levaram empreendedores de todos os ramos a apostarem em vendas online e delivery. No caso de pequenas e médias marcas de chocolate bean to bar (de DNA artesanal, sem a lógica de produção da grande indústria), ovos de Páscoa estão sendo levados a qualquer canto da cidade de São Paulo com frete grátis para tentar salvar a produção.

Além disso, a comunicação tem se ampliado, envolvendo não só as vendas pelo site das marcas e por aplicativos como Rappi, como também por WhatsApp e mensagens via e-mail ou pelo Instagram. Tudo para alcançar o cliente nessa reta final de 10 dias anteriores à data, que tradicionalmente são os mais fortes para venda de ovos de Páscoa. Ainda assim, os negócios esperam queda de até 70% no faturamento por conta do isolamento social.

A marca Dengo, que possui 18 lojas no País sendo 8 na capital paulista, sofreu o impacto da restrição de circulação desde o fim de semana do dia 14 de março, já que suas lojas estão todas em shopping centers.

“Desde o domingo dia 15 a gente já percebia o decréscimo de fluxo. No dia 20 não abrimos mais. E a gente acredita que não é com o fim do decreto que o consumidor vai sair à rua em seguida. Não acreditamos num retorno imediato”, afirma Estevan Sartoreli, CEO da Dengo, marca que usa cacau especial do sul da Bahia para produzir chocolate na fábrica em São Paulo. No momento, ela está parada, assim como o plano de abertura de novas lojas para este ano.

Para abastecer as 18 lojas nesta Páscoa, a Dengo já tinha pelo menos 70% do estoque nas prateleiras. Agora, está tentando ampliar a participação das vendas online no faturamento (hoje de apenas 2%), entregando com frete grátis para toda a cidade. As compras de ovos (R$ 98, 260g) podem ser feitas pelo site da marca, via Rappi e iFood, e ainda por meio de uma conta nova de WhatsApp (11 97183 6890).

Nesta sexta-feira, 3, a marca também lançou a campanha “Mande um Dengo”, para formar via WhatsApp uma corrente de presentes, em que uma pessoa compra e manda um chocolate para outra. Ainda assim, a marca trabalha com uma quebra no faturamento da Páscoa de no mínimo 30% e no máximo 70%. “O varejo da Páscoa foi o mais afetado, não deu tempo para ninguém se planejar”, diz Sartoreli.

Com a ajuda de empórios

Para marcas menores de chocolate bean to bar, que dependem mais da Páscoa do que a Dengo, o impacto pode ser maior. No caso da Gallette, a Páscoa responde por cerca de 50% do faturamento anual da empresa. Após ter dobrado o quadro de funcionários para atender o volume de pedidos, a empreendedora Gislaine Gallette teve de recuar e a fábrica segue parada desde o dia 23.

Foi o tempo de entregar os pedidos já encomendados por empórios da cidade, para onde Gislaine vende o ano todo, como rede St Marche, além de sua loja própria na zona norte de São Paulo. “A gente já fez todas as entregas, agora a gente está aqui na expectativa para que eles vendam, para a gente poder receber lá na frente. É um pagamento pós-Páscoa.”

Para ajudar, a venda online é uma saída, mas segundo a chocolateira não é exatamente para ter lucro, “e sim para pagar parte dos investimentos já feitos”. Ante uma queda já registrada de 70% nas vendas, a Gallette aposta na venda por um número de WhatsApp (11 98109 3640) e pelo site, com frete grátis. “A quarta e a quinta-feira antes da Páscoa costumam ser as datas mais fortes para venda. É uma esperança.”

A marca Mestiço, do chocolateiro Rogerio Kamei, disponibilizou também um e-mail para as vendas, além dos contatos via redes como Facebook e Instagram. Com a fábrica em São Paulo fechada, o próprio Rogerio, que cultiva seu cacau no sul da Bahia, tem feito as entregas na capital.

De acordo com ele, o cancelamento de feiras entre março e começo de abril (como Bazar da Cidade e Mercado das Madalenas) afetou a expectativa para a Páscoa e ele teve de reduzir a produção. A previsão era fazer de 400 a 450 ovos, mas conta ter feito 70 ovos (310g, R$ 130), uma parte já vendida.

Da parte que foi entregue em empórios, que representam 60% no seu faturamento, a expectativa é que eles consigam vender ao cliente final, para não terem que renegociar prazos de pagamentos dos ovos.

“Neste mês a gente começa numa batalha de sentar e fazer conta. Já já vou ter de ligar para o proprietário do imóvel (da fábrica) para negociar. Não conto com a possibilidade de ter que demitir ninguém agora, pois espero ter caixa até maio. Depois, preciso ver as opções que tenho”, diz Rogerio.

Casa Santa Luzia com vendas por e-mail

Empório paulistano que concentra 110 fornecedores de ovos de Páscoa, de microempreendedores à grande indústria, a Casa Santa Luzia mantém o estoque praticamente igual ao do ano passado para a data e espera uma força maior nas vendas nos próximos dias.

“Páscoa é sempre dez dias antes, isso é um hábito que a gente percebe há muitos anos. Acredito que a partir deste fim de semana, logicamente não no volume que se esperava, as pessoas vão atrás de ovos para as crianças, para mandar para um avô, uma avó confinada”, diz Ana Maria Lopes, diretora-geral do Santa Luzia.

A loja, que fica na zona oeste de São Paulo, restringiu o acesso dos clientes, seguindo as orientações de prevenção contra o novo coronavírus, com formação de fila na calçada e maior espaçamento entre as pessoas. Entre os 610 funcionários, cerca de 5% fazem parte do grupo de risco e estão afastados. Todos os outros têm medição de temperatura constante.

Para quem não vai à loja, as vendas online foram incrementadas por e-mail e via Rappi, já que o e-commerce não entrega perecíveis (e as compras por Rappi e e-mail, sim).

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