Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Marcas de brownie trazem DNA de homens na cozinha

Na carona do carioca Brownie do Luiz, que abriu loja em São Paulo, outros negócios apostam no doce com apelo masculino

Samuel Costa, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 16h00

Especial para o Estado

Brownie do Luiz, do Cadu, do Rapha, do Binho e ainda Mário, Miguel, Zé, Paiva, Pierre, Ton, Cacá, Bira, Max. Uma lista quase interminável traz homens que dão seus nomes a marcas de brownies. Em um grupo no WhatsApp com fazedores do doce, são mais de 200 marcas de DNA masculino, segundo relatam alguns dos envolvidos. Eles se espalham por todas as partes do País, do Rio Grande do Sul ao Piauí.

Coincidência ou não, muitos negócios surgiram depois que o carioca Luiz Quinderé, do Brownie do Luiz, despontou na produção desse bolo tipicamente americano. “É a história do menino americano que vendia limonada na porta de casa e prosperou”, diz ele, numa metáfora da própria trajetória.

Sua marca, que é uma febre no Rio e abriu a primeira loja em São Paulo no fim de agosto, começou em 2005. Luiz ainda era adolescente quando passou a vender brownies na escola. Em 2012, durante a faculdade de administração, sua aparição num programa de TV aberta impulsionou o negócio de forma que nem ele esperava.

Hoje, aos 29 anos, Luiz contabiliza três lojas próprias no Rio e uma em São Paulo, além de 1.500 estabelecimentos revendedores nas duas cidades e também em Brasília.

Depois de começar artesanalmente, cozinhando por seis anos na casa dos pais e levando os brownies na mochila para vender, Luiz hoje conta com uma fábrica de 1.250 metros quadrados. Na zona norte da capital fluminense, a fábrica produz 8.000 brownies por dia de sete sabores (além do tradicional de chocolate, tem de maracujá, limão, chocolate branco e outros).

É dali que saem os caminhões para abastecer as lojas e os revendedores de Rio e São Paulo. Já na capital federal, os brownies são confeccionados por um parceiro comercial de Luiz. Além dos brownies, Luiz também administra uma marca de pão de queijo (Yuca Pão de Queijo, vendida em lojas parceiras do Rio) e uma empresa de logística, que abriu após ganhar experiência com a distribuição dos brownies. 

Segredo é produto com alma

Para o empreendedor, o sucesso da marca está atrelada à sua história e à experiência do cliente. “O meu storytelling é um baita ativo da minha marca”, afirma Luiz.

E ele não está errado. Segundo o coordenador acadêmico de educação executiva do Insper, Rodrigo Amantea, estratégias do empresário podem ser vistas em seu site. “Luiz disponibiliza a receita e diz que o brownie é uma mistura de cacau com felicidade. Quando faz isso, ele está dizendo que o produto dele tem alma.”

Amantea diz, no entanto, que o desafio é “crescer sem perder essa essência e perpetuar a marca”, mantendo-a atrativa. Para o professor, a personificação pode ser negativa em momentos de venda da empresa ou de passagem da administração para herdeiros.

“A grife do Alexandre Herchcovitch durou cinco anos depois que foi vendida”, exemplifica. Para sobreviver, o professor diz que a empresa deve “extrapolar o produto” e firmar os valores da marca para que ela tenha uma trajetória longeva. “É necessário que esteja claro para o cliente quais características do fundador ainda estão na empresa, que ela perpetua o seu compromisso”, esclarece.

No caso dos brownies, Amantea afirma que o uso do nome dos confeiteiros é uma estratégia de demarcação de qualidade e está atrelada à forma artesanal de produção. Ainda assim, diz, em um setor com inúmeros concorrentes, corre-se o risco de cair no “mimetismo, de ser conhecido como cópia”.

Luiz Quinderé reconhece que ter começado há mais tempo ajudou no negócio, diante da baixa concorrência. “Era difícil encontrar brownie na minha época. Hoje, tem muita gente atuando no setor, isso acaba exigindo que o cara seja mais inovador.” Por outro lado, pontua, o mercado tem espaço para muitos microempreendedores e a própria figura jurídica do MEI - que não existia quando ele começou - facilita a formalização.

Outros brownies de homem

Em Juiz de Fora, zona da mata mineira, o ex-professor de educação física Raphael Mendes começou a fazer brownie em 2012 depois de ver o Brownie do Luiz na TV. “Comecei a fazer os doces para vender na faculdade.”

O que era sustento temporário durante os estudos virou negócio. Hoje, o Brownie do Rapha mantém uma fábrica de 500 metros quadrados em Juiz de Fora, onde é fabricada 1 tonelada de brownie por mês. Rapha tem uma loja na cidade, mas entrega em todo o País.

Agora, mais um galpão está sendo comprado pelo empresário, que aposta na exportação de seus produtos a partir de 2020. “Estamos trazendo um maquinário da Espanha, que vai permitir que o nosso brownie tenha validade de 90 dias em temperatura ambiente e de 1 ano congelado”, conta ele. A expectativa é que o brownie mineiro chegue a lojas de Portugal, Argentina, Uruguai e Colômbia no ano que vem.

Já em São Paulo, o Brownie do Binho atende encomendas de pessoas físicas e jurídicas, como restaurantes e eventos, com produção mensal de 5 a 6 mil unidades, vendidas a preço médio de R$ 5. Confeiteiro da Mooca, na zona leste, Fábio Martins, de 38 anos, iniciou o seu empreendimento em 2012.

Apesar de ter vindo na esteira da fama do Brownie do Luiz, Binho conta que aprendeu a fazer o bolo em Dublin, onde morou de 2007 a 2010, para trabalhar. Nessa época, havia trancado a faculdade de economia, que acabou não concluindo depois.

Na volta, com R$ 50 emprestados da mãe, fez uma batelada de brownies, colocou-os à venda na loja de roupas do irmão e, diante do sucesso, resolveu apostar no negócio.

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